“O violador és tu”: a música de protesto das mulheres do Chile que está a arrepiar o mundo

"É femicídio, impunidade para o meu assassino. É o desaparecimento. É violação. E a culpa não era minha, nem de onde estava, nem do que vestia. O violador és tu".

A "convocatória" chegou através das redes sociais: o colectivo feminista chileno Lastesis chamava todas as mulheres a participarem numa intervenção a ser realizada esta segunda-feira, dia 25 de Novembro, em Santiago do Chile, no Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, que também foi assinalado em Portugal com várias iniciativas. O dress code era fundamental: algo que as mulheres usassem para sair à noite, roupa de festa com glitter ou transparências, e uma venda preta.

O mais importante, porém, era mesmo saber a letra da música e a respectiva coreografia da performance Un Violador en tu Camino. Até foi disponibilizado um vídeo de uma acção anterior para que todos os interessados pudessem aprender a melodia. "Para aqueles que querem acompanhar-nos, mas não intervir, convidamos a participar fazendo um círculo de contenção/campo de força [à volta]", escreveu ainda o colectivo numa publicação na sua página do Instagram.

Como não bastam cartazes, gritos e palavras, as jovens do Latesis decidiram recorrer à música para fazerem passar a sua mensagem. Espalhadas em grupos por vários pontos estratégicos de Santiago do Chile (junto ao Tribunal de Justiça, no campus da Universidade Mayor ou no centro da cidade), centenas de mulheres protestaram contra o femicídio e exigiam medidas mais duras por parte do Governo. E se o objectivo era serem ouvidas pela população e governantes do Chile, esse foi em muito ultrapassado.

Os vídeos filmados por espectadores das várias performances estão desde então a ser partilhados nas redes sociais e vários já contam com mais de 10 mil visualizações — entre eles está este, realizado pelo Colectivo Registro Callejero. O sucesso da música foi tal que as activistas (que se dizem "gratas" pela mensagem ter chegado a tanta gente) já convocou uma nova data para uma intervenção semelhante, desta vez mundial. O Latesis incentiva todas as mulheres a levarem esta acção para a rua no dia 29 de Novembro, para que a mensagem "seja ouvida por todos e em os territórios". Por cá, já há convocatória para realizar a performance dia 8 de Dezembro, na Praça do Comércio, em Lisboa, e no Porto, a 14 de Dezembro.

Segundo a Rede Chilena Contra a Violência Sobre as Mulheres, em 2019 registaram-se 58 femicídios no país, refere o jornal espanhol Público. E desde que começaram os protestos contra as desiguldades sociais, têm-se multiplicado denúncias de violência contra mulheres nas manifestações chilenas — o mesmo periódico indica que o Instituto Nacional de Direitos Humanos apresentou 79 queixas por violência sexual.

O aumento do preço do metro foi a faísca que desencadeou as manifestações, ainda em Outubro, mas depois do envio do Exército para as ruas, mais de um milhão de pessoas saíram para as ruas. A contestação levou inclusive o país a cancelar a cimeira do Clima COP25. O Governo tem tentado apaziguar a tensão social que está a mergulhar o país numa crise institucional. Desde que os protestos começaram, já morreram 22 pessoas e mais de duas mil ficaram feridas, mas está instalada sobretudo uma desconfiança aguda da população em relação às instituições.

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