Reuters/RICARDO MORAES
Foto
Reuters/RICARDO MORAES

Megafone

Jesus também é português

Este Jesus não tem vergonha. Jesus diverte e entretém porque é diferente do comum mortal e chegou lá acima assim sendo e com orgulho de o ser assim. Não foi special one, nem tão pouco normal one, nem nada que se parecesse.

Quando alguém morre é raro ouvirem-se críticas ao proscrito sobre o que fez da vida. A empatia humana não o permite. Quando Jorge Jesus vence, as palmas tornam-se ensurdecedoras e, agora até, ecoam dos dois lados do Altântico. Só o futebol o permite.

Estádio Rose Bowl, 17 de Julho 1994, Estados Unidos. Em Portugal não havia, ainda, selecção que nos aconchegasse o patriotismo e nós decidíamos ecoar uma buzina canarinha e pintar com as cores tropicais as caras portuguesas. Éramos todos do “escrete”, do povo irmão, e tornávamo-nos assim filhos de Romário, Bebeto, Zagallo e Taffarel. A minha mãe, ainda antes dos penáltis, finalizou: “Já para a cama!”

Podia ter dormido todas as horas de todas as noites que, ao acordar, nunca esqueceria a minha primeira memória da redondinha. Aquele rabo de cavalo do Baggio e a biqueira do baixinho. O Brasil foi tetra e hoje é pentacampeão, O país imperador no desporto-rei. A selecção que espalha classe por todos os relvados. O seu domínio sempre foi reconhecido por todo o mundo, pela qualidade superlativa dos que conseguem poesia com os pés. Conquistou o mundo com a desconcertante sambada que dá na cara do adversário, o que torna o jogador brasileiro um insolente vencedor incompreendido pelos tais idiotas da objectividade, como tão bem apelidava Nelson Rodrigues. Faz o golo e festeja, brinca e comemora de “chopp” na mão, prova que podemos fazer bem sem sermos culpados. Sorriso na cara, vive entre as linhas limites do campo, meias para baixo, fio gingando e sempre despreocupado.

Mais tarde, o Brasil embateu com a realidade do futebol físico, táctico e estratégico.

Jesus não é entendido por todos, tal como o jogador brasileiro. Poucos entendem a pela qual não pára de dar pontapés na gramática — e para isso surgiu o dicionário de memes JJ bóçe —, poucos compreendem o empurrão a uma glória do Benfica e ainda menos perceberão porque tenta sempre diminuir o passado dos clubes que treina. Eu também não entendo muita coisa nele mas sei que hoje já há filhos de Jesus por esse Brasil fora. Esses filhos não tiveram que esperar pelos penáltis, como eu, e podem bem agradecer a Gabigol e às suas duas pancadas e à mãe por não os ter mandado para a cama mais cedo. Para os filhos de Jesus está construída a sua primeira grande memória futebolística, que nunca esquecerão por mais horas que durmam esta final da Libertadores e o Brasileirão. Nascidos na era em que já não existe o preconceito do padeiro e do “Manuel do bigode”, lembrarão que foi o mister português a reconduzir o principal clube brasileiro ao topo do futebol sul-americano. O português, a partir de agora, será diferente na boca salgada dos novos filhos do povo irmão.

Jesus criou uma ponte que, durante anos, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) sequer imaginou ser possível. Abraçou-se, então, a lusofonia e os dois países andaram de mãos dadas romanceados por uma paixão que, até agora, durou seis meses. Falou-se como nunca de Portugal no Brasil, metemos conversa com brasileiros com quem antes apenas cruzávamos olhares, descobrimos que urubu é uma linda ave, que não tem medo de voar e ser feliz, e não apenas mais uma inspiração em forma de albuum de Jobim que nos recebe de braços abertos, qual Cristo Redentor, na sua pista, não é Tom? Chegámos a elogiar os bagos de café brasileiro só para conseguirmos prolongar as madrugadas para ver jogos do Ceará ou do Avaí. Os botecos transformaram-se em tascas, o calçadão em marginal e o Maracaná nas docas. Jesus quebrou as barreiras, fez vencer os medos e aproximou dois povos.

Dois povos que falam a mesma língua com pequenas grandes diferenças, mas insistem que nos esqueçamos delas sem perceberem que isso nos torna mais pobres. Faz sentido os brasileiros e os portugueses serem mais pobres, Jesus? Ele respondeu levando num braço a cultura portuguesa ao Brasil e trazendo no outro mais tropicalidade para Portugal. Se não é para isto que o desporto serve, para aproximar as pessoas, não sei bem qual será o seu intuito. Com direito a taça e homenagem porque vivemos no tempo da glória sem fim. E uns vencem e os outros perdem, não é? Na corrida para ganhar o capital, haverá sempre os espertalhões. Jesus, para lá de misericordioso, convence-nos melhor dos seus milhões do que os seus pares e, por isso, foi alvo de inveja, ela vem sempre atrelada ao sucesso.

No futebol, só a vitória nos convence e chegou a hora de Jesus convencer o mundo. Ele, tal como o urubu, nunca teve medo de convencer os outros que sabe ser feliz. Este Jesus não tem vergonha. Jesus diverte e entretém porque é diferente do comum mortal e chegou lá acima assim sendo e com orgulho de o ser assim. Não foi special one, nem tão pouco normal one, nem nada que se parecesse. Sempre foi o Jesus que ia vencer no futebol à la Cruyff da Amadora. Foi mesmo lá debaixo que começou, demonstrando o seu amor(a) ao futebol relâmpago. Complicou tudo o que havia a complicar, passou por vários sistemas tácticos, desde linhas de três defesas sanguinários a quatro avançados saltimbancos, e hoje o seu futebol acaba por ser simples. Mas de uma exigência total. Tal como Pollock engana os espectadores convencendo-os da simplicidade dos seus salpicos, Jesus faz o mesmo. Nada mais errado, no entanto. Apenas quem já domina todas as regras do jogo se permite a quebrá-las e assemelhar-se a qualquer coisa de pueril.

Parece-me que já tinha atingido este patamar há alguns anos, mas nunca tinha estado rodeado da dose certa de loucura, instabilidade e pressão necessárias para que se sentisse confortável. O contexto é tudo para a acção do homem e o Brasil é o lugar de Jesus. Curiosamente, o país mais católico do mundo. O país de Jesus. Convenceu-nos, tal como Ronaldo, que é possível vencer sendo apenas muito bom no seu trabalho. Um português. Trabalhando, evoluindo e apresentando o sucesso que foge daquela linha que nos traçam à nascença por sermos pequeninos. A meritocracia que convence, mesmo vinda do país das cunhas, dos jeitinhos e dos favores. A meritocracia que venceu no país das desbundas, dos relaxados e dos feriados. Jesus não convenceu, Jesus converteu.

Sugerir correcção