Não há meritocracia sem nepotismo

Pessoalmente, acho bonito que se recompense familiares com cargos. Não há nada mais precioso do que a família, até para socialistas. É fácil atacar o Governo por nepotismo, mas, se os socialistas não têm competência para criar empresas privadas para dar emprego aos seus familiares, têm de o fazer no sector público.

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Daniel Rocha

Um dos grandes desafios do PS nestas eleições é lidar com as inúmeras acusações de nepotismo que lhe foram feitas durante esta legislatura. São acusações injustas a uma das únicas medidas positivas deste Governo. Não podemos estar sempre a acusar a esquerda de não defender valores familiares e, depois, criticá-los por protegerem os seus.

Pessoalmente, acho bonito que se recompense familiares com cargos. Não há nada mais precioso do que a família, até para socialistas. É fácil atacar o Governo por nepotismo, mas, se os socialistas não têm competência para criar empresas privadas para dar emprego aos seus familiares, têm de o fazer no sector público.

O nepotismo não é necessariamente negativo. Uma das vantagens do sucesso é poder ajudar os nossos, por mais incompetentes que sejam. Demonstra um bom coração. Eu não confiaria num homem de sucesso que obrigasse o seu filho a trabalhar. De que serve um homem chegar a ministro se não puder ajudar aqueles que mais precisam? A meritocracia não vale a pena se não puder ser transferida. Se eu cheguei até determinado cargo por mérito, tenho créditos de meritocracia que posso distribuir por pessoas de quem gosto. É uma forma de motivação. O nepotismo é a consequência lógica da meritocracia porque resulta de alguém ter tido tanto mérito e sucesso que os seus descendentes nunca mais vão precisar de lutar pelo que quer que seja.

As pessoas gostam de criticar o nepotismo ou políticos que chegam a cargos por influências familiares. Mas isso é pura inveja. É um privilégio poder começar do nada e, depois de chegar ao topo, poder dizer com autoridade que tudo o que se tem se deve ao seu próprio trabalho. Infelizmente, nem toda a gente tem este privilégio de começar do zero. Muitas pessoas carregam o fardo de terem nascido no seio de pessoas de sucesso que lhes podem dar cargos e influência. Ninguém sofre mais com o nepotismo do que os que, aparentemente, beneficiam do mesmo. Nunca vão atribuir o devido mérito ao Dr. David Carreira. Vão sempre insinuar que, se chegou onde chegou, foi devido a ser filho de quem é. O que é uma tremenda injustiça para com o talento musical do Dr. David Carreira, que é tão nulo como o do seu pai.

O Governo foi criticado por conter uma enorme quantidade de casais. Mas isto é saudável. Poder dar um cargo à esposa é uma forma de combater a infidelidade e de proteger o valor da família. O Dr. Bill Clinton não precisava de recorrer a uma estagiária se a Dra. Hillary não estivesse demasiado ocupada com outras coisas para lhe dar atenção. Na era do #MeToo, em que um homem já não pode fazer nada, a forma mais eficiente de combater situações de assédio sexual é ter as esposas por perto. Elas são quem melhor pode controlar os seus maridos e impedi-los de fazerem algo que faça com que sejam injustamente acusados de assédio.

Acham que um ministro tem coragem de dar uma massagem não solicitada nas costas de uma secretária se tiver a esposa no gabinete ao lado? Se um secretário de estado tiver como chefe de gabinete a esposa de um superior hierárquico também não vai cair em tentação de a assediar. A não ser por vingança. Não há nada mais perigoso do que contratar senhoras através do CV porque são as senhoras que chegam aos cargos pelo seu próprio mérito que são mais assediadas. Até porque muitas são escolhidas em função do seu aspecto físico. É esse o chamado mérito que quem fala mal do nepotismo defende.

Eu ficaria era preocupado se um ministro utilizasse o CV ou a competência para contratar um assessor ou um chefe de gabinete. Seria sinal de que é uma pessoa solitária e que não fez amigos ao longo da vida. Provavelmente seria um psicopata. Eu não confiaria num detentor de um cargo público que não privilegiasse os seus, até porque são estes que estão lá por nós quando precisamos, mesmo que sejam incompetentes.

Para quem não entendeu até agora, trata-se de uma lógica científica: M = N:LF. Isto é, para uma pessoa atingir a M (meritocracia) tem de dividir o N (nepotismo) por LS (laço familiar). Quanto menor for o laço familiar, menor é o resto (competência, neste caso). Assim, a meritocracia atinge-se quando uma pessoa tem a sorte de ser bafejada pelo nepotismo. Quanto mais próximo for o laço familiar de uma pessoa do meritocrata original, mais facilmente vai ela própria padecer de meritocracia. E como está cheiinha de meritocracia ela própria, por vezes falta-lhe a competência (que é facultativa). Normalmente, são os filhos e as esposas que conseguem o nível elevado de meritocracia. Quanto mais longe estiver uma pessoa do meritocrata original, digamos um primo ou uma amante, também vai conseguir ser coberto por esta camada de meritocracia, mas, em princípio, nunca em cargos de grande decisão, como director comercial, secretário de Estado ou ministro da Cultura. No fundo, o nepotismo é a meritocracia de sangue (passe o pleonasmo). Preferem empregar uma pessoa em quem confiam e que passa o Natal convosco e da qual sabem todos os podres (doses diárias de cocaína, uma foto com uma t-shirt do Che Guevara ou uns crocs no armário) ou uma pessoa competente, da qual não sabem nada?

As pessoas têm de perceber que, quando votam num partido, estão também a votar nos amigos das pessoas desse partido. Quando um homem se casa também leva, por arrasto, com a família da sua esposa que não escolheu directamente. Já aconteceu a muitos homens descobrirem, no dia do casamento, que a sua esposa tem funcionários públicos na família. E, nesse ponto, é tarde demais para voltar atrás porque já se comprometeu perante Deus e só mesmo a morte vai fazer com que deixe de ter funcionários públicos na família.

Com a democracia também é assim. As pessoas escolhem os políticos que preferem, mas têm de saber que, com eles, também vêm os seus amigos e familiares. Um político de sucesso é um tubarão e, agarrado a ele, tem umas quantas rémoras que apostaram nele para as transportar grandes distâncias. Ele tem de as tratar bem porque elas também o ajudam: são muitas e, em arruadas e comícios, dão a ilusão de que é um tubarão muito popular. Há inclusivamente rémoras grandes e com dinheiro que não são apenas rebocadas, mas que contribuem para a locomoção do próprio político-tubarão, fazendo-o chegar ainda mais longe. São as rémoras-motor e, geralmente, têm contacto com outros tubarões da área das grandes empresas. Essas rémoras precisam de comer e deixam de aparecer se o tubarão não lhes deitar uma assessoriazinha, uma privatizaçãozinha, um ajustamento directozinho para ela não morrer à fome. Nesse sentido, as pessoas, quando votam, também elegem essas rémoras, essenciais para a democracia e para que o político tenha sucesso. Se um político não tiver rémoras acopladas é sinal de que é fraco e tão pouco carismático que nem estes pequenos peixes-parasita viram nele potencial. É por isso que não podemos criticar demasiado os políticos por ajudarem as suas rémoras. Faz parte do jogo.