Joacine Katar Moreira: “Fui eu que ganhei as eleições sozinha”

No dia em que o partido festejava o seu 6.º aniversário, membros da direcção do Livre e a sua deputada eleita trocaram recados através de comunicados e desmentiram-se mutuamente. Este domingo, a direcção do partido, da qual faz parte Joacine Katar Moreira, reúne-se.

,Eleições legislativas portuguesas de 2019
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A deputada única do Livre, Joacine Katar Moreira, absteve-se da votação sobre a proposta apresentada pelo PCP o que motivou um comunicado da direcção do partido Rui Gaudêncio

A fricção entre o Livre e a sua única deputada eleita Joacine Katar Moreira continua. Depois de uma troca de comunicados, primeiro do Livre e depois de Joacine Katar Moreira, a deputada afirmou que “a falta de apoio” que sente por parte da direcção do partido não é de agora. ​“Fui eu que ganhei as eleições, sozinha, e a direcção quer ensinar-me a ser política”, disse a deputada, em declarações ao Observador, à margem de um jantar comemorativo do aniversário do partido este sábado, em Lisboa.

Em causa está o voto de abstenção da deputada em relação à proposta “de condenação da nova agressão israelita a Gaza e da declaração da Administração Trump sobre os colonatos israelitas” apresentada pelo PCP. A abstenção de Katar Moreira motivou um comunicado da direcção do partido, no qual se dizia “preocupado” com o sentido de voto da deputada, uma vez que não não reflectia as tomadas de posição oficiais do partido sobre a questão palestiniana. Horas depois, Joacine Katar Moreira esclareceu que a “abstenção não se deveu a uma falta de consciência ou descaso desta grave situação, mas à dificuldade de comunicação” com a actual direcção do Livre e que por isso se “precaveu” com a abstenção. A justificação não convenceu a direcção e a troca de ataques continuou.

Ainda assim, a deputada garante que tem “interesse” em manter uma boa relação com a direcção do partido, “quer ao nível da relação institucional, quer ao nível da responsabilização”, ainda que ressalve que até agora isso “nunca aconteceu”. E aponta a idade do partido, que este sábado celebrou o 6.º aniversário: “Ainda estamos em aprendizagem”, disse.

Segundo a deputada, a troca de comunicados poderia ter sido evitada, se o Livre não tivesse avançado com o primeiro comunicado, uma vez que a direcção do Livre tinha encontro marcado para este domingo. “Tínhamos assembleia do Livre amanhã [domingo], conversávamos e íamos resolver isto”, disse.

Quando lhe perguntaram se sentia apoio, a deputada respondeu: “De maneira nenhuma”. De acordo com Joacine, a ausência de apoio recua mesmo ao período pré-eleitoral. 

Sobre a noite eleitoral, também deixa recados: a deputada diz ter-se sentido incomodada com “alguns membros da direcção” e com Rui Tavares que, segundo a própria, festejaram a atribuição de subvenção partidária sem aguardar para saber se conseguiam eleger algum deputado.

Joacine Katar Moreira contou ainda que a comunicação entre a direcção do partido tem-se resumido à troca de e-mails, por canais oficiais, “para que tudo fique registado”.

No comunicado onde reage ao seu partido, a deputada do Livre assumiu “total responsabilidade pelo voto” e esclareceu que “apesar de a abstenção não constituir um voto a favor ou um voto contra” a mesma não representou aquela que tem sido desde sempre a sua posição pública sobre esta temática. “Votei contra a direcção de mim mesma. Condeno totalmente as ofensivas israelitas sobre a Faixa de Gaza e toda a repressão que o povo palestiniano tem sofrido a nível de bloqueios económicos, prisões e perseguições e da implementação dos colonatos israelitas”, vincou.

Depois da troca de comunicados — e ainda antes das declarações da deputada ao Observador — Rui Tavares, fundador do Livre e cabeça de lista por Lisboa em 2015, sublinhou que esta questão “é muito cara ao património” do Livre e que nessas eleições, em que Joacine também foi candidata, o reconhecimento do Estado da Palestina foi até apresentado como condição para dialogar com um futuro governo PS. Na RTP3, já ao final da noite, Tavares classificou este incidente com a agora deputada uma “singularidade”, acrescentando que “não colhe o argumento” de que não conseguiu falar com a direcção antes da votação. “A direcção do Livre é colegial e tem 15 pessoas”, lembrou Tavares.