Tão longe da América, tão perto da Transnístria

Com Transnistra e Lillian, o Porto/Post/Doc explica como o “cinema do real” pode abrir espaço para questionar os locais que julgamos conhecer, ou desconhecer.

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Transnistra, da documentarista sueca Anna Eborn DR

No ano passado, o Porto/Post/Doc levou-nos à Transnístria com Extinção, de Salomé Lamas. Este ano, volta a fazê-lo, mas por outros, e mais desarmantes caminhos, através da documentarista sueca Anna Eborn, cujo Lida esteve na competição do certame em 2017. Agora, Transnistra (Competição Internacional; Rivoli, segunda 25, 14h30, e quarta 27, 18h00) é menos um documentário do que um teen movie, algures entre os idílios bucólicos de algum Éric Rohmer, a nostalgia decorativa das Virgens Suicidas da filha Coppola e o adeus à inocência do American Graffiti de Lucas.

É a história de um Verão à beira-rio de encontros e desencontros românticos de um grupo de adolescentes na república separatista da Transnístria, enclave pró-russo entalado entre a Moldávia e a Ucrânia. No seu centro está Tanya, uma Lolita sedutora e provocante que passa o tempo a fazer gato-sapato dos rapazes. Mas há segredos velados que se adivinham a espaços e que colocam nuvens no horizonte – as cicatrizes nos pulsos de Tanya, os problemas de visão e audição do amigo Tonya; as referências a mortos; o irmão mais novo que vai para a academia militar, os exílios na Europa ou as fugas ao destino anunciadas.

Nunca saberemos exactamente o que é ficção e o que é realidade em Transnistra, e isso é ao mesmo tempo a sua fraqueza e a sua força. O que Anna Eborn nos diz é que tudo o que aqui se passa em nada é diferente de tantos outros fins de verão em qualquer parte do mundo, mas reflecte uma realidade que nada tem a ver com a nossa.

Talvez essa sensação de uma realidade tão próxima como distante se cristalize de modo mais nítido em Lillian (Competição Internacional; Rivoli, segunda 23, 21h30). Enquanto os sons da rádio falam da meteorologia e projectam uma imagem reconfortante e caseirinha da América “do centro”, o restaurante transformado em loja de segunda mão, as casas abandonadas com postais de Natal e comprimidos que já ninguém toma, sugerem um país triste, fechado sobre si próprio.

A América que o documentarista austríaco Andreas Horvath filma aqui não é a América que conhecemos diariamente das notícias, da televisão, dos filmes. Não é a América costeira das grandes metrópoles, mas sim a América rural, regional, esquecida, atordoada. É por estas paisagens, tão desertas como deslumbrantes, que Lillian Alling vai passando enquanto caminha de Nova Iorque para o Alasca a fim de regressar à sua Rússia natal: uma personagem que existiu realmente, que fez realmente o percurso de milhares de quilómetros a pé, e que desapareceu depois de ser vista pela última vez no Canadá, em 1926.

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Lilian, do documentarista austríaco Andreas Horvath DR

A Lillian de Horvath, sem lenço nem documento, é uma criação ficcional do cineasta e da artista polaca Patrycja Planik, que lhe dá corpo e alma ao longo da viagem e do filme. Filme que, embora seja apresentado como ficção, é-o apenas num sentido dramatúrgico, visto que o processo de rodagem foi aberto ao improviso e à interacção com os residentes dos locais por onde se ia filmando. Lillian é algo de indecifravelmente indefinido, um olhar simultaneamente alienígena e compassivo sobre uma sociedade que parece não cumprir as suas promessas e sobre uma mulher que toma o seu destino nas mãos.

A estrutura episódica, oblíqua do filme e a entrega performativa da sua actriz principal fazem-nos perguntar se Lillian não faria mais sentido como instalação – mas nesse processo Horvath arranca imagens de uma beleza de cortar a respiração, amplificadas pelo recurso ao ecrã panorâmico, e Planik mantém intacta a imperturbabilidade granítica da sua Lillian, que não pronuncia uma única palavra ao longo de duas horas de filme. Não sabemos onde Lillian nos leva, mas damos por nós no coração do que é viver, hoje, no mundo que julgamos conhecer mas do qual, na verdade, não sabemos tanto como julgamos. A Transnístria, afinal, não está tão longe assim.