O longo rio tranquilo de Ute Aurand

Com Rushing Green with Horses, a cineasta experimental alemã apresenta um dos grandes filmes do Porto/Post/Doc, que mostra também a sua obra diarística anterior.

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Rushing green with Horses DR

Ponto prévio e único: Rushing Green with Horses de Ute Aurand (Rivoli, terça 26 às 21h00 e quinta 28 às 14h30) é um dos momentos mais extraordinários da edição 2019 do Porto/Post/Doc. É um daqueles filmes que devia ser obrigatório mostrar a toda a gente para percebermos o que o cinema pode ser nas mãos certas: um diário, uma vida, um momento de encanto e deslumbre, uma viagem, uma janela, uma porta.

Pouco interessa que este filme literalmente caseiro, sem narração, sem trama, por vezes até sem som, possa ser engavetado nas gavetas do cinema experimental, underground, independente, alternativo – às tantas, alguém no próprio filme dirá “é importante que as pessoas vejam também estes filmes fora dos festivais”. Não é, infelizmente, provável que isso aconteça no actual momento da distribuição e exibição. Mas Rushing Green with Horses é uma das melhores provas de que o cinema “não-comercial”, à falta de melhor definição, pode tocar em momentos e emoções que nenhum outro consegue.

Rushing green with horses
Rushing green with horses
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Ainda por cima, tudo no Porto/Post/Doc 2019 se encaminha para explicar porque é que é importante ver estes filmes fora dos festivais. Ute Aurand (Frankfurt, 1957) é uma das homenageadas desta edição; a projecção de Rushing Green with Horses na secção competitiva é acompanhada por dois programas de curtas e médias-metragens da realizadora, num total de nove filmes rodados entre 1980 e 2017 (ambos no Rivoli, o primeiro segunda 25 às 21h00, com Deeply Absorbed in Silent Conversation, Oh! The Four Seasons, At Home, Hanging Upside in the Branches e A Walk/In the Park/ZU0Z, e o segundo quarta 27 às 18h30, com Building Under Ground, Sakura Sakura, Four Diamonds e Lisa).

Antiga aluna da Academia de Cinema e Televisão de Berlim, Aurand filma ininterruptamente desde 1985, em 16mm, e toda a sua obra tem pugnado pela divulgação do papel feminino no cinema experimental, através de programas regulares de exibição que tem comissariado desde 1990 em estreita colaboração com o centro berlinense Arsenal (organizador do Forum da Berlinale). Isso ressoa com a própria competição do certame, onde o olhar no e sobre o feminino tem um papel central (seis dos nove filmes a concurso são realizados ou co-realizados por mulheres). Mas também se alinha com a outra retrospectiva do Porto/Post/Doc, dedicada ao cineasta lituano Audrius Stonys e à linhagem do “documentário poético” daquele país báltico.

Outros olhares, em paralelo

Para lá dos seus próprios filmes, Stonys propõe igualmente um programa de filmes de conterrâneos seus, sob o genérico Paisagens da Memória Proibida – e quem encontramos nessa escolha senão Jonas Mekas (1921-2019), eminência parda do cinema experimental mas também um dos mais fervorosos praticantes de um cinema diarístico, com a obra maior que são as três horas de Lost, Lost, Lost (1976; Rivoli, quinta 28, 18h00), o seu diário de apropriação de Nova Iorque rodado entre 1949 e 1963. A prática dos cine-diários de Mekas, abstraindo a permanência da poesia a partir da rotina e da banalidade do quotidiano, ressoa inevitavelmente com o próprio cinema de Aurand – até porque, tal como as “reminiscências de viagem” a partir das quais Mekas fez filmes, também Rushing Green with Horses é uma viagem pelo tempo e pela vida da cineasta alemã ao longo dos últimos 20 anos.

Montado a partir de filmagens realizadas entre 1999 e 2018, Rushing Green with Horses passeia-se ao longo dos anos entre a Alemanha, a Itália e os EUA, numa compressão de 20 anos de viagens, amizades, nascimentos, aniversários, visitas: o que (nunca) se perdeu registado num diário impressionista e comovente, um mergulho num longo rio tranquilo e plácido onde o espectador apenas tem de se deixar levar pela corrente suave para reconhecer a textura de uma vida normal. É um primo não só dos filmes de Mekas mas também do Sobre Tudo, Sobre Nada de Dídio Pestana e do cinema na primeira pessoa da britânica Margaret Tait (com a qual, aliás, Aurand sempre sentiu grande afinidade). E, sobretudo, é um filme de pessoas, com pessoas, sobre pessoas. Como o cinema também deve ser.