Marcelo ajudou a definir a palavra ville para o dicionário da Academia Francesa

Presidente da República participou numa reunião da associação de “imortais” que define as regras da língua francesa. No final, considerou que a riqueza da língua portuguesa é a forma diversa como é falada por todo o mundo.

Marcelo foi o segundo Presidente português a intervir na Academia Francesa
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Marcelo foi o segundo Presidente português a intervir na Academia Francesa LUSA/Tiago Petinga

Marcelo Rebelo de Sousa deixou a sua marca no dicionário oficial da língua francesa, que em sua homenagem vai passar a contar com a referência à cidade universitária de Coimbra.

O Presidente da República foi o 19.º chefe de Estado convidado a participar na ilustre Academia Francesa nos seus 374 anos da sua história – e o segundo português, depois de Mário Soares –, e o seu contributo foi ajudar a reflectir sobre a definição da palavra “ville” (cidade). Foram várias as propostas que fez e foram aceites.

A cerimónia decorreu, como é habitual, à porta fechada, com a presença dos 40 “imortais” (membros vitalícios) que compõem a vetusta academia, responsável pela regulamentação do uso, do vocabulário e da gramática do Francês e pela publicação do Dictionnaire de l'Académie française. Depois da apresentação de Marcelo Rebelo de Sousa feita por Amin Maalouf e da entrega, pelo Presidente luso, da Ordem de Sant’Iago da Espada à Academia, entrou-se na discussão da definição da palavra “ville” que irá integrar a nona edição do dicionário oficial da Língua Francesa.

“Era uma definição muito material: um conjunto de edifícios, nomeadamente de habitação, cujos residentes não têm como função principal a agricultura, separados por ruas, aos quais correspondem uma unidade administrativa, geográfica, económica, etc”, explicou o chefe de Estado aos jornalistas no final da sessão. Marcelo questionou as palavras ‘etc’, ‘vasto’ e ‘residente’, sugeriu que se introduzisse o conceito de metrópole e questionou a referência às actividades exercidas.

Mas a sua grande contribuição foi em relação à formulação em si mesma: “Era uma definição não-humana, a tónica estava nos edifícios, quando a alma de uma cidade está nas pessoas, e isso faltava”, revelou. Essas questões abriram “uma discussão interessantíssima” e a definição será alterada para acolher as sugestões do Presidente português. Marcelo atribuiu a definição inicial à história, lembrando que era praticamente uma transição da definição da edição do dicionário de 1935, mas defendeu que tinha de haver “uma evolução histórica”.

Em homenagem a esta sua participação, entre os exemplos de cidades que vão integrar a nona edição do dicionário vai estar Coimbra, como cidade universitária.

Português, “uma língua muito plástica”

Questionado pelos jornalistas sobre se considerava que devia haver algum procedimento deste género em Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa preferiu sublinhar as diferenças entre os dois idiomas: “O Português é uma língua muito plástica, falada por quase 400 milhões de pessoas no mundo”, “mais do que o número de falantes de Francês” e na sua maioria fora de Portugal. Por isso é “uma problemática diferente”.

“O Português tem uma riqueza vocabular muito maior em países como o Brasil, Angola ou Moçambique – são milhões de falantes e porventura com mais criatividade”, frisou, acrescentando que a língua é falada de forma muito diversa nos vários pontos do mundo.

Já quanto ao Acordo Ortográfico, lembrou que isso diz respeito à forma escrita da língua e remeteu a decisão para o parlamento luso “em diálogo com outros países que falam” a mesma língua.