Paulo Rodrigues: “Fomos enxovalhados no tribunal. Nunca agredi alguém que já estivesse imobilizado”

Presidente da direcção da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia foi um dos 11 absolvidos no caso de agressão a um adepto do Boavista em 2014, que sofreu lesões irreversíveis na sequência do incidente. Diz-se inocente, mas, apesar do veredicto favorável aos arguidos, juiz acredita que autores das agressões estão neste grupo.

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Paulo Rodrigues (ao centro) numa manifestação de polícia Miguel Manso

“Algumas questões com que fui confrontado foram injustas, até porque estávamos no jogo e não tivemos conhecimento daquela situação. A maior parte da equipa só soube no dia seguinte. Durante todo o julgamento fomos enxovalhados e insultados pelo tribunal e pelo Ministério Público de algo que não fizemos”, começa por dizer ao PÚBLICO o presidente da direcção da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP). Paulo Rodrigues foi um dos 11 arguidos absolvidos esta quinta-feira no caso de uma agressão a um adepto do Boavista, que sofreu lesões irreversíveis. A defesa vai recorrer da decisão. 

Os factos remontam a 3 de Outubro de 2014, aquando do jogo da 7.ª jornada da I Liga entre o Vitória de Guimarães e o Boavista. A acusação do Ministério Público (MP) diz que após a chegada dos autocarros de adeptos “axadrezados”, um dos arguidos terá abordado um destes adeptos, instando-o a que se movimentasse para determinado local. Como este não obedeceu de imediato, “derrubou-o ao solo, colocou-lhe um joelho por cima das costas e fê-lo permanecer deitado no solo de cara para baixo”, refere. O MP refere que os agentes formaram um círculo, agredindo violentamente o adepto do Boavista que ficou sem um olho como consequência do incidente.

Apesar de não ter condenado os polícias, o juiz censurou duramente o “corporativismo” demonstrado pelos agentes, alegando que esse silêncio terá impedido a identificação dos agressores e, inevitavelmente, obrigou à absolvição do grupo. “Os autores das bárbaras agressões estão aqui nesta sala, disso não tenho dúvidas. Só não sei é quem foram ou se foram todos, porque ninguém os conseguiu identificar”, referiu o juiz presidente, na leitura do acórdão. “Toda a gente sabe que vocês sabem quem é que fez aquilo”, acrescentou.

Paulo Rodrigues, porém, nega um eventual “pacto de silêncio” celebrado entre os agentes, relembrando que os acontecimentos tiveram lugar há mais de cinco anos. “Quando fomos ouvidos [em 2014], cada um disse o que tinha a dizer. Eu próprio respondi a todas as perguntas e esclareci onde estava nesse momento. Apenas dissemos ao tribunal que, como o incidente tinha sido há tanto tempo, remeteríamos as nossas declarações para o que tínhamos dito antes. Senão íamos repetir o mesmo e existiam coisas de que já não nos lembrávamos. A verdade é que a comunicação social passou a ideia de que tínhamos feito um pacto de silêncio”, afirma.

Segundo Paulo Rodrigues, o trabalho da sua equipa para aquele jogo era garantir a separação entre os adeptos de ambos os clubes, alegando que a acusação do Ministério Público não seria exequível do ponto de vista operacional: “A minha equipa estava na lateral da caixa [de segurança]. O procurador tentou criar a história de que a minha equipa saiu do sítio onde estava — o que podia originar uma batalha campal — foi para o meio dos adeptos e fez uma ‘rodinha’ para os agredir. Como se isso fosse praticável.”

O presidente da ASPP lamentou ainda as consequências físicas e psicológicas resultantes do incidente para o adepto, garantindo que, “em 20 anos de polícia”, nunca esteve envolvido em incidentes de uso de força excessiva. “Já utilizei arma de fogo por imposição da missão. Já utilizei força física várias vezes, porque estou numa unidade especial e a minha missão é esta, também. Somos a última possibilidade de resolver algumas situações. Sempre o fiz com respeito pelas pessoas. Nunca na vida agredi alguém que já estivesse imobilizado. Nem nunca o farei. Sou um dos que critica essa conduta”, finaliza. 

A advogada do adepto agredido, Andreia Miranda Silva, disse que vai recorrer da absolvição. “O juiz disse, com todas as letras, que foram aqueles senhores. Por isso, não nos podemos conformar com a absolvição, sobretudo quando em causa estão lesões tão graves”, referiu. Com Lusa