Rafael Marques, de preso a condecorado em Angola

Num “acto de um país reconciliado e inclusivo”, o Presidente angolano condecorou 70 pessoas, entre eles o jornalista e activista que chegou a ser preso no tempo de José Eduardo dos Santos.

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Rafael Marques em tribunal, em 2015, quando foi condenado a seis meses de prisão Herculano Coroado/REUTERS

O jornalista e activista Rafael Marques foi, esta quinta-feira, um dos 70 condecorados pelo Presidente de Angola como exemplo para a sociedade angolana de pessoas empreendedoras que “ao invés de se lamentarem” das dificuldades, “arregaçam as mangas e vão à luta”. João Lourenço aproveitou a cerimónia na Cidade Alta para apelar à unidade de todos na luta contra a corrupção e o nepotismo.

Salientando que a situação no domínio dos direitos e liberdades, no combate à corrupção e à impunidade está a mudar no país, o chefe de Estado enalteceu quem, “desde muito cedo, teve a coragem de se bater contra a corrupção crescente que acabou por se enraizar” na sociedade angolana.

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O momento em que João Lourenço condecorava Rafael Marques Presidência da República de Angola

Numa crítica directa ao seu antecessor na presidência, mesmo que não o chamando pelo nome, João Lourenço enfatizou que a corrupção se generalizou no país, “porque a superestrutura dava mau exemplo e, por isso não tinha moral para combater o monstro que ela própria criou e do qual se alimentava”.

O facto de entre os agraciados pela sua presidência estar Rafael Marques, alguém que várias vezes denunciou a corrupção, o nepotismo e o tráfico de influências no tempo de José Eduardo dos Santos e, por isso, teve de enfrentar processos em tribunal por delitos de opinião, chegando mesmo a ser preso, é uma clara mensagem de mudança.

E o Presidente referiu-se a isso, ao afirmar no seu discurso que estava à espera de “leituras e reacções díspares, a julgar pelos estereótipos criados ao longo do tempo, quando a corrupção era encarada como algo normal”.

Luís Fernando, o porta-voz do chefe de Estado, citado pelo Novo Jornal, referiu-se ao simbolismo da cerimónia, como sendo “o acto de um país reconciliado e inclusivo” de um Presidente “que quer uma sociedade verdadeiramente aberta, democrática, um país reconciliado e para o qual o caminho certo é o da inclusão, por cima das fracturas do passado ou das questões que separam e dividem os angolanos”.