João Lourenço recebeu sociedade civil. “Este clima tem mais a ver com democracia”, diz activista

José Patrocínio, líder da OMUNGA, aplaudiu reunião “simbólica” com presidente de Angola. Luaty Beirão também foi, mas Rafael Marques foi impedido de entrar. Mas foi convidado para ir palácio terça-feira.

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Rapper Luaty Beirão cumprimenta o Presidente João Lourenço EPA/AMPE ROGERIO

O Presidente de Angola recebeu esta terça-feira vários líderes e representantes de organizações da sociedade civil, numa tentativa clara de mostrar abertura por parte do regime. José Patrocínio, fundador e líder da Omunga, esteve presente e contou ao PÚBLICO que sentiu haver uma “vontade de mudança” na forma de relacionamento entre a presidência e a sociedade civil. O rapper Luaty Beirão também foi recebido por João Lourenço, mas o jornalista Rafael Marques foi impedido de entrar no palácio presidencial “por não constar da lista de convidados”.

No entanto, Rafael Marques escreveu no site Maka Angola ter sido convidado para ir quarta-feira ao palácio, para uma audiência privada, depois de ter sido contactado pelo chefe de gabinete do Presidente.

“Sentimos que João Lourenço procurou, de uma maneira absolutamente genuína, reconhecer o trabalho, o papel e a utilidade da sociedade civil mais ligada aos direitos humanos no processo de democratização e de construção da paz em Angola”, explicou José Patrocínio.

Foi um encontro simbólico, claro, mas que serviu para nos mostrar que as portas estão abertas e que há uma vontade de mudança na forma de relacionamento com a sociedade civil”, acrescentou o líder da Omunga, que em umbundo quer dizer União  e que se tem dedicado à promoção e protecção dos direitos dos mais jovens.

Admite que não esperava obter “soluções imediatas” para as questões onde há divergências profundas com a presidência, e que a iniciativa também teve que ver com uma “questão de imagem para o exterior” que o executivo quer passar. "Na prática as coisas ainda não serão diferentes”, diz Patrocínio, que no entanto diz ter gostado de ouvir o que o Presidente disse sobre os planos para a “pacificação, a reconciliação e a fase de transição” que impera em Angola, desde a saída de José Eduardo dos Santos do poder.

“É óbvio que vamos continuar a ter pontos de vista divergentes, não temos de pensar todos o mesmo. Mas a possibilidade de termos um espaço de diálogo, onde cada um pode expor as suas posições, já é uma grande mais-valia”, considera o activista. 

Patrocínio disse ainda que a postura do Presidente vem ao encontro do seu discurso recente no Comité Central do MLPA, no qual “chamou a atenção para a necessidade de a sociedade civil cumprir o seu papel de fiscalização”, e celebrou a inauguração de um novo clima político e social: “Já não há uma conotação de amigos e inimigos, como havia até aqui, e este clima já tem mais a ver com democracia”.

Para além de José Patrocínio, entre os líderes presentes no encontro em Luanda, encontrava-se o rapper Luaty Beirão – que recordou no Twitter que na altura em que foi acusado de rebelião afirmou que só entraria no palácio presidencial como “ilustre convidado” –, Alexandra Simeão (associação Handeca), Maria Lúcia Silveira (Justiça, Paz e Desenvolvimento) e Salvador Freire (Mãos Livres).

Rafael Marques também se deslocou ao palácio, mas foi impedido de participar na reunião com o Presidente, “por não constar da lista de convidados”. Uma situação estranha, uma vez que no comunicado do gabinete de imprensa de Lourenço, publicado antes do encontro, constava o nome do jornalista que ganhou destaque na luta pela liberdade de expressão e contra a corrupção em Angola.

“Porque acredito na boa vontade do Presidente João Lourenço, acedi ao convite para participar do encontro”, escreveu no seu site Maka. “Mas foi-me recusada a entrada no palácio, por não constar da lista de convidados. Eu estive lá, mas não me deixaram entrar”.

José Patrocínio confirma que o jornalista fazia parte do grupo quando este se reuniu numa das salas de espera, mas foi efectivamente “impedido de entrar na reunião”. Uma situação que o deixou “preocupado”, com poucas certezas, mas com alguns palpites.

Não acredito na responsabilidade de João Lourenço, não iria colocar o pé na argola dessa forma”, começou por dizer. “Mas entre a possibilidade de se ter tratado de uma questão de desorganização ou de uma tentativa interna de criar este constrangimento, vou mais pela última. Rafael Marques é demasiado conhecido, por isso talvez tenha sido uma malandragem que alguém lhe fez. Mas é só uma suspeita”, rematou.