Protestos no Chile
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Protestos no Chile LUSA/JUAN IGNACIO RONCORONI

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Levantamento popular na crise do capital

A mediania sempre foi a arma do capitalismo, no sentido em que incute nas massas uma propensão à inércia com toda a sua publicidade, com a venda de sonhos milionários que nunca serão palpáveis a não ser aos próprios milionários.

O mundo está em convulsão. Não sou eu que o digo, mas os levantamentos populares que têm feito em água as cabeças do capital de vários países. Chegam-nos notícias de uma América Latina em convulsão, da Catalunha e da Inglaterra em processos de recuperação de soberania.

No Equador, o governo vigente viu-se obrigado a deslocar o seu executivo com receio do povo indígena e trabalhador que saiu às ruas, rompendo as amarras que os prendiam à mediocridade. No Chile, o povo obrigou já à revogação da lei que aumentava o preço dos bilhetes de metro, mas não pararão enquanto durar o saque levado a cabo por parte do seu governo. Não podemos também esquecer, como parece ser a vontade de alguns, que o povo venezuelano defendeu a sua revolução bolivariana não permitindo que o golpista consumasse o seu golpe. Enquanto isso, o Brasil continua a braços com um Estado cada vez mais autoritário como, de resto o têm sido todos os que lidam com os levantamentos populares, gerando, no caso do Chile, dezenas de mortos.

É impossível alhearmo-nos de que algo de muito interessante está a acontecer um pouco por todo o mundo.

As antigas amarras que impediram desde sempre o progresso da sociedade vão, a pouco e pouco, sendo quebradas, na ânsia dos povos em ganhar o controlo das suas próprias vidas. Contudo, o tratamento mediático dado às diferentes manifestações populares padece de graves delitos de opinião, onde a informação independente dá lugar ao relato militante. Ora, se para a comunicação social portuguesa os golpistas da Venezuela constituem o povo organizado a contestar o regime, já o povo catalão é catalogado de arruaceiro.

Depois de uma deriva de direita na América Latina, levada a cabo com o empenhamento dos Estados Unidos, o povo riposta agora, firmando as suas convicções nas ruas e nos muros das cidades. Ao que tudo indica, Evo Morales irá ganhar as presidenciais na Bolívia e governos como o chileno não terão outro caminho que não o da demissão. No Equador, o povo irá obrigar a uma grande mudança nas políticas, não nos políticos. É importante que se perceba que o importante não é mudar caras, mas políticas.

É inquestionável que estamos perante mais uma crise do capitalismo, desta vez não financeira; ou seja, o capital, no seio das suas contradições, revela-se cada vez mais incapaz de manter a sociedade naquele limbo onde sempre a quis manter: nem muito bem, nem muito mal. A mediania sempre foi a arma do capitalismo, no sentido em que incute nas massas uma propensão à inércia com toda a sua publicidade, com a venda de sonhos milionários que nunca serão palpáveis a não ser aos próprios milionários. Foi-nos sempre dada a ideia de que mais vale um emprego mal pago do que não ter nenhum, de que é melhor ir podendo pagar as contas do que ser despedido por exigir aumentos salariais. Por séculos, foi difundida e eternizada a ideia de que tudo o que temos, do que conseguimos, é fruto da boa vontade daqueles que muito podem e não por aquilo que nos é devido. Querem fazer-nos sentir que tudo aquilo de que usufruímos nos é dado por favor. Essa mentira é tão grande como as manifestações catalãs e tão infame como a actuação da política militar chilena.

É bom que o povo trabalhador comece a entender o seu papel na vanguarda da conquista do novo mundo, esse onde a polícia não mata manifestantes e onde o capital não terá uma palavra a dizer.