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Nelson Garrido
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A memória das Fontainhas vive nas fotografias dos seus moradores

Viver as Fontainhas, criado por duas moradoras, desvenda o património humano, histórias e lugares desaparecidos desta zona emblemática do Porto, recorrendo ao arquivo fotográfico pessoal dos seus habitantes.

Cu de Bico, Chove lá Dentro, Marretas, Choras, Peixeiras, Serralheiros ou Cartuchos, são tudo alcunhas de família de gente das Fontainhas de um tempo em que lá também moravam pessoas como Maria dos Bigodes, Maria do Tesão, Maria do Carralho, Branca Sarronca ou Micas Peixeira. A última é avó de Soraia Gomes, 31 anos, criada naquele passeio virado para o Douro, que com Maria Ferreira, 28 anos, também com raízes nesta zona pitoresca do Porto, está a desenterrar o arquivo fotográfico pessoal dos seus vizinhos para contar a história deste bairro popular montado numa escarpa com vista para o rio.

O projecto das duas amigas chama-se Viver as Fontainhas e nasceu em Maio do ano passado na mesa da esplanada de um dos cafés que ainda ali existem. Queriam recuperar a memória do sítio que também foi casa dos seus avós e bisavós e de outros que antes de se apresentarem como portuenses dizem primeiro ser daquele bairro para que todos percebam logo de que material é feito o seu ADN. Nesse café, por sugestão de um amigo sentado numa mesa ao lado, criaram um grupo no Facebook e lançaram o desafio: “Pedimos às pessoas que partilhassem as suas fotografias”. Pouco tempo depois já reuniam centenas de imagens ao mesmo tempo que o grupo ia aumentando em número de pessoas. Hoje, cerca de um ano e meio depois, são quase duas mil.

Nessas imagens estão algumas das pessoas acima referidas. Através delas recua-se no tempo, desvendam-se histórias e descobrem-se lugares desaparecidos das Fontainhas. Cantarino, Vila Maior, Nicolau ou o Marino, que foi abaixo quando construíram a ponte do Infante, são todos bairros que já não existem. Assim como a ilha da Pedreira, onde nasceu a mãe de Soraia, e outras das quais sobram apenas ruínas. 

Recordar e aproximar<_o3a_p>

Foi durante o processo de recolha de fotografias do arquivo pessoal de moradores e ex-moradores que foram reconstituindo a história do lugar. Além do grupo criado na rede social foram batendo às portas dos vizinhos para recolherem mais imagens. Essa abordagem era também um convite a dois dedos de conversa que nalguns casos passavam a horas.

Pouco tempo depois da criação do grupo, em Agosto de 2018 fizeram uma pequena exposição com algumas das fotografias no café onde nasceu a ideia para apresentarem o projecto. Ali juntaram muitos dos moradores e ex-moradores, criando uma espécie de ponto de encontro de partilha de memórias. Em torno das imagens discutia-se quem era quem, nem sempre chegando a um consenso. Alguém com a memória mais viva ajudava a identificar as pessoas que estavam nas fotografias.

Alguns descobriram familiares que não sabiam existir – primos e tios afastados. Ficaram a conhecer outros filhos das Fontainhas como o senhor Beça, que ensinava as crianças a nadar recorrendo a uma técnica infalível: “Atirava-as ao rio e agora desemerdem-se”, explica Soraia.

Das pessoas passaram para os lugares e descobriram o café Miami, o primeiro a abrir nas Fontainhas. “Era ali na Corticeira. Uma senhora trazia borra de café já muito usada e fazia ali uma mijoca que servia com moletes com manteiga. Para quem ali vivia era espectacular”, conta. Maria recorda a Cova da Onça, “uma depressão da escarpa” para onde alguns militares levavam prostitutas: “Os rapazes adolescentes que agora são nossos pais ficavam de cima, na varanda, a espreitar”. Diz que ainda hoje recordam esses episódios “sempre com risos”.

Depois do primeiro teste, mais tarde voltaram a organizar um evento em torno do projecto. Vestiram-se a rigor, “trouxa à cabeça” e com um grupo de mulheres fizeram o caminho do fontanário até aos tanques do lavadouro ao som da música da Costureirinha da Sé para recriarem uma cena do filme realizado por Manuel Guimarães em 1958, filmada com as lavadeiras locais. Nesse evento havia também uma exposição com as fotografias na alameda do Passeio das Fontainhas. Mais recentemente, em Setembro, o projecto fez parte da programação do festival Mexe para uma instalação no lavadouro, que contou com a participação de alguns moradores.

Soraia, médica-dentista, e Maria, mestre em História, com uma tese sobre a urbanização das Fontainhas entre os séculos XVIII e XIX, sonham poder dedicar-se a tempo inteiro à recolha do património histórico e humano desta zona da cidade de onde são e que consideram “esquecida”. Falta-lhes um apoio, dizem. Todo o trabalho que fazem é nos tempos livres. Nesta fase estão a tentar organizar-se e a catalogar o material recolhido. As fotos mais antigas que recolheram remontam ao início do século XX, embora estas sejam parte do arquivo público. Das que fazem parte do arquivo privado dos moradores e ex-moradores das Fontainhas têm fotos desde a década de 40 do século passado.

Com o passar dos tempos as duas viram muitos moradores saírem do bairro para zonas mais periféricas da cidade e algumas ilhas desaparecerem ou serem compradas por privados para alojamento local (AL) para turistas, como aconteceu no bairro da Tapada em Novembro de 2017 - a autarquia reverteu a situação mais tarde com a compra do conjunto de casas. “As Fontainhas continuam a ser encostadas para segundo plano”, dizem.

Hoje dizem existir menos pessoas a morar nas Fontainhas e mais turistas a ocupar espaços de AL. Não têm nada contra a vinda de pessoas de fora, muito pelo contrário. Porém, defendem que se deve preservar o património humano local: “O ideal seria chegar a um equilíbrio”.

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