Sem papel assinado, a CDU votará caso a caso as propostas do PS

Jerónimo de Sousa deve deixar PCP com uma bancada parlamentar do mesmo tamanho que recebeu em 2004. Próximos anos serão para navegar à vista.

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A CDU não irá abrir mão de propostas como o aumento geral dos salários – e do salário mínimo para 850 euros – ou das reformas Francisco Romão Pereira
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“Tá fixe?” A pergunta de Jerónimo de Sousa, com um sorriso, surgiu depois de a assessoria de imprensa ter percebido que as televisões estavam ainda todas em intervalo quando o líder comunista estava a discursar e até já tinha lançado a mensagem principal da noite: “Será em função das opções do PS, dos instrumentos orçamentais que apresentar e dos conteúdos que legislou com a CDU que a CDU determinará, como sempre o seu posicionamento, vinculado aos compromissos que assumiu com os trabalhadores e o povo.”

Jerónimo teve então que reler boa parte do texto novamente. Onde especificou que não irá abrir mão de propostas como o aumento geral dos salários – e do salário mínimo para 850 euros – e das reformas, em alargar o passe social a todo o país, dar 1% para a cultura, investir no SNS. Uma espécie de caderno dos principais encargos para os próximos quatro anos, com um aviso reiterado: “O que se impõe é andar para a frente, não permitir que o que se alcançou e conquistou em direitos e rendimentos volte para trás, que não se dêem novos passos de retrocesso quer na legislação laboral, quer no sistema eleitoral, quer nas chamadas “reformas” estruturais que PS e PSD partilham em diversas áreas.”

Questionado pelos jornalistas, haveria de ser mais directo: o PCP vai trabalhar com o PS “sem compromissos mútuos em termos formais ou institucionais, mas de forma independente”. Jerónimo de Sousa garantiu que o PCP e o PEV terão uma “posição construtiva, com propostas”. “O que significar avanços, lá estarão o PCP e o PEV” para contribuir para eles, mas no que os partidos entenderem que é um passo atrás, o PS vai ter o voto contra dos comunistas e ecologistas. “Ainda não consultei os meus camaradas, mas pelo que tenho ouvido não haverá repetição da cena do papel”, afirmou. Àquela hora, garantiu: “Não recebi, não recebemos qualquer contacto do PS, nem consulta.”

Pelo caminho ficaram os lugares de deputados por Braga (Carla Cruz) e Faro (Tiago Raposo), um por Lisboa (Cristina Cruzeiro), um pelo Porto (Alfredo Maia) e outro por Setúbal (Bruno Dias). E, como já era esperado, as apostas em Leiria (Heloísa Apolónia) e Viseu (Miguel Tiago), tal como no círculo da Europa (Rita Rato), foram goradas. Ou seja, Jerónimo de Sousa deverá deixar o PCP (no próximo ano) com uma bancada do mesmo tamanho com que assumiu a liderança do partido em 2004 – 12 deputados.

“Houve uma perda, assumimos isso”, disse Jerónimo sem constrangimentos nem o semblante carregado de outras noites eleitorais. “Mas estamos longe daquelas declarações mais ou menos agoirentas que consideravam que a CDU estava arrumada, quando alguns anunciavam o seu declínio e morte”, recordou, garantindo que o PCP terá uma “bancada para dar o combate necessário”. Pelo meio, havia deitado culpas à “intensa e prolongada operação de mentira e difamação” e de “promoção de preconceitos” que apoucou e denegriu a CDU e favoreceu “metodicamente” outros partidos.

E sobre o seu futuro? A pergunta causou risos na sala, cheia de elementos da Juventude CDU e de membros do comité central. “Assim que a Assembleia da República abrir lá estarei a intervir na defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo”, garantiu. E ainda acrescentou que no PCP estão todos “unidos” em seu redor – a direcção, o comité central, os activistas e as suas organizações. “O que ouvimos pelo país foi ‘continua camarada!’.”