Opinião

O inimigo somos nós

Discursos que antecipam uma catástrofe com consequências inimagináveis e a eventual destruição da ecosfera são exagerados e não têm credibilidade

A evidência de que o aumento da temperatura do planeta se deve essencialmente à intervenção humana, e nomeadamente ao uso de combustíveis fósseis, é muito consensual e pouco disputada. Também é relativamente consensual que, a manter-se a actual tendência, a temperatura média do planeta irá aumentar alguns graus centígrados até ao fim do século XXI, com impacto significativo no nível da água do mar, nos padrões de pluviosidade, na frequência de alguns fenómenos meteorológicos extremos e na diversidade biológica do planeta.

Onde não existe consenso é no real impacto que estas alterações poderão ter na economia e nas sociedades, quando se consideram os diversos cenários possíveis, uns mais moderados, outros mais extremos. Discursos que antecipam uma catástrofe com consequências inimagináveis e a eventual destruição da ecosfera são exagerados e não têm credibilidade, porque ignoram as soluções tecnológicas, económicas e sociais que poderão vir a ser usadas para mitigar ou eliminar muitos dos efeitos negativos do aquecimento global. Significa isso que tudo isto não passa de um falso alarme e que não nos devemos preocupar com o problema? Não, de forma alguma, porque apesar de existirem soluções e abordagens tecnológicas eficazes, o problema tem duas características específicas que o tornam particularmente difícil de resolver.

A primeira característica é que, ao contrário do que trespassa sistematicamente nos discursos ambientalistas mais radicais, o problema do aquecimento global não é causado por “eles”, pelos políticos e pelas grandes empresas, que olham apenas para os seus interesses e para o lucro sem olhar para as consequências ambientais. O problema deve-se à utilização cada vez mais generalizada pela humanidade de fontes de energia acessíveis que permitiram, nos últimos dois séculos, a produção e distribuição eficiente de alimentos, a redução da fome, uma maior mobilidade de pessoas e bens, a cura de muitas doenças e a mitigação dos seus efeitos, o crescimento da riqueza de cada família e um aumento sem precedentes da esperança média de vida. Mesmo as mortes causadas por catástrofes naturais reduziram-se de um factor de cerca de vinte, em algumas décadas, ao contrário do que é a percepção mais comum. Assim, ao contrário da mensagem simplista que é transmitida pelos activistas mais radicais, o inimigo do ambiente não são “eles”, somos nós, todos nós, que usamos, directa ou indirectamente, a energia e as comodidades que são tornadas possíveis pelo uso de combustíveis fósseis. Para vencermos esse “inimigo”, teríamos de modificar o nosso estilo de vida tão profundamente que a moderna sociedade ocidental se tornaria irreconhecível. Para um cidadão de um país desenvolvido, retroceder em poucos anos para uma sociedade com “emissões zero” (ou, mais exactamente, uma sociedade onde a emissão de gases de efeito de estufa fosse aproximadamente contrabalançada pela absorção desses mesmos gases) teria um impacto tão negativo na qualidade de vida que é, na prática, uma solução não exequível.

A segunda característica do problema é, talvez, ainda mais insidiosa e difícil de endereçar. A atmosfera terrestre é comum a todas as pessoas, comunidades, países e continentes. Quaisquer gases de efeito de estufa que sejam produzidos num ponto do planeta contribuem para o problema do aquecimento global, prejudicando toda a humanidade, mas afectam pouco a pessoa, cidade ou país que os emite, porque são distribuídos uniformemente por toda a atmosfera. Estamos assim, perante o caso mais extremo da tragédia dos comuns, uma situação que já foi abordada numa anterior crónica, onde o benefício individual de um dado acto supera em muito o ligeiro prejuízo que resulta da divisão por todos do impacto negativo desse acto. E, como em todas as instâncias da tragédia dos comuns, apenas um consenso global pode evitar a deterioração progressiva do bem comum. Nenhuma acção local, por mais radical que seja, terá um efeito significativo, se não estiver associada a uma acção concertada de uma grande maioria dos agentes.

A combinação destas duas características faz com que a adopção de políticas que ajudem a combater o problema do aquecimento global seja particularmente difícil, embora diversas tecnologias já existentes, ou em desenvolvimento, permitam gerar energia eléctrica de forma mais amiga do ambiente. As centrais nucleares de fissão emitem apenas cerca de 5 gramas de dióxido de carbono (CO2) por cada kilowatt hora (kWh) produzido, um valor mais de 100 vezes inferior às emissões das centrais a carvão. Na Europa, a França, que depende fortemente de energia nuclear emite menos de 60 gramas de CO2 por kWh produzido, um valor mais de quatro vezes inferior ao valor médio da Europa como um todo, e de Portugal. Outras tecnologias de geração, a gás, hidroeléctrica, solar ou eólica, emitem níveis de CO2 intermédios entre estas duas alternativas. Todas as tecnologias têm vantagens e desvantagens, o que tipicamente exige uma mistura de fontes de energia para garantir a estabilidade do sistema e minimizar os impactos ambientais. Para os transportes a questão ainda é mais complexa porque, em diversas áreas, como no transporte aéreo, é ainda muito difícil substituir os combustíveis fósseis. Aqui, a mais significativa contribuição que pode ser feita, em Portugal, é alterar significativamente os paradigmas de mobilidade, para um maior uso dos transportes públicos em detrimento do transporte individual. A tecnologia nuclear de fusão, embora represente uma promessa de uma fonte de energia limpa e quase inesgotável está provavelmente a várias décadas de poder ser usada em grande escala embora, curiosamente, toda a energia que usamos, com excepção da energia nuclear de fissão e da energia geotérmica, resulte de fusão nuclear, uma vez que provém em última análise dos efeitos da luz solar, na biosfera e na atmosfera.

Mas, apesar de ainda existirem desafios tecnológicos, os problemas que temos de resolver são essencialmente sociais, económicos e políticos. A solução para o problema tem de ser baseada na obtenção de um consenso global que permita contabilizar e imputar os verdadeiros custos económicos e ambientais da emissão de gases de efeito de estufa, conduzindo à adopção generalizada de tecnologias de geração de energia com menos impacto ambiental e à utilização de tecnologias de captura e armazenamento de CO2. Para que seja possível atingir esse consenso, é essencial que sejam feitas propostas razoáveis e realistas, cientificamente e economicamente bem fundamentadas, que possam ser adoptadas por todos os países e comunidades sem efeitos demasiado grandes na qualidade de vida das populações e nas suas justas ambições de progresso social e económico. A recente iniciativa das Nações Unidas de organizar uma cimeira sobre o clima teve o inegável mérito de chamar a atenção pública para um problema que só pode ser tratado a nível global. Porém, posições radicais e fracturantes, como as que foram protagonizadas pela jovem Greta Thunberg nessa cimeira, não contribuem para o necessário diálogo, mas sim para um extremar de posições que tornará ainda mais difícil a obtenção de consensos e uma actuação eficaz da sociedade como um todo.