Ansiedade e ataques de pânico ligados a avarias na “central de energia” das células

Investigadores perceberam, em experiências com ratinhos, que os ataques de pânico e ansiedade estão associados a alterações numa importante estrutura das células. O mesmo acontece em humanos, concluíram

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Numa simples explicação, as mitocôndrias são muitas vezes comparadas às centrais de energia ou baterias das células, ou seja, são uma importante estrutura que fornece a energia para que a célula cumpra uma determinada função. Um novo estudo publicado esta quinta-feira na revista Plos Genetics mostra que quando há factores de stress crónico e este leva a sintomas de ansiedade a actividade das mitocôndrias é perturbada. A partir daqui podem ser identificados novos alvos de tratamento deste tipo de distúrbios, avisam os autores do artigo.

O pequeno resumo da Plos Genetics sobre o estudo avança, desde logo, com alguns exemplos bem próximos de qualquer pessoa: divórcio, desemprego, morte de um familiar próximo ou guerra. Todos são acontecimentos mais ou menos comuns na vida que podem levar as pessoas a viver uma situação de stress crónico e, por sua vez, a enfrentar um maior risco de sofrer um ataque de pânico ou ansiedade. “Eventos stressantes da vida são os principais factores de risco ambiental para transtornos de ansiedade, embora nem todos os indivíduos expostos ao stress desenvolvam ansiedade clínica”, constatam os investigadores no artigo.

De facto, o mesmo tipo de acontecimento stressante provoca diferentes reacções em diferentes pessoas. Mas o que faz a diferença, afinal? Muitos factores, seguramente. Um deles terá sido identificado neste estudo liderado por uma equipa de cientistas da Universidade de Helsínquia, na Finlândia, que procurou identificar as vias biológicas que mediam a ansiedade e a resiliência relacionadas ao stress.

Assim, o estudo mostra que quando um acontecimento stressante provoca um stress crónico que leva a ansiedade a central de energia das células, a mitocôndria, sofre uma série de alterações. Os cientistas estudaram ratinhos com sintomas de ansiedade e depressão, com comportamentos que passavam por exemplo por evitar interacção com outros animais, depois de terem sido expostos a situações com elevados níveis de stress.

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Imagem do cérebro de um ratinho com uma mitocôndria destacada em azul. Mikaela Laine

O trabalho permitiu identificar mudanças na actividade genética e na produção de proteínas numa determinada região do cérebro que é usada para responder ao stress e ansiedade. “A análise apontou para uma série de alterações nas mitocôndrias das células cerebrais de ratinhos expostos ao stress frequente, em comparação com os ratinhos não stressados”, refere o resumo.

 Além disso, os investigadores adiantam que as análises a amostras de sangue recolhidas de doentes que sofrem de ataques de pânico pacientes com transtorno do pânico também revelaram diferenças nas vias mitocondriais, “sugerindo que as alterações no metabolismo da energia celular podem ser uma maneira comum de os animais responderem ao stress”.

Para traduzir os resultados para a ansiedade humana, a equipa investigou alterações da expressão genética no sangue associadas a ataques de pânico induzidos por exposição. “Encontramos expressão reduzida de genes relacionados à mitocôndria em ratinhos susceptíveis ao stress e em humanos expostos a ataques de pânico induzidos”, escrevem no artigo. As alterações associadas às mitocôndrias na expressão genética encontradas no sangue, levam a crer que se trata de “uma resposta evolutivamente conservada em comportamentos relacionados com o stress e validam o uso de abordagens entre espécies na investigação dos mecanismos biológicos subjacentes aos transtornos de ansiedade”.

“Pouco se sabe sobre como o stress crónico pode afectar o metabolismo da energia celular e, assim, influenciar os sintomas de ansiedade”, conclui ainda o autor Iiris Hovatta, acrescentando que “os mecanismos subjacentes podem oferecer uma chave para novos alvos de intervenções terapêuticas em doenças relacionadas com o stress”.