O debate entre o “PS dono disto tudo”, as disputas por quem tem o melhor “Centeno” e os ataques finais ao BE

Rui Rio e António Costa debateram esta segunda-feira nas rádios e não se pouparam nas críticas, mesmo que num tom cordial. Discordam das contas e das medidas, concordam na perigosidade do BE e no não a um bloco central.

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António Costa e Rui Rio voltaram a debater nas rádios LUSA/MÁRIO CRUZ

Os líderes dos dois partidos em melhor posição nas sondagens não se perderam, à semelhança do que aconteceu no primeiro frente-a-frente nas televisões, em grandes disputas sobre contasn neste que foi o último debate a dois, emitido nas três rádios de notícias, TSF, Antena 1 e Rádio Renascença. Mas nem por isso deixaram de lado uma espécie de concurso sobre quem tem o melhor Centeno, que não quer dizer outra coisa que não seja um debate eleitoral sobre a credibilidade das contas e das propostas.

Ambos apareceram mais em despique, a criticar propostas vindas do outro lado, desde as questões da ética na política aos passes sociais, ao eleitoralismo de medidas ou ainda a soluções de Governo. E foi aqui que ambos coincidiram numa espécie de inimigo comum: o Bloco de Esquerda. Foi já no fim do debate que ambos se referiram ao partido de Catarina Martins, o terceiro nas sondagens, a reboque de perguntas sobre soluções de Governo.

António Costa voltou a referir que quebrou o “tabu” do arco da governação e ambos concordaram que bloco central é uma situação indesejável, mas quando questionado se o seu maior adversário é o BE ou o PSD, Costa concentrou-se apenas no parceiro da esquerda. Disse o socialista que espera que “o BE que há quatro anos tinha o PS como seu adversário e depois no dia a seguir à reunião do PS com o PCP mudou”, possa agora rever a posição mais cedo. “Ter o PS como adversário é uma enorme frustração”, disse.

Já é a segunda vez numa semana que o socialista refere uma versão mais detalhada sobre o que aconteceu nas negociações para a formação da actual solução de Governo. Já o tinha feito numa entrevista com o jornalista Daniel Oliveira, no podcast “Perguntar não ofende”, quando disse que, “apesar do BE”, foi possível formar o Governo actual. Agora, deixou claro que o Bloco só se juntou à solução depois de o PCP o ter feito.

Rui Rio não acredita nestes “arrufos”: “É como acontece em casa quando o marido e mulher discutem e o filho toma o partido de um e de outro, mas no fim fica tudo bem e não há divórcio. Se precisarem de se entender, vão entender-se”, acredita o social-democrata. Já antes Rio tinha criticado estes ataques de Costa ao BE, dizendo que há uma “nova série que é a de o BE ser perigoso”. “Não é que discorde disso [que o BE é perigoso], há é uma contradição”, constatou.

O “meu” Centeno é melhor do que o “seu”

Ao longo do debate, várias foram as disputas sobre economia e finanças levando os dois líderes a falarem uma disputa sobre qual o “melhor Centeno”, leia-se, qual o melhor em Finanças.

Rui Rio tem falado várias vezes da degradação das contas públicas, com o défice externo a dar sinais negativos. E voltou a fazê-lo neste debate. António Costa contrapôs os argumentos dizendo que o que faz balancear o défice externo foi a importação de maquinaria, e neste ano o peso dos aviões da TAP: “A balança externa continua positiva, agora, essa diminuição [dos valores positivos da balança] deve-se ao seguinte, ao aumento de importações de maquinaria porque as empresas estão a modernizar-se. Se tem o quadro veja a composição”, aconselhou a Rui Rio.

O líder do PSD confessou não ter o quadro com a composição, mas na troca de argumentos chegou a defender que “o aumento do peso das exportações o PIB é vital. Devíamos ultrapassar os 50% e chegar aos 60%, passou de 42% para 44%, crescimento mínimo”.

Dados que conseguiu através do seu “Centeno”, ou seja, do seu responsável pelas Finanças, Joaquim Sarmento, atirou ao longo do debate com um “também tenho o meu Centeno”, o que levaria António Costa a responder: “Mas olhe que não troco o meu pelo seu. Os portugueses preferem o meu Centeno”.

Mais tarde, voltariam à carga com os números. Rui Rio deixou no ar a ideia que Mário Centeno pode apenas ficar como ministro das Finanças de um futuro Governo PS enquanto for presidente do Eurogrupo, o que termina em meados de 2020. Perante a dúvida, António Costa respondeu: “Seria melhor seis meses do meu Centeno do que quatro anos do seu”.

Esta, aliás, tinha sido uma fórmula que o secretário-geral do PS tinha usado nas europeias sobre Pedro Marques. Na altura, os sociais-democratas argumentavam que o candidato socialista não chegaria a ser eurodeputado porque a intenção de António Costa seria sugeri-lo para comissário europeu. Na altura, o líder socialista contrapunha dizendo que mais valia quatro meses de Pedro Marques enquanto eurodeputado do que os 10 anos de Paulo Rangel e Nuno Melo no mesmo quadro.

“PS dono disto tudo”

O “banho de ética” na política aqueceu o debate entre Rui Rio e António Costa esta segunda-feira nas rádios. O líder do PSD recusou falar directamente do secretário de Estado da Protecção Civil, Artur Neves, preferindo fazer uma “avaliação” do que é o PS e chegou a uma conclusão a partir da história dos socialistas: “O PS tem um tique quando está no poder, que é o de olhar para o Estado como se fosse o dono disto tudo. Tem a tendência para nomear os tais boys. É uma cultura dominante do PS”, disse.

Para o líder do PSD, o seu partido “nunca fez” o mesmo que o PS faz que é “instalar-se e considerar-se o dono do Estado”. Porque depois há um “défice de gestão nos serviços públicos, porque quando alguém foi nomeado não tinha as qualificações”.

Uma frase que irritou António Costa que recusou “lições de ética” e que esta era uma “acusação infundada” na história do PS. Para o primeiro-ministro, há uma confusão sobre a questão dos familiares no Governo, uma vez que em 62 gabinetes, com mais de 500 pessoas, apenas houve três casos na comunicação social “e nenhum nomeou familiares directos”. E foi aí que lembrou a Rui Rio que enquanto este foi presidente da Câmara do Porto também nomeou “a irmã” de um membro “da sua direcção” para o Rivoli.

“No PS não há é proclamações de banhos de ética que depois são à vontade do freguês. Nunca dei lições de ética de ninguém porque presumo que são tão sérios quanto eu, mas não aceito lições de ninguém”, disse António Costa.

Os dois líderes estão em debate depois das eleições regionais da Madeira e no arranque da campanha eleitoral, nas três rádios de notícias nacionais, TSF, Rádio Renascença e Antena1.

Rio ataca com “promoções à pressa e pimba, pimba”

Outro dos pontos de debate entre os dois líderes foi a medida mais icónica do Governo: a redução do preço dos passes sociais. Sobre este assunto, Rui Rio admitiu, depois de questionado algumas vezes por António Costa, que se fosse Governo manteria a medida, mas que a melhoraria.

“São uma boa medida, mas foi feito em cima do joelho, à beira das eleições europeias, agora já tem os operadores a berrar por falta de pagamento, não foram cuidadas por falta de pagamento. Não revogo, mas melhoro”, disse Rui Rio, que criticou o Governo por ter com isto aumentado a procura dos serviços públicos sem cuidar da oferta.

Na resposta, António Costa referiu os concursos lançados para autocarros, barcos, comboios e composições do metro: “Quando se lança concurso para comprar comboios, demoram cinco anos. Não íamos adiar cinco anos esta medida quando para as famílias é urgente a recuperação dos seus rendimentos”, disse Costa. Acrescentando ainda que há a meta de redução das emissões de carbono para os transportes públicos. “Temos 10 anos. Não podemos andar a perder tempo quando há coisas que podemos fazer já”, enfatizou.

Foi aqui que o líder do PSD acabou por falar dos concursos e anúncios. E acusou o Governo de eleitoralismo por esta nos últimos “6, 7 meses” a fazer “anúncios de investimentos” e “concursos” e “de promoções”. “Os compromissos já são tantos”… referiu. E agora até “promoções nas forças armadas à pressa e pimba, pimba, pimba”, disse.

As eleições na Madeira

No início do debate, António Costa e Rui Rio, começaram por se mostrar satisfeitos com os resultados das eleições regionais da Madeira. O presidente do PSD admite que a vitória de Miguel Albuquerque “é mais pequena”, mas que esta deve ser avaliada não “em valores absolutos, mas relativos”.

“É uma vitóoria, até aqui foram todas com maioria, esta é sem, é mais pequena, mas não deve ser visto em valores absolutos, mas relativos”, disse em resposta aos jornalistas. Isto porque, defende, tem de se ver “como foram as sucessões a líderes fortes”. “É dificílimo suceder a um líder forte. Conseguiu suceder e mesmo assim ganhar as eleições”. Sobre o seu papel, Rui Rio defendeu que deu “alguma ajuda, na unidade do PSD-Madeira, que eu acho que foi fundamental”.

Já António Costa admitiu que “não tendo ganhado, perdemos”. “Foi algo frustrante, ficámos a 5 mil votos de um resultado histórico”, disse. “Ficámos quase, quase lá. É um resultado histórico” de Paulo Cafôfo.

Já sobre a ideia de o PS-Madeira ter falado na possibilidade de uma “geringonça” na região autónoma, Costa disse: “Temos de respeitar a autonomia regional. Não me vou imiscuir nessa solução de Governo. Os nossos compromissos são independentes de qualquer que seja a formação do Governo”, disse.