Rui Pinto terá espiado Ministério Público e advogados durante dois meses sem ser descoberto

Acusação a alegado pirata revela fragilidades na segurança dos sistemas informáticos da Procuradoria Geral da República e de escritório de advogados. Advogados acusam MP de querer silenciar e destruir Rui Pinto.

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Rui Pinto foi detido na Hungria a 16 de Janeiro de 2019. LUSA/RODRIGO ANTUNES

Rui Pinto conseguiu entrar no sistema informático da Procuradoria-Geral da República (PGR), fazer pesquisas e sair sem ser notado, afirma a acusação do Ministério Público (MP). Durante cerca de dois meses, acredita o MP, o hacker passeou-se pelo sistema informático da PGR e acedeu às caixas de Correio Electrónico dos magistrados do MP e até extraiu documentos.

Como é que conseguiu as credenciais que lhe deram o acesso? As autoridades não conseguiram explicar.

No que diz respeito ao acesso às caixas de correio electrónico, “em data não concretamente apurada, mas seguramente anterior a 20 de Outubro de 2018, o arguido, com recurso a uma plataforma de phishing, obteve conhecimento das credenciais de acesso à caixa de correio electrónico com o endereço de e-mail de Amadeu Guerra, na altura director do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), bem como das caixas de correio utilizadas na PGR”, diz a acusação.

O pirata informático, autor do site Football Leaks, fez um total de 307 acessos entre Novembro de 2018 e Janeiro de 2019.

“Primeiramente, utilizou um procedimento capaz de obter credenciais de acesso ao sistema informático da PGR, sem provocar qualquer tipo de alerta para o utilizador”, lê-se na acusação, que revela ainda o facto de este acesso ter permitido a Rui Pinto “efectuar um reconhecimento com grau definido de profundidade da infra-estrutura de rede, bem como todos os equipamentos conectados e vulnerabilidades” do sistema.

“O arguido Rui Pinto não só visualizou, como exfiltrou parte da informação que ali encontrou, a qual veio a guardar no seu equipamento digital”, lê-se.

De acordo com a acusação, através deste acesso, o alegado pirata informático entrou também no SIMP, o sistema informático do Ministério Público. Acedeu a pastas do Conselho Superior do Ministério Público e a documentos vários em segredo de justiça e ainda a um ficheiro com o nome completo, número de telefone, correio electrónico e data de nascimento de todos os magistrados do MP.

Entre Novembro e Dezembro de 2018, também durante cerca de dois meses, Rui Pinto acedeu sem ser notado aos servidores da Sociedade de Advogados PLMJ, segundo o MP.

Na acusação, é relatado que “no dia 26 de Outubro de 2018” o arguido enviou para uma das advogadas da PLMJ um e-mail com vírus, cujo o remetente indicava ser da autoridade tributária. Nesse e-mail, ia um ficheiro com a indicação que apenas estaria disponível até dia 1 de Novembro de 2018 para descarregar. A advogada suspeitou que fosse um vírus e encaminhou a mensagem par os informáticos da PLMJ.

O informático, que tinha acesso remoto ao sistema, “por razões que se desconhecem”, de acordo com a acusação, abriu o tal endereço e as suas credenciais de acesso foram capturadas por Rui Pinto, que depois acedeu a mensagens de correio electrónico dos advogados.

Quando foi detido a 16 de Janeiro de 2019, em Budapeste, na Hungria, o pirata informático tinha na sua posse oito discos rígidos e três telemóveis, entre outros materiais informáticos.

Defesa: MP quer “silenciar e destruir” Rui Pinto

A defesa de Rui Pinto considera que a acusação do Ministério Público “contém numerosas falsidades, nulidades e ilegalidades”, visando “silenciar e destruir” o criador do Football Leaks.

“Com a acusação agora tornada pública e o pedido de manutenção da prisão preventiva, confirma-se a vontade do Ministério Público de silenciar e destruir Rui Pinto, evitando que prossiga a colaboração que vinha mantendo com as autoridades de investigação de outros países”, refere o advogado Francisco Teixeira da Mota em comunicado, acrescentando que “a equipa constituída pelo Ministério Público para investigar a criminalidade no mundo do futebol parece estar mais dedicada a perseguir aqueles que a denunciam do que a investigar aqueles que a praticam”.

“A defesa de Rui Pinto lamenta que o Ministério Público, ao mesmo tempo que consegue evitar que a SAD de um clube de futebol seja pronunciada, consegue ‘descobrir’ 147 crimes contra o seu constituinte e enquanto em Espanha a Doyen é objecto de processos fiscais e criminais, em Portugal goza do beneplácito das autoridades de investigação” lê-se no comunicado.

“Por último, acrescenta-se que a acusação deduzida contra Rui Pinto contém numerosas falsidades, nulidades e ilegalidades a que a defesa irá reagir no processo no seu devido tempo”, conclui a nota.