Reportagem

Depois do desemprego é possível mudar de vida e ser feliz?

A felicidade depois do desemprego é um dos temas em destaque na segunda edição do Congresso Internacional Labour 2030, que decorre nesta quinta e sexta-feira, na Alfândega do Porto.

Foto
Nik MacMillan/Unsplash

João e Pedro, chamemos-lhes assim, não se conhecem, mas têm em comum a situação “dramática” de despedimento vivido depois de 20 anos de dedicação às empresas onde trabalhavam. Em comum têm ainda o terem encontrado uma “janela de oportunidade” para a felicidade. João criou a empresa que andava a fervilhar na sua cabeça há anos e passou a ter mais tempo para os filhos que mal via ao final de um dia de trabalho. Pedro teve uma proposta de trabalho na mesma área onde já trabalhava. A felicidade depois do desemprego é um dos temas em destaque na segunda edição do Congresso Internacional Labour 2030, que decorre nesta quinta e sexta-feira, na Alfândega do Porto.

São muitos os casos como o do João, 48 anos, e do Pedro, 44, pessoas que dão tudo pela empresa, que podem chegar a um ponto de ruptura e até de burnout – o síndrome do esgotamento profissional – e que acabam por ser despedidas. “No momento do despedimento foi como levar um murro no estômago. Mas agora são felizes e muitas das pessoas relatam que se libertaram de um fardo”, descreve a psicóloga Dalila Almeida, autora do livro Mudar de Vida para o qual entrevistou 17 pessoas, com mais de 40 anos, que tinham cargos de responsabilidade em empresas nacionais e multinacionais. “Todos mudaram de vida, conseguiram ultrapassar obstáculos, como o despedimento e construir uma nova carreira ou uma nova vida”, descreve, acrescentando que “algumas pessoas dizem que estavam à espera deste ‘pontapé’ para darem sentido à vida”. 

“Agora estou muito mais feliz. Às vezes é preciso acontecer uma situação dramática para darmos o salto”, desabafa João, que era gestor comercial quando se viu envolvido no processo de despedimento colectivo no âmbito da reestruturação da multinacional onde era quadro superior. “Contava ser promovido, o que causou uma devastação gigante”, acrescenta, ao seu lado, a advogada Carla Naia que lhe deu apoio jurídico durante todo o processo. No dia em que João foi despedido foi como se o chão lhe tivesse fugido, mas foi também uma “janela de oportunidade”, refere a advogada, porque João acabou por criar um negócio no mesmo sector em que trabalhava, algo em que pensava mas que ia adiando.

O empresário conquistou autonomia e tempo para a família, conta. “Vejo o tempo como um objectivo de vida, coisa que não tinha quando trabalhava na empresa”, desabafa. João definiu prioridades, precisamente o que a psicóloga Dalila Almeida aconselha a fazer para que as pessoas sejam mais felizes. “O que é prioritário na minha vida? Será que é ver os meus filhos crescerem? Ter tempo de qualidade com eles?”, questiona a consultora, descrevendo que as pessoas passam a ser mais felizes porque também “há uma mudança de estilos de vida como mais tempo para a família, trabalharem ao seu ritmo para os seus próprios objectivos, com outro tipo de valores que se identificam mais”. 

Pedro, que era gestor de conta numa multinacional, ainda pensou mudar de vida, mas foi surpreendido com uma proposta de trabalho na mesma área. “Estive desempregado durante um mês e meio. Mas tenho mais tempo livre porque faço o meu horário e consigo conciliar melhor o laboral com o familiar”, revela. Carla Naia diz que é importante o tempo de desligar, de desconexão entre o trabalho e a vida privada. 

Mais do que felicidade, que a psicóloga Dalila Almeida diz ser uma coisa momentânea, importa a satisfação pessoal no trabalho, ou seja, “as pessoas não se sentirem mais um número na empresa, mas sim, que contribuem, que são um valor acrescentado”, define, sublinhando que “os trabalhadores gostam de ser tratados como adultos, como pessoas responsáveis” e querem ter feedback do seu trabalho. “Serem respeitados também pelo facto de terem família e precisarem de tempo de descanso”, acrescenta. “Já está demonstrado que a produtividade e o sucesso das empresas depende do bem-estar e da motivação dos profissionais que a compõem, desde o topo da pirâmide até à sua base”, aponta a advogada Carla Naia. 

Aconselhamento jurídico antes da ruptura 

Apesar de agora serem mais felizes, o processo de despedimento não foi fácil para João e Pedro. O que fazer quando são assaltados por um turbilhão de sentimentos perante um inesperado despedimento? “É muito difícil lidar com o sentimento de injustiça quando eu e a minha equipa tínhamos bons resultados. É dramático”, desabafa João.

Ambos procuraram apoio jurídico porque, a dada altura, sentiram tanta pressão que não sabiam como lidar com o processo de despedimento. “É um impacto muito grande quando, ao fim de 20 anos, somos preteridos, rejeitados. Houve tanta pressão da parte da empresa que cheguei a um ponto de burnout e estive de baixa médica”, conta Pedro. Os dois procuraram ajuda médica, tomaram ansiolíticos e antidepressivos. E tal como procuraram ajuda médica, também pediram apoio jurídico. Pedro foi despedido por extinção do posto laboral. A advogada Carla Naia considera que “existe uma maior sensibilização das pessoas para tentarem resolver as suas questões laborais, em busca da felicidade, antes da entrada em ruptura”.

Esta segunda edição do Congresso Internacional Labour 2030 vai reunir mais de 150 oradores oriundos de mais de três dezenas de países para debater o futuro do trabalho, numa iniciativa da Law Academy em parceria com a Cerejeira Namora, Marinho Falcão, Associação de Jovens Juslaboralistas.