Editorial

Elogio da normalidade

Aquilo que alguns poderiam identificar como desinteresse pela política, ou até como sintoma de uma certa anemia social, deve antes ser registado como o saudável respirar da normalidade.

Falta um mês para as eleições legislativas. Mas não fossem uns programas televisivos de “speed dating” político, em que dois candidatos são convidados a debater programas durante meia hora, e uma ou outra acção de campanha, e quase nada nos faria lembrar a aproximação desta data essencial para a nossa vida democrática.

Aquilo que alguns poderiam identificar como desinteresse pela política, ou até como sintoma de uma certa anemia social, deve antes ser registado como o saudável respirar da normalidade, especialmente quando comparado com o que se vai passando noutras democracias, bem mais experientes do que a nossa.

O derradeiro exemplo é o do Reino Unido, onde o mais antigo “regime liberal, moderado e plural” do mundo dá diariamente provas de um deslaçamento da sua prática política, num confronto aparentemente insanável entre democracia directa e representativa que poderá deixar sequelas graves no equilíbrio e no funcionamento do sistema.

Parece existir uma atracção por arrastar o sistema para o abismo, cristalizado na ideia de uma saída da União Europeia sem acordo, e que ecoa o que se passa do outro lado do Atlântico. Um estudo de psicologia política recentemente premiado sustenta que um segmento do eleitorado americano, que antes era bastante periférico, é atraído pelo “incentivo ao caos” e tem ganho uma influência decisiva através das redes sociais e, diga-se, também graças a um Presidente que tem no niilismo uma das suas principais armas.

Perante estes exemplos, e poderíamos falar das dificuldades de Espanha e Itália ou do cinismo destrutivo da Hungria ou Turquia, a acalmia portuguesa é um bálsamo. Especialmente quando esta acalmia não pode ser confundida com imobilismo do sistema político. Estamos no fim de uma legislatura que se sustentou numa aliança parlamentar inédita que, pela primeira vez, teve a participação de forças políticas até então arredadas do exercício do poder, nem que fosse de forma indirecta. Estamos à beira de umas eleições em que se verifica a emergência de novas forças políticas que mostram que os eleitores possuem um leque bastante alargado de escolhas, que não se resumem aos partidos tradicionais.

“Se estiveres sempre empenhado em ser normal, nunca saberás o quão fantástico poderás ser”, escreveu Maya Angelou. Nos dias que correm, pelo menos no que às democracias diz respeito, é caso para dizer que o “fantástico” é muito sobrevalorizado e fazemos muito bem em viver no normal.