“Dei a minha juventude ao Reino Unido”. Portuguesa interrompe directo da Sky News para falar sobre o “Brexit”

A imigrante portuguesa deu um testemunho descrito pelo canal de televisão como “apaixonado”, mas as opiniões sobre a situação dividem-se. Há quem se sinta solidário, mas também há quem acuse o canal de encenar o directo.

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SKY NEWS

Um vídeo de uma portuguesa que interrompeu uma entrevista em directo da Sky News, um canal de televisão britânico, para falar sobre o processo do “Brexit” tornou-se viral. Durante um protesto no centro de Londres contra a suspensão do Parlamento britânico, sem se identificar, a mulher portuguesa interrompeu a entrevista a outra jovem para protestar sobre a forma como os cidadãos da União Europeia estão a ser tratados naquele país.

“Tu tens uma voz, mas eu sou portuguesa e trabalhei aqui durante 20 anos e não tenho voz”, disse a mulher em resposta ao que uma jovem estava a dizer anteriormente. “O processo de pedido de residência não está a funcionar. Protesto porque eu preciso de uma voz. Trabalhei e dei a minha juventude a este país”, explica a portuguesa no vídeo. 

A rainha Isabel II autorizou esta quarta-feira o pedido do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, de suspender o Parlamento britânico durante cinco semanas, ou seja quase até à data marcada para o “Brexit”, a 31 de Outubro.

A imigrante conta que trabalhou no Reino Unido durante mais de 20 anos a tomar conta de crianças e idosos, mas que agora, a dois meses da data limite para a saída do país da União Europeia, o seu processo de regularização entrou num impasse: uma das informações necessárias para terminar o pedido não está correcta e os serviços britânicos afirmam que a imigrante terá de começar tudo de novo.

“Dei a minha juventude a este país. Estou muito grata por aquilo que me ensinaram, mas devia ser integrada em todo este processo. Não posso simplesmente ser chutada daqui para fora. Eu construí coisas para vocês, tomei conta dos vossos filhos e tratei dos idosos deste país. Agora expulsam-me com o quê? Com o quê? Sinto-me muito magoada com o que fizeram com Inglaterra. Eu vim para aqui e juntei-me à força de trabalho e estou muito orgulhosa”, refere a portuguesa.

Questionada pelo jornalista sobre o que lhe disseram acerca do seu processo, a mulher afirma que lhe transmitiram a informação de que o seu número da segurança social “não bate certo” e que o processo tem de voltar ao início. “O que vou fazer? Como é que vou ficar aqui? Quais são os meus direitos? Estou no escuro, tal como muitas pessoas que já deixaram Londres e que estava na mesma decisão. Porque é que este parlamento não eleito nos fez isto?”, diz ao jornalista.

Nas redes sociais onde o vídeo tem sido partilhado com a legenda “o testemunho apaixonado de uma portuguesa”, as opiniões dividem-se: se por um lado há quem se sinta solidário com a situação, também há quem acuse a Sky News de ter encenado a interrupção e quem diga que a mulher foi para aquele país trabalhar “porque quis” e que teve três anos para se legalizar, mas só agora, nos últimos meses, é que se está a preocupar.

A SIC Notícias revelou, no fim da tarde desta quinta-feira, que a imigrante portuguesa se chama Ana Rocha. Em declarações ao canal, a portuguesa disse ser atacada e vaiada nas ruas de Londres e que o Reino Unido está “irreconhecível”. “Quando falamos português num autocarro ou num comboio temos sempre medo de sermos vaiados ou atacados. Eu estava num autocarro e estava a falar português ao telemóvel e um fulano deu-me um abanão e disse-me para voltar para a minha terra”, confessa a imigrante que culpou ainda o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, pelos ataques de xenofobia de que é alvo no país.

Para conseguir a nacionalidade britânica, os cidadãos europeus precisam desde 2015 de apresentar a prova de residência permanente no Reino Unido, procedimento que aumentou significativamente nos últimos dois anos. 

O estatuto de residente permanente (settled status) é atribuído àqueles com cinco anos consecutivos a viver no Reino Unido, enquanto os que estão há menos de cinco anos no país terão um título provisório (pre-settled status) até completarem o tempo necessário. Este não é um direito automático, mas tem de ser solicitado e concedido pelas autoridades britânicas, sendo o procedimento, gratuito e feito exclusivamente através da internet. 

O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, avançou em Julho que cerca de 80.900 portugueses já pediram o estatuto de residente no Reino Unido, necessário para depois do “Brexit”.

Notícia actualizada às 18h15 com as declarações de Ana Rocha à SIC Notícias.