Manuel Alegre e João Soares consideram indesejável apologia de Salazar

A ex-ministra Gabriela Canavilhas defende a necessidade de estudo objectivo do Estado Novo, mas admite ser difícil por falta de distanciamento.

Elizabeth segunda
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Salazar na visita da a raínha Isaberl II de Inglaterra Rui Gaudencio

O político socialista e poeta Manuel Alegre e o ex-ministro da Cultura de António Costa e deputado do PS João Soares consideraram indesejável, em declarações ao PÚBLICO, que em Santa Comba Dão seja construído algo apologético do ditador António Oliveira Salazar. Também Gabriela Canavilhas, titular da pasta da Cultura quando José Sócrates era primeiro-ministro, diz que não faz sentido um espaço de memória à volta de Salazar.

“Um museu com carácter pedagógico podia ser útil, as pessoas que não sabem quem foi Salazar ficavam a saber o que foi e como nasceu a ditadura e quem foram os que lutaram contra ela”, resume Manuel Alegre. “Seria um museu com todos os lados, em que se explicasse objectivamente o Estado Novo e em que não se esquecesse a repressão”, explica o poeta. Dito por outras palavras: “um museu sem enquadramento seria para branqueamento.”

Alegre, que tem uma longa trajectória de oposição à ditadura que o levou ao exílio em França e na Argélia e que só regressou a Portugal depois da Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, reconhece a dificuldade de tratar a questão de forma objectiva.

“É difícil, pois é necessário pôr os dois pratos na balança, mas não é proibir falar de Salazar”, insiste. “Independentemente da boa-fé [da iniciativa do autarca socialista de Santa Comba Dão, Leonel Gouveia], num país em que se fez pouca pedagogia democrática, seria útil, embora difícil, fazer um museu sobre a ditadura. Já um museu sobre Salazar, não”, sublinha.

Sobre a carta aberta dirigida ao primeiro-ministro, António Costa, para que trave a iniciativa do presidente da câmara beirã, Manuel Alegre secundariza a questão: “Dados os problemas que o país tem…”

“Não conheço salazaristas”

O apelo a Costa é também considerado um despropósito por João Soares. “Tenho a maior consideração pelos presos políticos, sou amigo de muitos que fui visitar à prisão, mas pedir ao primeiro-ministro que impeça que se abra uma coisa, seja ela qual for, é contra os princípios do 25 de Abril”, destaca: “Íamos utilizar métodos que nada têm a ver com a luta contra a ditadura”.

O antigo ministro da Cultura traça, no entanto, uma fronteira. “Não me repugna nada que se faça uma coisa sobre o homem que marcou 50 anos da vida do nosso país, mas considero indesejável algo apologético”, assinala. Neste ponto, João Soares está tranquilo. “Conheço os autarcas [socialistas] da zona de Santa Comba Dão e os deputados [do PS] e sei que nunca fariam uma coisa apologética”, garante.

“Não sou suspeito de simpatia pelo Salazar, não quero entrar em polémicas e respeito todas as opiniões, mas acho que não passa pela cabeça de ninguém fazer algo apologético”, repete. “Nesta terra não conheço salazaristas, em Portugal não há partidos de extrema-direita, o que nos distingue da Europa, e não há nenhum risco, não vejo nenhuma ameaça fascista ou algo que se lhe pareça”, refere.

Não faz sentido”

Gabriela Canavilhas, ex-ministra da Cultura do XVIII Governo Constitucional de José Sócrates, entre 2009 a 2011, admite que, mesmo 45 anos após do fim da ditadura, ainda é cedo para abordar o período do Estado Novo. Um regime que marcou boa parte do século XX português, entre 28 de Maio de 1926 e 25 de Abril de 1974.

“É preciso que passe mais tempo para haver um espaço de interpretação histórica”, assinala. “Faz muito sentido que se estude o período da ditadura, mas não é à volta da figura de Salazar”, ressalva: “Um espaço de memória em relação à figura de Salazar não faz sentido, dada a proximidade temporal que temos em relação à ditadura.”

E é, precisamente, na perspectiva de que a fulanização leva à afectividade que reside o óbice levantado pela antiga governante. “É necessária uma distância histórica e ideológica, despida de afectividade”, sublinha. “É preciso mais tempo”, sintetiza.

Petição com 12 mil

A Câmara de Santa Comba Dão, que ainda não revelou os responsáveis da direcção científica do projecto, investiu cerca de 120 mil euros na aquisição da casa onde nasceu, na residência na qual viveu, na requalificação da Escola Cantina Salazar e na aquisição da adega e quinta que foram de Oliveira Salazar.

Segundo o que foi divulgado, no centro interpretativo serão instalados conteúdos multimédia e interactivos. Os objectos pessoais terão exposição nos imóveis que pertenceram ao presidente do Conselho e objectivo do município é integrar este centro numa rota de figuras históricas.

Em 2016, num inquérito, a maioria das vítimas do Estado Novo era contra este projecto. Nesta sexta-feira, eram mais de 16 mil as pessoas que já tinham solicitado em petição pública a intervenção do Governo. O texto “Museu de Salazar, não!”, apoia uma carta aberta dirigida ao primeiro-ministro, António Costa, em 12 de Agosto, na qual 204 antigos presos políticos manifestavam o seu “mais veemente repúdio” pela iniciativa.

Entre os que subscreveram aquele protesto está o historiador Fernando Rosas que, em declarações ao Expresso, revelou ter rejeitado colaborar com o projecto do autarca Leonel Gouveia que considera como um mero “chamariz de turismo político, mesmo que seja feito com as melhores intenções”. Também ao semanário, a historiadora Irene Flunser Pimentel embora não se oponha à iniciativa, destaca dois aspectos: a importância da equipa científica e a intenção que preside à sua criação.

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