Invasão de jacintos de água ameaça rio Sorraia

Grupo de cidadãos estima que, entre Benavente e Coruche, 80 por cento do rio já esteja coberto por esta espécie

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Rui Gaudêncio
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Perto de 80 por cento do troço do rio Sorraia compreendido entre as vilas de Benavente e de Coruche já estará completamente coberto de jacintos de água. A proliferação desta planta “invasora” está a gerar muita preocupação na região ribatejana, com autarcas locais a pedirem medidas da administração central e um grupo de cidadãos a criar um movimento com o mesmo objectivo. O já denominado “Juntos pelo Sorraia” considera urgente uma intervenção das entidades oficiais da área do ambiente e agendou uma marcha de sensibilização para os problemas do Sorraia, que se vai realizar no dia 15 de Setembro, na localidade do Biscaínho, no concelho de Coruche.

O problema da proliferação de jacintos não é novo na região ribatejana, mas atingiu, desta vez, uma dimensão inédita no Sorraia, sobretudo nos cerca de 40 quilómetros deste afluente do Tejo compreendidos entre Coruche e Benavente. As condições climatéricas e os baixos caudais também ajudam ao agravar do problema, que só poderá ser atenuado com operações de remoção demoradas e com custos elevados.

“Outrora navegável, o Rio Sorraia atravessa, nos nossos dias, uma situação alarmante, pois cerca de 80% da sua extensão encontra-se coberta por um denso tapete de jacinto de água, planta infestante oriunda da bacia amazónica considerada como uma das piores espécies invasoras. Estas plantas aquáticas, introduzidas principalmente para fins ornamentais, apresentam a particularidade de se reproduzirem e replicarem muito rapidamente, podendo duplicar a sua população em apenas cinco dias. Cada fragmento pode ser arrastado pela corrente e originar novos focos de invasão”, sublinha Sandra Alcobia, bióloga ligada à Companhia das Lezírias, que aderiu ao movimento “Juntos pelo Sorraia”. Segundo refere, a proliferação dos jacintos de água “é favorecida por águas ricas em nutrientes, principalmente azoto, fósforo e potássio” e encontra, ao longo deste rio, “condições de excelência para a sua propagação, resultantes das actividades agrossilvopastoris”.

Já José Miguel Pastoria, professor de educação física, que foi um dos dinamizadores do movimento, avisa que, se não forem tomadas medidas, esta invasão de jacintos vai matar a fauna e a flora do Sorraia. “Esta espécie invasora, incluída na lista de espécies que suscitam preocupação na União Europeia, tomou por completo o curso de rio Sorraia entre as localidades de Coruche e Benavente. Este problema tem-se acentuado ao longo dos anos e, infelizmente, não se tem solucionado. Se no passado, as cheias anuais ajudavam na sua resolução, transportando as plantas para jusante, onde acabariam por morrer por serem expostas a salinidades mais elevadas, neste momento as cheias são muito raras e não têm água suficiente para ‘limpar’ o rio”, constata José Pastoria, vincando que “a densidade da planta é tal, que só com uma intervenção humana musculada poderá tornar-se possível removê-la”.

No entender do fundador do “Juntos pelo Sorraia”, a invasão de jacintos de água é, actualmente, “o principal problema do rio”. O movimento de cidadãos já criou um site e uma página de Facebook e promove, no próximo dia 15, uma caminhada de alerta para a situação do Sorraia. O objectivo será “analisar presencialmente a forma como esta planta tomou por completo o curso do Sorraia” e mobilizar todos os que se preocupam com esta causa, “a favor do rio e contra ninguém, para que todos juntos ajudem a resolver este enorme problema”.

Câmaras preocupadas

Também os presidentes das câmaras de Benavente e de Coruche se mostram preocupados com o problema e explicam que já enviaram uma exposição conjunta ao Ministério do Ambiente. As autarquias dizem que fazem, dentro das suas possibilidades, a remoção dos jacintos nos troços urbanos que atravessam estas duas vilas, mas que não têm capacidade nem competência para intervir nos restantes troços. A Associação de Regantes do Vale do Sorraia também reconhece que o problema tem-se agravado, faz algumas acções de limpeza dentro das suas possibilidades, mas conclui que nos períodos mais secos, os jacintos voltam a invadir as zonas limpas em menos de 15 dias.

O rio Sorraia nasce próximo da localidade do Couço, no concelho de Coruche, e tem uma extensão de 155 quilómetros até à Ponta d’Erva (concelho de Vila Franca de Xira), onde desagua no Tejo. Tem, também, uma das maiores bacias hidrográficas do território português, que se estende por cerca de 7700 quilómetros quadrados, correspondentes a cerca de 8 por cento da área de Portugal Continental.

O PÚBLICO tentou, até agora sem sucesso, obter mais esclarecimentos junto do Ministério do Ambiente.