A hora de se falar no pós-greve dos motoristas

O sindicato e Pardal Henriques devem aprender que a sua arrogância é inaceitável em democracia. A ANTRAM deve reconhecer que o modelo de remuneração baseado em salários baixos disfarçados com horas-extra que fogem à alçada da Segurança Social é indigno num país que continua longe dos padrões europeus.

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LUSA/TIAGO PETINGA

Ao fim de uma semana de luta inglória, os motoristas deram-se conta de que a radicalização que ensaiaram por momentos não levava a lado nenhum. A sua sorte estava traçada a partir do momento em que o Governo criou o mais impressionante processo de anestesia política em muitos anos, desde que a justiça deu cobertura para eventuais acções musculadas contra os grevistas, logo que se percebeu que por justa que seja a luta dos sindicatos há nas suas reivindicações e nos seus métodos um radicalismo insuportável. Com gasolina nos postos, com a autoridade do Estado reforçada, com a hipocrisia da esquerda a encontrar escapes para a sua demissão, o PSD e CDS em país em férias e Marcelo enfastiado com a capitalização política do PS, o sindicato de Pardal Henriques prepara-se para uma capitulação anunciada.

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Ao fim de uma semana de luta inglória, os motoristas deram-se conta de que a radicalização que ensaiaram por momentos não levava a lado nenhum. A sua sorte estava traçada a partir do momento em que o Governo criou o mais impressionante processo de anestesia política em muitos anos, desde que a justiça deu cobertura para eventuais acções musculadas contra os grevistas, logo que se percebeu que por justa que seja a luta dos sindicatos há nas suas reivindicações e nos seus métodos um radicalismo insuportável. Com gasolina nos postos, com a autoridade do Estado reforçada, com a hipocrisia da esquerda a encontrar escapes para a sua demissão, o PSD e CDS em país em férias e Marcelo enfastiado com a capitalização política do PS, o sindicato de Pardal Henriques prepara-se para uma capitulação anunciada.

Importa agora aproveitar as negociações para o fim decisivo da greve e tirar consequências do que se passou. Um Governo que aprova horários de 35 horas para funcionários públicos e não manifesta qualquer incómodo com contratos colectivos de trabalho que podem chegar às 60 horas semanais (pelo contrário, usou os factos como prova da falta de razão dos motoristas) não pode dizer que trata todos os portugueses por igual. Uma esquerda que distingue greves de acordo com o poder de controlo que exercer sobre elas não pode vir agora dizer que a culpa é das empresas e dizer como devem ou não devem transportar as suas mercadorias. Ainda não chegámos à Venezuela para que sejam os ministros a dizer o que podem ou devem fazer as empresas.

Importa agora que nas negociações todos assumam posições de bom senso e saibam determinar as suas responsabilidades. O sindicato e Pardal Henriques devem aprender que a sua arrogância, alimentada pelas perturbações da greve de Abril, é inaceitável em democracia. A ANTRAM deve reconhecer que o modelo de remuneração baseado em salários baixos disfarçados com horas extra que fogem à alçada da Segurança Social é indigno num país que continua longe dos padrões europeus. E o Governo e os partidos que o apoiam devem olhar com outro cuidado para o país que existe para lá dos funcionários públicos representados pelos sindicatos da CGTP. Sim, há portugueses que têm de trabalhar 60 horas por semana para ter um salário digno. Quanto à oposição, não se sabe sequer o que reclamar. Rui Rio veio ontem a terreiro fazer prova de vida com argumentos atendíveis, mas num episódio desta gravidade seria de esperar mais, muito mais, do principal partido da oposição.