Reportagem

Mega Fundeira: esta praia não é para todos

Sob o quilómetro 306 da icónica EN2, na fronteira entre Góis e Pedrógão Grande, esconde-se uma pequena área de recreio onde, por estes dias, se vive de refrescantes mergulhos em plena comunhão com a natureza.

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Não devo alguma vez ter escrito título tão literal. Primeiro, porque é pequenina. E já somos muitos a fazer desta a “nossa” praia, sem que sequer o seja — oficialmente, é, desde 2008, uma zona de lazer, criada ao abrigo do plano AGRIS, que visa a promoção e o desenvolvimento das zonas rurais. E, por enquanto, apesar de a água ser analisada bimensalmente e de ter o aval da Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável, ainda não reúne as condições todas para apresentar as credenciais oficiais de praia fluvial. Ainda que todos os anos surja com melhorias: a próxima consiste na reconversão do antigo moinho num espaço didáctico e dedicado a preservar as memórias rurais. 

Depois, porque haverá quem não se reveja na água gelada de fazer doer os ossos, na familiaridade entre quem a frequenta (mesmo que nem sequer se conheça) e muito menos com os insectos que insistem em reclamar este habitat como seu — aqui, convive-se harmoniosamente com vespas que, em vez de nos atacarem, preferem petiscar das carcaças dos caracóis que deixamos. 

Mas, mesmo com todos os inconvenientes, há qualquer coisa em Mega Fundeira que atrai quem a conhece e que depressa convence quem a visita pela primeira vez.

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Ao fundo, os suaves ritmos jazzísticos da Smooth FM mesclam-se com as conversas animadas, mas também com os silêncios de quem folheia o jornal ou se delicia com um livro. Também as gentes que as frequentam vão dos oito (meses) aos (mais de) 80 anos. Pela curta área arrelvada onde se podem estender as toalhas, mas também aproveitar as confortáveis cadeiras e almofadas, estrategicamente dispostas, nunca se sente invasão de espaço. Pelo contrário. O que espanta, sendo tão pequenina e tendo tanta gente. Mas, à boa maneira beirã, há sempre lugar para mais um. Sobretudo à mesa, sob as frescas sombras dos plátanos ou das parras das videiras.

No ar soam gargalhadas pueris, risinhos de adolescentes com os olhos afastados dos ecrãs (a rede de comunicações móveis é basicamente inexistente, para o bem e para o mal), vozeirões de amigos que o são desde sempre, ladainhas de antigos. E, pelo meio, uma variedade de línguas: inglês, francês, holandês, espanhol, dinamarquês... Mas também de sotaques: lisboetas, beirões, portuenses, coimbrões, alentejanos. Juntos, compõem uma harmonia que nunca parece sair do compasso. Mesmo quando os caracóis acabam, é preciso repor o barril de cerveja ou se aguarda ansiosamente por uma tosta mista em pão rústico com manteiga caseira (alguém a salivar além da escriba?). E, continuamente, assiste-se às piruetas para dentro de uma água cuja transparência permite ver cada pedra que compõe o seu fundo (se não for um habitué de praias fluviais, é melhor levar calçado apropriado): sejam elas resultado do choque térmico ou de aprimorado jeito para as coreografias aquáticas.

Mas deixemos o melhor para o fim: do texto e do dia. Porque é já depois de o sol passar a ponte da EN2, que divide os concelhos de Góis e de Pedrógão Grande (e os distritos de Coimbra e Leiria), lá bem em cima e cuja existência só damos conta quando a sua sombra se impõe, ainda que por breves momentos, que mais apetece mergulhar, aproveitando os últimos raios até estes, por fim, abandonarem o íngreme vale.

À volta da praia

Jardim das Mil Flores
De uma história de amor com mais de trinta anos nasceu um jardim. Parece um cliché, mas é real. Quando comemoraram três décadas de união, Paul de La Panouse voltou a pedir Annabelle em casamento, que celebraram em Vila Facaia. Como prenda, pediram aos amigos uma rosa: e ficaram com 400. Hoje, o Jardim das Mil Flores, no Sobreiro, uma pequena aldeia do concelho de Pedrógão Grande, reúne mais de sete mil diferentes espécies, muitas raras. “É um jardim para o futuro”, diz-nos Wendy Williams, uma inglesa que se dedica a ajudar na propriedade. Um passeio por aqui é uma viagem de aromas, que se mesclam para criar um perfume exclusivo — “é melhor ainda ao cair do dia, naqueles minutos antes mesmo do sol se pôr”, aconselha a nossa guia. O espaço, catalogado como museu e aberto diariamente das 14h às 18h (19h, se for fim-de-semana ou feriado; encerra em Março), está em constante mutação, com as estações a ditarem qual o jardim mais florido. Destaque para os três jardins de rosas: Antigas, Modernas e Botânicas. A entrada custa 6 euros ou mais um para uma visita guiada; entre os sete e os 12 anos, o valor a pagar é de 2€. Estudantes pagam 3€ (4€ para visita guiada). 

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Trilhos pedestres, aquáticos e vínicos
Durante todo o ano, o convite é para caminhar pelo Trilho de Mega Fundeira, homologado no Registo Nacional de Percursos Pedestres (PR 10 PGR), que, a partir da zona de recreio e lazer, junto à praia fluvial, percorre o património construído antigo cujo funcionamento dependia da ribeira de Mega. Porém, esporadicamente, a proposta é para conhecer a ribeira através da própria, numa caminhada com os pés (e, às vezes, o corpo todo…) dentro de água, passando por zonas onde a natureza é quem ainda mais ordena, tendo um pequeno vislumbre da multiplicidade de espécies coloridas que habitam a linha de água. Uma vez por ano, destaque para outra caminhada (este ano, é já domingo, 18, a partir das 15h; a inscrição é 5€ e inclui uma caneca para ir bebendo ao longo do caminho) que constitui uma romaria pelas adegas de Mega (de cá [da ribeira] e de lá [da ribeira] – qual é qual “depende de onde estamos quando dizemos isso”), com toda a gente a abrir as portas das suas casas e respectivas adegas a uma caravana de gente animada pelo frenesim das concertinas. Mais informações junto da Associação Melhoramentos Cultura e Recreio do Lugar de Mega Fundeira, através do email [email protected] ou da página de Facebook.

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Alvares museológica
Aos 89 anos, o pároco da freguesia de Alvares, no concelho de Góis, continua a palmilhar os vários lugares, ao volante do seu automóvel, para cumprir a sua missão apostólica. E, ao longo de quase 40 anos à frente da paróquia, conseguiu reunir algumas das peças mais emblemáticas e valiosas das várias capelas no Museu de Arte Sacra Padre Ramiro Moreira que pode ser visitado por qualquer um, mediante marcação. Entre os objectos de arte sacra, contam-se as imagens de São Mateus, em pedra do século XVI, ou de São Sebastião, em calcário do século XV. A três passos, quase literalmente, o Museu do Ferreiro ocupa o espaço onde trabalhava o último ferreiro da freguesia. Aqui, podem-se observar os instrumentos essenciais à actividade, como a forja, e algumas peças feitas pelo artesão. As visitas são efectuadas com marcação prévia na Junta de Freguesia (Tel.: 235 587 384).

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Museu de Arte Sacra Padre Ramiro Moreira Paulo Pimenta
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Museu de Arte Sacra Padre Ramiro Moreira Paulo Pimenta
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Casa Museu Ferreiro Alves Paulo Pimenta
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Taberna do Ferrador
A ideia era para ser casa de petiscos e as entradas não desapontam: presunto de Salamanca com 16 meses de cura (6€), queijo da Soalheira (4,50€), alheira com ovos de codorniz (5€)... Mas, para além das tapas, idealizadas por Vasco, a ementa depressa cresceu para oferecer propostas de fazer água na boca, entre as quais não faltam os tradicionais bucho (10€) e maranhos (9,50€), mas também especialidades menos regionais: bife da vazia de raça galega (14€) e espetada de lombinho em pau de louro (14,90€). Já o ambiente é familiar, com garantia de se ser sempre recebido com simpatia pelo casal Vasco Mateus e Mafalda Nunes, e a decoração, marcada pelas mesas e bancos corridos em madeira — a lembrar as antigas tabernas às quais foi buscar parte do nome —, potencia momentos verdadeiramente descontraídos. R. Nogueira 8, junto ao Jardim da Devesa de Pedrógão Grande; encerra às terças (informações e reservas: 236 486 034).

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Relva da Mó
Uma forma diferente de viver a aldeia, alugando uma casa no meio de uma. É essa a proposta no lugar de Relva da Mó, freguesia de Alvares, onde José Carlos Coelho adquiriu e recuperou uma antiga propriedade familiar para a transformar num lugar especial, onde “ainda se pode saborear a liberdade” e onde os traços do passado não foram apagados, quer no mobiliário, quer na opção de manter a pedra da parede à vista. Mas a modernidade não lhe passa ao lado: há aquecimento central e wifi. Voltado para a montanha e com vistas desafogadas, o espaço pode ser alugado completo ou optar por apenas uma parte do alojamento: uma com dois quartos e varanda panorâmica; outra, também com dois quartos, a ocupar o lugar da antiga adega. O preço por noite varia entre 35 e 80 euros por noite. Noutra localidade, em Roda Fundeira, a pouco menos de um quilómetro, há ainda outra proposta: a Casa da Capela, paredes-meias com esta, com um quarto. Mais informações no site.

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Relva da Mó Paulo Pimenta
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Festas Populares
É Agosto e já se sabe que por todo o país o que não falta é propostas para festejar. Desde há uns anos sem ou com poucos foguetes, mas ainda com muita luz, comida, bebida, missa, procissões e música pimba. E à volta de Mega Fundeira, que está em festa este fim-de-semana, também não faltam propostas: Louriceira, Pedrógão Grande (até 19); Chã de Alvares, Góis (até 19); Flash Party Louriceira (20/8); Mega Party, na praia de Mega Fundeira (21/08); e Summer Party, em Cortes, Góis (22/8), cujas festas vão de 23 a 26. Um pouco mais longe, já no concelho da Pampilhosa da Serra, vale a pena entrar na roda na festa da Aldeia Fundeira, no último fim-de-semana do mês.

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Picha ou Venda da Gaita
Não é nenhum ponto de visita obrigatório, ainda que, na Picha, o Café-Restaurante, à beira da EN2, seja um local recomendável para uma refeição rápida e em conta (outro espaço a reter é o Restaurante Alto da Louriceira, na EN2, onde o leitão assado ao domingo é motivo de romaria: melhor reservar - 236 488 169). Mas há pouca gente que resiste à selfie junto a uma placa ou a outra — as duas ficam a poucos metros uma da outra.

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