Crónica da Vanessa

Explode coração

Quem inventou o coração de filigrana sabia exactamente o que estava a fazer. Viana é amor e não é só amor — é paixão, ao Minho pertence tudo o que é excessivo.

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- Já atestei. Vou para Viana.

A minha amiga Vanessa às vezes gosta de me chatear.

- Vais a Viana?

- Vou. Vou ao desfile das mordomas. E fico até domingo. Desta vez, vou estar do princípio ao fim nas festas d’Agonia.

- Mas como vais? Aquilo não é chegar e entrar.

- Não te preocupes. Tenho tudo preparado.

A Vanessa não é minhota, eu sou, e estou absolutamente convencida que só um minhoto percebe outro minhoto. Acabei de confirmar isto agora com o meu colega Sérgio Gomes. Mas quando ela telefonou a contar isto o Sérgio não estava aqui e eu não tinha ninguém que me percebesse. As Festas da Nossa Senhora d'Agonia, desta vez assombradas pelos pescadores irritados por causa da instalação do cabo submarino do futuro parque eólico, que ameaçam não fazer a procissão ao mar, vão começar por estes dias. Já amanhã à noite, há uma cerimónia religiosa na igreja de São Domingos, a igreja onde eu fui baptizada, disse-me o meu pai 40 anos depois, “à minhota”. A sério. Ao que apurei 40 anos depois, não foi um baptizado normal, daqueles em que vai a família toda. Nós, os minhotos, dizemos que muitas coisas são “à minhota”.

E agora a Vanessa ia ser mordoma e eu não?

- Vem, não sejas parva!

- Tenho que trabalhar.

- Vá, se não conseguires ir no desfile da mordomia, arranjo maneira que entres no cortejo de sábado.

- Arranjas o quê? Não digas disparates.

A romaria — mas a da Senhora d’Agonia é a mais extraordinária de todas — é o acontecimento mais católico e mais pagão, tudo ao mesmo tempo, das coisas portuguesas. Pecado e absolvição numa jornada só. É o mais acabado retrato da vida: choro e gargalhada revezando-se, ora em rebentação conjunta. Quem inventou o coração de filigrana sabia exactamente o que estava a fazer. Viana é amor e não é só amor — é paixão, ao Minho pertence tudo o que é excessivo.

Mas como é que a Vanessa tinha conseguido ser mordoma?

- Já muita gente foi antes de mim. A Gabriela Canavilhas, parece. Acho que ela é açoriana.

Os Açores são o Minho com menos excessos em algumas coisas e mais excessos — paisagem, vulcões — em outras. Fazia sentido. Na música tradicional há muitas semelhanças: há tanto vira nas música popular açoriana, mas talvez só os minhotos cantem “o anel que tu me deste/era de vidro quebrou-se/o amor que eu te tinha/era pouco acabou-se”. A Brigada Vítor Jara cantava: “O anel que tu me deste/era de vidro quebrou/tanto dure a tua vida/como o anel me durou”. E depois há aquela versão com que sempre nos rimos em crianças “o anel que tu me deste/era de vidro quebrou/atirei-o da ponte abaixo/também te atirava a ti”.

O meu coração ateu e minhoto é mais contido fora do Minho. Nem sei o que vai acontecer à Vanessa nesta romaria d'Agonia.