Opinião

Greve: “Boris Costa” em Lisboa

Quando muitos afirmam que felizmente o populismo não atingiu ainda Portugal, ele entra, com furor e honras de Estado, pela porta escancarada do Governo.

1. Quem esteve atento ao fim-de-semana político no Reino Unido não pode deixar de estar preocupado pelos avanços do populismo no mais moderado dos regimes democráticos. Boris Johnson dedicou-se a mais umas jornadas de governo em campanha e campanha em governo, desta feita sobre o terceiro mote da sua epopeia: “lei e ordem” (o primeiro é o “Brexit” e o segundo é o serviço nacional de saúde). Lei e ordem: garantir mais 20.000 polícias, endurecer as penas para os crimes mais violentos, assegurar que os presos cumprem períodos cada vez mais longos da sua pena (sem acesso à liberdade condicional). Tudo num estilo omnipresente, feito de aparições cirúrgicas ao longo de cada dia, em diversos contextos e sempre num modo altamente visível. Boris Johnson, desde que ascendeu à posição de primeiro-ministro, ainda não parou de fazer campanha eleitoral. Uma campanha totalmente focada na sua pessoa e nas suas façanhas. Marcada pelo discurso enfático, pelos gestos simbólicos, pela ocupação molecular do espaço mediático. 

2. Por Londres e arredores, Boris Johnson fazia o seu acto de fé na lei e na ordem. No mesmo fim-de-semana, por Lisboa e arrabaldes, António Costa envergava as vestes do grande zelador da ordem e da lei. Investido da energia de Boris, faz-se aparecer a cada duas horas. Ora em reuniões de um gabinete ministerial de emergência, copiosamente fotografadas e filmadas. Ora em visitas à protecção civil, cheias de legendas incandescentes de “última hora”. Ora em reuniões com os responsáveis da segurança interna, com um digno contexto policial e militar. Ora em prudentes e pacatos avisos à população, com tom e tiques que evocam as conversas em família. Ora em sérias admoestações e ameaças aos possíveis prevaricadores, que fazem lembrar as prédicas do seu amigo Orbán. Ora em pose de supremo garante de toda a autoridade, no decretamento electrónico e solene de requisição civil. A toda a hora, a todo o minuto, a todo o instante, a palavra, o gesto, a supina imagem paternal e patronal de António Costa. Os meios de comunicação social, à míngua de assuntos e de incêndios, reproduzem a cada meia hora as palavras do magno conservador da ordem social e da tranquilidade pública. Transmitem, com o grau de alarme adequado, a mensagem ordeira do grande velador.

3. Na resposta política à greve dos camionistas, como na resposta política à crise dos professores, Costa não resistiu ao ar do tempo e enveredou pelo mais puro populismo. O populismo é seguramente o mais preocupante desenvolvimento da vida política nas democracias actuais. Tem tido, todavia, assinalável sucesso, ante a gravíssima crise da democracia representativa. Costa, hábil e inteligente, oportuno e oportunista, sabe disso. Há derivas populistas que não servem para aqui, por nada terem que ver com a realidade que precisamente aqui se denuncia: a Itália de Salvini – em que este acaba de chegar ao perigosíssimo extremo de pedir “plenos poderes” – ou a Hungria de Orbán – em que há uma sistemática debilitação das instituições independentes e de controlo.

Mas há exemplos que colhem, em que Costa se inspira ou dos quais comunga. O caso de Boris Johnson é um bom exemplo. A simplificação da mensagem que leva à diabolização dos adversários, que tanto podem ser os “europeus” como o “establishment” político. A concentração metódica na imagem do líder. A promessa de resultados que são inatingíveis ou que já estão atingidos (porque os perigos agitados simplesmente não existem). Para Costa, os adversários são os “camionistas”, os “professores” ou os “enfermeiros”, classes profissionais maquiavelicamente empenhadas em prejudicar o interesse geral. O tal que “nunca vai de férias”. Mas a diabolização é mais eficaz, se tiver um rosto e, por isso, a acção maligna das classes profissionais está sempre personificada num vilão (um “Pardal Henriques”, um “Mário Nogueira” ou uma “malfadada bastonária”), que serve de antagonista de Costa e que, por não ser político, simplesmente “despolitiza” a oposição. À simplificação da mensagem e ostracização dos “culpados” soma-se, à maneira de Boris, a omnipresença mediática com discursos, conferências de imprensa, declarações, visitas, gestos simbólicos, reuniões institucionais. Sozinho, Costa suga o pretexto, reinventa a crise, gere a crise reinventada e devora a crise que ele próprio se empenhou em amplificar.

4. Quando muitos afirmam que felizmente o populismo não atingiu ainda Portugal, ele entra, com furor e honras de Estado, pela porta escancarada do Governo. Ele aí está em todo o seu esplendor, pela mão, pela boca e pela pose do chefe do executivo. São muitos os anestesiados, são muitos os desencantados, são muitos os acomodados, que não dão nem querem dar conta da deriva em curso. Mas quando um governo usa de toda a retórica e parafernália populista, deviam soar alertas e alarmes. Esta manipulação política e mediática, feita meticulosamente em véspera de eleições, é um sintoma e um factor de séria degradação da nossa condição democrática.

O populismo – ou, na classificação tradicional dos regimes políticos, a demagogia – não tem nada de visceralmente novo. Desde os alvores gregos da filosofia política que a demagogia está devidamente identificada: é a forma pervertida da democracia, é a forma maligna de a exercer. A quase totalidade dos autores clássicos – aí incluídos os mentores dos regimes moderados, com Aristóteles à cabeça – sempre desconfiou da democracia, por temer a derrapagem praticamente inevitável das democracias para o populismo. Mas eles pensavam apenas na democracia directa (do modelo ateniense), desconhecendo a nossa forma moderna de democracia representativa (com os seus mecanismos de controlo do poder). Sucede, no entanto, que a sociedade das redes sociais tem enormes similitudes com a sociedade que erigiu a democracia directa. A sociedade das redes sociais é presa fácil do populismo. Eis os Boris, eis os Costas.

SIM e NÃO

NÃO. Matteo Salvini. O apelo a que os italianos lhe dêem plenos poderes é um dos mais preocupantes desenvolvimentos da política italiana e europeia. Deve mesmo ser tomado “à letra”.

NÃO. Donald Trump. A política de separação de famílias no quadro migratório é deplorável; a insistência na defesa do acesso livre a armas por parte dos cidadãos não pára de fazer vítimas.