Reportagem

No Neopop, dançou-se o glamour da sarjeta com os Underworld

Os britânicos regressaram a Portugal no arranque do festival que até sábado leva a Viana do Castelo cerca de meia centena de nomes da música electrónica.

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Em 1996, quando Danny Boyle filmou o último take de Trainspotting, talvez não soubesse que, ao passar para a grande tela a novela escrita por Irvine Welsh, estaria a fechar um dos filmes-referência para duas gerações, a que nasceu no início dos anos 1980 e a que já vinha da década anterior. O filme acompanha um grupo de amigos de Edimburgo viciados em heroína com um afecto que torna impossível a quem assiste não criar laços com as personagens. É possível que quem o vê se sinta tentado a fazer parte daquele universo: há uma espécie de glamour da sarjeta quase romântico naquela trama que só por sorte tem outro destino que não o abismo.

É no final do filme, quando Mark Renton, a personagem interpretada por um jovem Ewan McGregor, decide trair os amigos e saltar daquela realidade para um caminho cheio das coisas chatas que a vida tem, que se dá uma espécie de catarse. Enquanto Rent Boy, nome de guerra do protagonista, se vai desligando do que o prende, ouve-se uma música de fundo que vai crescendo em volume até explodir. Essa música é Born slippy .NUXX, tema que pinta na perfeição a banda sonora da década de 1990, altura em que os britânicos Underworld levaram a sua electrónica para o lado mais duro do tecno. Foi com ele que, na madrugada desta quinta-feira, encerraram a sua actuação de quase uma hora e meia no Neopop, o festival que até sábado decorre no Castelo de Santiago da Barra, em Viana do Castelo – uma actuação com ​história suficiente para que o concerto não seja recordado apenas por causa “daquela” música. Mas já lá vamos. Antes disso, nos dois palcos do festival, já Rui Trintaeum, Rui Vargas, Nuno Carneiro ou Cardia tinham feito dançar, em noite que acabou com os sets DJ de John Digweed, Frank Maurel, Freshkitos e o concerto de 2Jack4U.

O público que ali apareceu em número suficiente para ocupar as pistas frente aos dois palcos podia ter dançado à chuva se a organização não tivesse seguido as indicações das previsões meteorológicas e não tivesse antecipado o problema. A precipitação intensa que se fez sentir durante todo o dia e toda a noite não molhou ninguém graças a duas coberturas montadas no recinto. Na circulação entre os dois palcos, as capas entregues à entrada serviram para atenuar os danos. Indiferente ao mau tempo, a polícia ia revistando minuciosamente quem entrava para o castelo. Foram muitos os que não conseguiram entrar com tudo o que traziam, mas, tendo em conta o ambiente animado dentro do castelo, terão sido igualmente muitos os que não tiveram problemas em passar com a bagagem intacta: é difícil encontrar outro sítio onde usar óculos escuros durante a noite pareça tão apropriado como no Neopop.

Máquinas e homens

Quem até lá se deslocou, vindo de vários pontos do país, e até do estrangeiro (sobretudo de Espanha e do Reino Unido), fê-lo sobretudo para dançar. E dançou-se muito, ao ritmo de sons assentes na habitual batida de bombos e pratos de choques enlatados em máquinas manejadas por DJ, que se distinguem mais pelos ambientes que juntam à base do que propriamente pela batida repetitiva e quase estanque associada ao tecno, género fundamentalmente criado para proporcionar momentos de lazer.

Não é fácil aguentar uma fórmula que invariavelmente justapõe camadas de bombo e de choques, de bombo e de choques, de bombo e de choques, volta e meia com um twist feito de sons lancinantes quase a servir de incentivo para mais uma dose de ritmo. Será mais fácil, para quem mistura os sons, se estiver a entregar essa fórmula a um público habituado e disponível; quem ali aterrasse vindo de outro planeta musical talvez confundisse o alinhamento do Neopop com o interminável after-hours de um festival que já tivesse encerrado os seus palcos principais.

A quebrar essa fórmula estiveram os Underworld, duo formado em 1980, e nalguns momentos coadjuvado ao vivo por um terceiro elemento. A diferença reside sobretudo na forma como se soltam da base rítmica para privilegiar os ambientes. A voz de Karl Hyde também é fulcral para reforçar essa sensação de que não se está apenas a receber música saída de uma máquina. É também com máquinas que compõem, mas seguindo os critérios usados na composição feita com recurso a instrumentos clássicos. Em cima do palco são efectivamente uma banda. Coesos, umas vezes mais agressivos, outras mais contemplativos ou até mais progressivos, acumulam a experiência de quem está na génese deste estilo feito inicialmente para ser ouvido em clubes, mas que há vários anos chegou aos recintos open-air.

Não há pedaço do palco que Karl Hyde não conheça. Passeia-se nele numa espécie de híbrido entre o rock star e o animador de discoteca. Rick Smith, nas máquinas, por vezes ganha asas, como aconteceu no delírio instrumental que antecedeu Cowgirl, esticando a maquinaria até ao limite. Revisitaram Listen to their no, Two months off, King of snake ou Border country ​antes de encerrarem com o tema celebrizado pelo filme de Danny Boyle. De repente, viajávamos outra vez para 1996 –​ desta vez sem sentir o apelo do abismo.