Opinião

Como morrem as democracias

Convidá-lo para nossa casa seria um erro não só estratégico, como perigoso, porque pode aumentar o seu capital político. Portugal não deve servir como uma espécie de validação de Bolsonaro junto do Ocidente e da UE.

 No âmbito de uma cimeira entre Portugal e o Brasil a realizar-se durante o próximo ano, o Bloco de Esquerda manifestou-se apressadamente contra uma eventual visita ao nosso país do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. Uma cimeira sem data definida com a vinda a ser desmentida, para já, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros Português.

Faz sentido que assim seja e parece-me que esta visita será evitada durante os próximos anos, mas por razões diferentes daquelas que foram invocadas pelo Bloco. (Sobretudo porque existem outros líderes políticos de extrema esquerda ou direita que põem em causa o estado de direito e a dignidade da pessoa humana através das suas palavras. Seria um erro cortar-se uma ligação sempre que surgissem afirmações destas.) Do ponto de vista do interesse nacional e democrático português, a vinda de Bolsonaro não acrescenta nada. Aliás, provavelmente só traz problemas.

Internamente, nenhuma das grandes promessas parecem estar a ser cumpridas. Será o Brasil hoje um país mais seguro? E o combate à corrupção instalada? A realidade é que parece cada vez mais vincada e transversal ao novo executivo brasileiro.  

Para lá da questão nebulosa do atual ministro da justiça brasileiro, Sérgio Moro, junta-se a de o filho de Bolsonaro como senador no Rio de Janeiro, que se encontra a ser investigado por lavagem de dinheiro. O seu ministro do turismo a ser investigado pela utilização indevida de fundos no financiamento de campanhas, e outro dos filhos que foi recentemente nomeado como embaixador junto dos Estados Unidos, naquela que já é uma das práticas de nepotismo mais descaradas da política brasileira.

Em seis meses, Bolsonaro conseguiu quebrar todas as expetativas de grande parte do seu eleitorado, com uma taxa de aprovação a situar-se nos níveis mais baixos da história do país. Para os que relativizavam o discurso extremista em nome de um suposto combate à corrupção e segurança, o efeito só pode ser defraudante. A recessão económica está para além do que era expectável, mesmo a das piores previsões.

A outra parte do seu eleitorado, menos representativa, mas que comunga de alguns dos ideais do presidente brasileiro, pouco se importa se os resultados do governo são melhores ou piores. Além de quebrar a democracia, ficariam satisfeitos com a implosão do estado de direito no país. Bolsonaro também é caraterizado fora do Brasil pelo que representa esta parte do seu eleitorado, que se identifica com as suas tiradas mais xenófobas ou com o desprezo que sente pelo património maior que é a Amazónia, por exemplo. Uma caraterização que vai ao encontro da ignorância revelada em fóruns globais e que só diminui o seu peso político.

Obviamente que os laços históricos que unem o Brasil a Portugal e a relação privilegiada nas várias vertentes empresariais, económicas, culturais, e sociais entre os dois países, aconselham a que se desvalorize conjunturas políticas como esta. Foi quase sempre assim e faz sentido que o tenha sido. Mas entre isso e uma cimeira a recebê-lo em território nacional, existe um outro mar gigante.

Relativizar Bolsonaro é perigoso, mas reduz o seu capital político. Reforçar as relações entre Portugal e o Brasil evitando o presidente brasileiro é difícil, mas porventura revelador do cinismo muitas vezes necessário na política externa.

Convidá-lo para nossa casa seria um erro não só estratégico, como perigoso, porque pode aumentar o seu capital político. Além da questão representativa e o que isso geraria entre a comunidade brasileira, Portugal não deve servir como uma espécie de validação de Bolsonaro junto do Ocidente e da União Europeia.

Em especial, quando se vivem tempos de algum retrocesso civilizacional e em que as próprias democracias são postas em causa por líderes como o presidente brasileiro. Convidar e receber quem nada nos acrescenta representaria um tiro no pé do governo e é o oposto de qualquer realpolitik nacional a longo – prazo. Antes, um gesto que só serviria para explicar como podem começar a morrer as democracias.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico