LUSA/ANTÓNIO COTRIM
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LUSA/ANTÓNIO COTRIM

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O fim dos Berardos? Só se quisermos.

Não podemos considerar Berardo mais do que aquilo que é: um caloteiro é um caloteiro, independentemente do valor em causa.

Fomos todos surpreendidos com a notícia do arresto judicial da Colecção Berardo, visto que nos parecia tão inconcebível a sua dívida à Caixa Geral de Depósitos (CGD) como impossível a reacção por parte do seu credor, tendo em conta todas as informações tornadas públicas. Aconteceu. O banco do Estado lançou mão deste instituto para que não se esvaíssem todas as possibilidades de recuperar algum do dinheiro concedido a Berardo. Não foram meia dúzia de euros, mas milhões concedidos a Berardo numa bandeja de ouro entregue ao domicílio. Foi necessário que Berardo tivesse dado nas vistas na já icónica comissão de inquérito para que se mobilizassem meios e vontades no sentido de reaver aquilo que pertence a todos nós.

Não podemos considerar Berardo mais do que aquilo que é: um caloteiro é um caloteiro, independentemente do valor em causa. Aliás, devendo milhões de euros a vários bancos, Berardo é um dos grandes caloteiros deste país, que juntamente aos seus comparsas arruínam o equilíbrio financeiro e económico de vários bancos com a permissão destes. Não é feito ao acaso, nem fruto da incompetência de quem concede estes créditos avultados sem garantias, antes uma agenda clara de favorecimento e facilitação aos grandes senhores do dinheiro para que possam aforrar ainda mais.

Estamos perante uma acção que, para já, só acarretará despesa ao Estado, enquanto fiel depositário, na conservação da colecção. Mas já é alguma coisa. No entanto, nem só de Berardo se constituem as dívidas ao Estado e à CGD.

De acordo com a auditoria realizada à gestão da CGD entre 2000 e 2015, várias administrações aprovaram uma série de operações de risco elevado, que vieram a gerar perdas de quase 1.200 milhões de euros em apenas 42 financiamentos. O banco público foi alvo de um autêntico desfalque financeiro por quem lhe quer mal. Não nos enganemos, o banco do Estado é um empecilho para a banca privada e esta não descansa enquanto não se vir livre dele. Cabe à democracia portuguesa defender o banco público de todos os ataques que, a propósito do desplante de senhores como Berardo, são desferidos com o único interesse de descredibilizar esta instituição.

Berardo é só uma gota num oceano de dívidas contraídas por quem detém o capital. Parece um paradoxo não parece? Quem mais deve é quem mais tem e só assim o é porque o sistema assim o quer.

Se qualquer um de nós, portugueses comuns como tantos outros, ousássemos contrair um empréstimo de milhões ser-nos-ia negado pelas mais variadas razões, nomeadamente por não termos os rendimentos suficientes para face aos encargos do empréstimo. Ora, quanto mais dinheiro se tem, mais dinheiro se pode pedir emprestado. Estranho? Sim, mas é a lógica de um sistema construído meticulosamente para beneficiar os grandes e espezinhar os mais pequenos.

Esta batalha judicial contra Berardo serve para deixemos de nos sentir impotentes perante os grandes senhores do capital e grandes grupos económicos porque se há uma verdade na vida é a de que quem deve tem de pagar. Sem excepções.

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