Editorial

Ucrânia, comédia e tragédia

A Ucrânia é um laboratório onde tudo pode acontecer. Há uma linha ténue entre a comédia e a tragédia.

A crítica das elites e dos políticos e partidos tradicionais, confundidos com todos os males do sistema, é um tema popular e um meio eficaz de vencer eleições. É absolutamente extraordinário como um humorista venceu as presidenciais e as legislativas na Ucrânia por uma série de razões muito prosaicas: ser particularmente famoso, devido a uma série de televisão; ter feito do seu personagem o candidato presidencial; e ter conjugado na mesma frase classe política, corrupção e final da guerra com a Rússia. Não necessitou de ideias, programas, campanhas ou debates. A Volodimir Zelenskii bastou-lhe a pose, o vazio e as competências com que geriu as redes sociais e a sua carreira televisiva para convencer um eleitorado desgastado e descontente.

Desde a independência do país que nenhum partido obtinha a maioria absoluta — o feito do partido Servo do Povo é extraordinário, ainda para mais quando se trata da primeira eleição em que participa — e no novo Parlamento sentar-se-á o primeiro deputado negro a ser eleito — o boxista Zhan Beleniuk faz parte da bancada do Voz (Golos), liderado por um dos músicos mais conhecidos do país. Os dois partidos partilham a bandeira do combate à classe política e, embora o Servo do Povo tenha a maioria, é possível que cheguem a acordo.

O que pode ser encarado como uma renovação parlamentar — nenhum dos parlamentares daqueles dois partidos tem experiência política ­— ou como uma resposta de um eleitorado cansado da política e dos políticos, também pode ser visto como um grande perigo democrático, uma vez que o sistema se tornou, de facto, presidencial, e Zelenskii pode governar sozinho. A intenção de fazer parte da União Europeia e da Nato, num posicionamento pró-ocidental e reformista, como sublinhou Timothy Garton Ash, não chega para afastar os receios de uma deriva autoritária.

Sim, é verdade: a ficção tornou-se realidade. Zelenskii seguiu o guião à risca e passou em todos os castings. É verdade: a Ucrânia é um laboratório onde se confirma que para se vencer eleições o melhor é não ser político. Novas experiências terão lugar. E a Rússia pode sempre agitar um país sobre o qual é uma ameaça constante. Entre a revolução ucraniana de 2014 e a actual transformação não se pode dizer que as expectativas dos ucranianos tenham melhorado. A Ucrânia é um laboratório onde tudo pode acontecer. Há uma linha ténue entre a comédia e a tragédia.