Há um manifesto contra o rumo do urbanismo em Lisboa

Lisboa Precisa é um apelo assinado por arquitectos, engenheiros, professores, políticos e activistas que não concordam com as políticas urbanísticas de Manuel Salgado e querem devolver o debate à cidade. Segunda-feira há uma conferência de imprensa de apresentação do manifesto.

Projecto da Torre das Picoas é um dos criticados no manifesto
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Projecto da Torre das Picoas é um dos criticados no manifesto Miguel Manso

A apresentação do projecto “de uma torre gigantesca nos terrenos da antiga fábrica da Portugália, na Almirante Reis, completamente desenquadrada de toda a tipologia daquela avenida, uma das mais antigas de Lisboa, foi a gota de água” para que um grupo de personalidades — “desgostosas com o governo, supostamente de esquerda, que a cidade está a levar” — decidisse escrever um manifesto em que se coloca contra as políticas, sobretudo urbanísticas, do executivo liderado por Fernando Medina. Quem o diz é Fernando Nunes da Silva, professor universitário e antigo autarca na capital, que é um dos signatários do manifesto Lisboa Precisa. 

Nunes da Silva não lhe chama movimento; diz antes que é “uma iniciativa bastante inorgânica, que resultou de conversas entre pessoas que estão a ficar extremamente preocupadas com o rumo que o urbanismo está a levar na cidade de Lisboa, com situações que põem em causa as próprias normas do Plano Director Municipal”. Entre os projectos criticados pelo grupo, além do da Portugália, está o já construído “monstro” das Picoas ou “o disparatado licenciamento de imponentes edifícios de serviços na Praça de Espanha, que irão obstruir as vistas da Fundação Gulbenkian”. 

Entre os signatários do documento, que reúne cerca de 70 nomes, estão arquitectos, engenheiros, antigos autarcas, professores, activistas ou deputados como Pedro Soares ou Jorge Falcato, do Bloco de Esquerda. Mas também figuram nessa lista nomes como o do militar de Abril Otelo Saraiva de Carvalho ou da historiadora Raquel Varela. 

Para o antigo autarca de Lisboa, que é um dos mentores do projecto, este é um grupo de cidadãos “muito variado, que tem várias simpatias políticas”, que decidiram agir depois do que se passou com a Portugália. O objectivo, continua, é “pura e simplesmente” fazer “uma chamada de consciência” para as políticas, não só de urbanismo, mas também de promoção de habitação na cidade. “Exigimos por isso que o património imobiliário do município seja posto ao serviço da população e não seja mais uma acha para a fogueira da especulação imobiliária”, lê-se no documento. 

“A cidade está a transformar-se numa cidade apenas para ricos e turistas. A sua população está a ser expulsa a uma velocidade absolutamente incrível. A câmara acordou muitíssimo tarde para o problema, mas mesmo assim continua a permitir este tipo de empreendimentos altamente especulativos”, atira Nunes da Silva, notando ainda a falta de investimento em “habitação de rendas acessíveis”. 

Este manifesto quer também ser uma forma de “quebrar o silêncio ensurdecedor a que as pessoas que no passado tiveram posições mais críticas, e que se bateram por uma câmara mais democrática, se remeteram”, nota. 

Depois das eleições, diz Nunes da Silva, o grupo gostaria de “começar a lançar debates sobre grandes temas da cidade” — algo que diz ter desaparecido da cidade de Lisboa. As posições deste grupo serão apresentadas na próxima segunda-feira, às 12h, no Fórum Lisboa, sede da Assembleia Municipal.