Lisboa: quarteirão da Portugália terá prédio com 16 pisos para tratar “ferida urbana”

No Portugália Plaza vai ser erguido um prédio com 16 pisos. O antigo edifício da Fábrica da Cerveja e o famoso restaurante vão ser reabilitados. Câmara considera o projecto “uma mais valia urbana”, capaz de suprir “uma ferida urbana que tarda em ser sarada”. Projecto está em consulta pública.

Lisboa
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Fotomontagem do projecto da autoria do gabinete ARX Portugal

Foi um quarteirão sempre ligado à cerveja, pelo menos desde que em 1912, num grande terreno na Avenida Almirante Reis, hoje freguesia de Arroios, em Lisboa, foi construída uma fábrica para a sua produção. Desde então, foi sempre uma história com altos e baixos, até que a moderna fábrica e os terrenos à sua volta caíram no abandono. Nos próximos dois anos, prevê-se, porém, que ganhem nova vida com a construção de um loteamento no quarteirão. No Portugália Plaza — assim se chama este projecto — vão ser erguidos quatro prédios, sendo que um deles terá 16 pisos e 60,2 metros de altura, avançou o Diário de Notícias na sua edição de sábado. O que resultará numa torre com impacto visual considerável, se a observarmos, por exemplo, do miradouro da Penha de França ou do de Monte Agudo. 

Inserido na intersecção da Avenida Almirante Reis, Rua Marques da Silva, Rua António Pedro e Rua Pascoal de Melo, está projectado um megaempreendimento que será composto por cinco blocos. Além dos quatro prédios novos, o antigo edifício da Fábrica da Cerveja e o famoso restaurante vão ser reabilitados. “Apesar do generalizado mau estado de conservação da Fábrica”, a proposta “visa manter o máximo possível das pré-existências”, como os pilares metálicos e respectivos capitéis, as lajes abobadilhas, do que confronta com a Avenida Almirante Reis, lê-se na memória descritiva do projecto que consta no processo que está disponível para consulta pública. Os munícipes que queiram saber mais sobre o projecto e apresentar sugestões podem fazê-lo ​no centro de documentação no edifício da câmara no Campo Grande ou na Junta de Freguesia de Arroios. Uma vez que a volumetria do novo quarteirão ultrapassará o que é permitido pelo actual Plano Director Municipal de Lisboa, o projecto deve ser submetido a consulta pública. 

Este será um projecto sobretudo habitacional, estando prevista a construção de 85 apartamentos numa zona central da cidade com tipologias entre o T0 e o T4. Terá ainda 16 escritórios e espaços de co-work e uma zona comercial no piso térreo que rodeará as duas praças interiores que serão criadas e pelas quais será possível circular entre a Avenida Almirante Reis e a Rua António Pedro. Estão previstos ainda cinco pisos subterrâneos, sendo que serão também criados 65 lugares de estacionamento para habitação, 67 para uso comercial e 288 lugares de estacionamento público coberto. O projecto incluirá também uma parte reservado a residências, no entanto, não são avançados mais pormenores. 

A fábrica albergará também espaços de restauração do piso térreo, constituindo a nave-norte uma extensão do restaurante Portugália. Já os pisos superiores serão espaços de escritórios. Os prédios mais baixos, que deverão ter cinco andares, terão acabamentos em pedra lioz. No caso do prédio mais alto, este será em envidraçado. 

Segundo é referido na memória descritiva que consta no processo, está ainda prevista a cedência de um equipamento com 1400 metros quadrados: será um “espaço multiusos, de âmbito cultural”, localizado na parcela do quarteirão que está actualmente ocupada pelo edifício Plasana, que será intervencionado numa fase posterior do projecto (e para o qual já existe um PIP aprovado). 

Apesar de o lote ser totalmente impermeabilizado, o Departamento de Licenciamento considerou esta nova proposta — houve já um projecto para o local que acabou rejeitado pela autarquia — “mais urbana, mais vivenciada e de maior e melhor usufruto público do espaço”. A intervenção dos espaços públicos passará pela integração de estruturas horizontais e verticais de água e vegetação, como trepadeiras. Um ponto curioso sobre o projecto está na manutenção e integração de cabos suspensos, lembrando os antigos eléctricos que por ali passavam, e que servirão de apoio à iluminação e ao crescimento da vegetação.

"Ferida urbana"
As obras custarão perto de 40 milhões de euros e têm duração prevista de dois anos. Por isso, no final do primeiro trimestre de 2022 deverão estar concluídas. O promotor é o Fundo Sete Colinas, gerido e representado por Silvip – Sociedade Gestora de Fundos de Investimento Imobiliário. O projecto de arquitectura é da autoria do gabinete ARX Portugal, dos arquitectos Nuno Mateus e José Mateus, que ganharam um concurso de ideias lançado em 2016 pela Essentia Portugal, que coordena a obra, depois de a primeira proposta ter sido então rejeitada pelo município. 

É por isso que os serviços de camarários que apreciaram o projecto entendem que o presente projecto é “uma mais-valia urbana, face ao anterior licenciado, reduzindo a área edificável, desmaterializando e desconstruindo a imagem adensada de quarteirão”. E que este possibilita a “supressão de uma ferida urbana que tarda em ser sarada e que se arrisca em eternizar”. 

De acordo com a agência Lusa, a câmara de Lisboa vai apresentar publicamente o projecto, depois de os vereadores do PSD terem “exigido” que a autarquia agendasse, “para breve”, duas apresentações públicas. Segundo o comunicado dos sociais-democratas citado pela Lusa, o período de consulta pública, que deveria terminar a 13 de Maio, será prorrogado.

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