Opinião

Dormir em casa de um amigo

É um acontecimento que promove as relações entre as crianças amigas, reforçando interações positivas, como o companheirismo, a partilha, a negociação e a cooperação, e servindo também de cenário para situações que impliquem a resolução de conflitos.

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Victoria Rodriguez/Unsplash

O João tem 12 anos e nunca dormiu em casa de um amigo porque faz chichi na cama, a Francisca tem sete anos e nunca dormiu em casa de um amigo porque tem pesadelos, o Manuel tem 8 anos e nunca dormiu em casa de um amigo porque tem medo do escuro, a Maria tem 15 anos e nunca dormiu em casa de um amigo porque não consegue dormir sem a presença dos pais.

Raramente uma criança vai a uma consulta de psicologia exclusivamente porque não consegue dormir em casa dos amigos. Mas estes são exemplos de crianças que recebemos com alterações no sono que, percebemos no contacto com os pais, são impeditivas deste tipo de vivências.

Dormir fora de casa é um acontecimento natural e saudável, promotor de inúmeras competências muito importantes no processo de crescer!

As crianças precisam de ter momentos de independência e separação da sua mãe e do seu pai, estando em contacto com outras pessoas que também são importantes no seu crescimento. Por norma, os pais começam a deixar os filhos a dormir em casa dos familiares mais próximos, os avós ou os tios e, mais tarde, os seus amigos. Quando esta independência é difícil para os pais, dormir fora de casa pode ser visto como um desafio gigante. Os pais têm dificuldade em estar longe dos seus filhos e filhas, de se separarem deles e de confiarem que existem outras pessoas que também os podem tratar bem.

Para as crianças dormir em casa dos amigos é sentido como uma verdadeira aventura e um momento de prazer e de convívio, em que as brincadeiras vão ser rainhas e a imaginação e criatividade vão estar em pleno. É um acontecimento que promove as relações entre as crianças amigas, reforçando interações positivas, como o companheirismo, a partilha, a negociação e a cooperação, e servindo também de cenário para situações que impliquem a resolução de conflitos.

De forma complementar, serve para contactar com realidades distintas e conhecer outras dinâmicas e perspectivas. As crianças começam a perceber que todas as famílias são diferentes, que os hábitos da sua família não são os mesmos que os das outras e que as pessoas se relacionam de múltiplas maneiras. É natural que, ao início, a criança possa estranhar essa diversidade mas é muito importante que saiba adaptar-se e ser flexível ao que é diferente e não conhecido.

A primeira vez que se dorme em casa de um amigo é um acontecimento marcante e, como todos, deve ser preparado em família. É importante que os pais expliquem à criança o que vai acontecer e a ajudem a antecipar desafios, envolvendo a criança nos preparativos desta aventura: arrumar a mochila com a roupa para levar, fazer a bolsa de higiene, e, por precaução, eleger um objeto especial para a criança levar para casa do amigo/a que, dependendo da idade, pode ser um boneco, uma mantinha, uma almofada, uma fotografia, etc. – algo que transmita segurança emocional em caso de maior aflição. Antecipar as emoções é um ponto importante: explicar que, já na cama, pode ser que se sinta um pouco triste, com vontade de chorar, com saudades da mãe ou com um pouquinho de medo e, para isso, deve olhar para o objeto especial, lembrar-se da sua casa e dos pais e ficar descansada. Também se deve tranquilizar a criança, explicar quando vai chegar a casa do amigo/a e até quando vai lá ficar, reforçando que os pais estão preparados para a ir buscar caso não se sinta bem!

É também importante informar os adultos que vão ficar responsáveis pelo seu filho ou pela sua filha caso existam particularidades relevantes: precisar da luz de presença para dormir, estar habituado a ter a porta aberta, usar fralda, levantar-se a meio da noite para ir à casa de banho, ter pesadelos.

Após a “aventura”, os pais devem perguntar à criança como foi a experiência, saber o que mais gostou e o que achou mais desafiante, se existiu algum medo ou algo que não tenha apreciado, se gostava de voltar a casa desse amigo.

Independência dos pais, socialização com pares e conhecimento de autoridade por parte de outras figuras. Quando uma criança vai dormir a casa de um amigo ou de uma amiga está a conseguir adaptar-se a uma realidade que não é a do seu dia-a-dia e está a aprender a gerir os seus próprios sentimentos. É uma oportunidade de desenvolvimento fundamental com um grande ganho de competências emocionais!

Inês Pessoa e Costa, Psicóloga Clínica no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas