Crónica

O mundo é um lugar estranho

O mundo sempre foi cheio de contradições e a História mostra-nos que teve momentos bem mais estranhos do que aquele que agora vivemos.

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Reuters/Jeenah Moon

Tive um professor de Argumento na faculdade que nos revelou, numa aula, que muitas das histórias que compunha partiam de notícias recolhidas em jornais. Eram sobretudo crimes que pareciam ser já ficção antes de serem transformados num produto televisivo ou cinematográfico. Enquanto ele dava alguns exemplos, nós mergulhávamos naquele universo de que nem sempre temos consciência mas que nos rodeia todos os dias, o universo em que a realidade ultrapassa a ficção.

O mundo tem-nos dado muito disso. Às vezes tanto que nos deixa verdadeiramente cansados. A mim deixa, pelo menos.

Nos últimos dias, senti-me particularmente exausta ao ler as notícias sobre Marshae Jones. Não sei se ela é boa pessoa, se é conflituosa ou até se tem cadastro. Sei que tem 28 anos, uma filha de seis e que estava grávida de cinco meses quando se envolveu numa discussão com outra mulher, à porta de uma loja, no Alabama, Estados Unidos da América.

A discussão acabou com Marshae Jones a levar um tiro na barriga. Ela sobreviveu, mas o feto não. O que é que aconteceu a seguir? Um júri que, de acordo com a lei norte-americana, estabelece se há ou não matéria para um caso seguir para tribunal, decidiu indiciar Marshae Jones por homicídio, com base no argumento de que fora ela a iniciar a discussão e, por isso, era responsável pelo que aconteceu a seguir. A mulher que disparou não foi acusada de qualquer crime, por se entender que estava apenas a defender-se. Ah, brincadeira. Isso não aconteceu, pois não? Aconteceu.

Depois disto e das críticas que se seguiram, a procuradora responsável pelo caso anunciou que não tinha ainda decidido se iria efectivamente avançar com a acusação de homicídio, mas afirmou, num primeiro momento, que pretendia cumprir a decisão do júri e levar a mulher a tribunal. Os advogados de Marshae Jones apresentaram uma moção para que todas as acusações fossem retiradas e esperava-se que na próxima terça-feira um juiz decidisse, finalmente, o destino da mulher. Mas, afinal, não vai ser preciso. Na quarta-feira, a procuradora anunciou que, afinal, nenhuma acusação será apresentada contra Marshae Jones e que o caso chegou ao fim. Ainda bem, mas que o bom senso tenha demorado tanto a impor-se é confrangedor.

Pois, mas isso é lá nos Estados Unidos, onde acontecem coisas sem sentido e, ainda mais, no Alabama, que ainda em Maio aprovou uma restritiva lei antiaborto, que proíbe a interrupção da gravidez mesmo em casos de violação ou incesto. Por cá não acontecem coisas dessas.

Não vou falar do juiz Neto de Moura. Acho que já estamos todos muito cansados do juiz Neto de Moura. Mas vou falar-vos daquela mãe que, aparentemente, envenenou o filho, na expectativa de que o sofrimento do menino comovesse o homem com quem a mulher mantivera até recentemente uma relação, a ponto de ele ter pena dela e reatar o namoro.

Esta poderá não ser a história toda, eu sei. São casos muito diferentes, eu sei. No segundo caso, o que aconteceu cá, podemos estar a falar de alguém que sofre de um distúrbio mental; no primeiro, de homens e mulheres que, em nome de uma lei feita por outros homens e mulheres, tomam uma decisão. Que não vejam como esta decisão é absurda ultrapassa-me.

Mas ambas as histórias têm a capacidade de nos deixar (de me deixar) extenuados. Como se o mundo se tivesse tornado um local demasiado estranho.

É um disparate, claro. O mundo sempre foi cheio de contradições e a História mostra-nos que teve momentos bem mais estranhos do que aquele que agora vivemos. Sempre houve casos incompreensíveis para a maior parte de nós, crimes e decisões judiciais que desafiam a nossa capacidade de continuar a acreditar na bondade e no bom senso. E, depois, esses casos resolvem-se, melhor ou pior, e desvanecem-se, até serem substituídos por outros. E, incompreensivelmente, apesar de recuos pontuais, o mundo evolui um bocadinho mais. Respira-se fundo, luta-se quando é caso disso (e é quase sempre) e mantém-se a esperança de que algum tipo de justiça seja reposta. E assim damos mais uns passos em frente. Mas é cansativo. Às vezes é mesmo muito cansativo.