“O Bolsonaro não veio de Marte e o bolsonarismo tão pouco”

O músico Caetano Veloso e o ex-deputado federal Jean Wyllys, que vive auto-exilado na Alemanha, debateram na Casa Comunitária da Mídia Ninja de Lisboa a situação política brasileira.

Jean Wyllys e Caetano Veloso cumprimentando os muitos fãs
Foto
Jean Wyllys e Caetano Veloso cumprimentando os muitos fãs Mídia Ninja

Dizem que o Governo do Presidente Jair Bolsonaro é uma ameaça à democracia brasileira. Um auto-exilou-se, o outro recusa a abandonar o país e não teme pela vida. O antigo deputado federal Jean Wyllys e o músico Caetano Veloso dizem que amam o Brasil e o povo brasileiro, mas rejeitam o nacionalismo de direita que tomou as ruas do país. Lado a lado, e com a Casa Comunitária da Mídia Ninja de Lisboa lotada, debateram este sábado a situação política e as razões da chegada de Bolsonaro ao Palácio do Planalto.

“Não quero viver fora do Brasil não. Nasci no Brasil, cresci brasileiro”, disse Caetano, relembrando uma memória da sua infância, quando, a 2 de Julho, feriado da independência do Brasil na Baía, recortava correntes de papel amarelo e verde para enfeitar a sua casa. “Hoje, ver essas passeatas da direita de verde e amarelo causa um problema no meu cérebro”, explicou.

Caetano exilou-se durante a ditadura militar e recusa voltar a fazê-lo agora com por considerar “ter a obrigação de dobrar as fichas, apostar” num futuro melhor. Ama várias cidades e lugares do mundo, entre as quais Lisboa, como não deixou de frisar, mas não se consegue imaginar a viver novamente no exílio. Os tempos da ditadura brasileira já lá vão e a situação actual, diz, é diferente da que havia em 1964, quando os militares tomaram o poder. “Os militares têm representando a ala sensata do Governo de Bolsonaro e há muita tensão entre o grupo militar e o não militar”, afirmou.

Auto-exilado por temer pela vida, Wyllys não deixa de exibir a tristeza por entre sorrisos. “Não posso voltar neste momento e, de facto, isso me dá uma tristeza. Gosto da minha família, dos meus amigos e gosto da minha terra”, disse o ex-deputado hoje residente na Alemanha. E ressalva que o exílio que vive é diferente do que Caetano viveu: existe uma retirada física do espaço, mas com as redes sociais consegue ter uma presença “habitual no debate público” como defensor da democracia. “Vejo a minha mãe pelo vídeo, mas tenho vontade de abraçar ela”.

Mesmo no exílio, o ex-deputado do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) não deixa de se sentir brasileiro e faz questão de o sublinhar, mostrando que as ligações à terra onde nasceu e cresceu continuam tão fortes como antes, se não mais. E diz ainda que brasileiro também é qualquer pessoa que decida viver no Brasil e fale a língua. “É brasileiro quem escolheu viver no Brasil”, referiu o ex-deputado que se afirmou apologista do “apagar das fronteiras nacionais”.

“A identidade é uma ficção que nós temos, mas vemo-la como verdade profunda”, explicou, sublinhando “não gostar de patriotada, essa perspectiva da pátria que a direita tem”. No entanto, a esperança de um dia voltar, diz, essa continua bem presente em si.

PÚBLICO -
Foto

Ainda que tenha sido o caso mais mediático, o antigo deputado não foi o único a abandonar o cargo para o qual tinha sido eleito, mostrando que ser de esquerda no Brasil é uma opção perigosa. “Outros deputados se encontram ameaçados e outras pessoas saíram por estarem ameaçadas, como Débora Dinis, Márcia Tiburi”, denunciou, referindo que no seu caso “nunca foi feita uma investigação” a quem o ameaçou.

Sobre a eleição de Bolsonaro para Presidente, tanto Caetano como Wyllys não duvidam de que se trata do surgimento de uma outra face do Brasil, uma mais profunda e que sempre lá esteve, ainda que por várias décadas escondida. “O Bolsonaro não veio de Marte e o bolsonarismo tão pouco. As forças da nossa mente colectiva que proporcionaram, produziram e admitiram o crescimento do bolsonarismo são nossas, são expressões do Brasil e representam, em muitos aspectos profundos, a nossa história”, continuou o músico.

Aceitando a premissa, Wyllys aprofundou um pouco mais: “O Brasil é um país construído sobre bases judaico-cristãs e todos os seus valores, sobretudo em relação ao patriarcado, à posição e subalternização da mulher, em relação à intolerância às religiões minoritárias” vêm dessa base. “O Brasil viveu 350 anos de escravidão, não é pouca coisa. E todos os males, sobretudo os racismos estrutural e social engendrados pela escravidão nunca foram encarados”. E, garante, há um “genocídio da população jovem negra” no país.

“O que aconteceu no Brasil não foi um surto. A era Lula interpelou o que há de melhor em nós e ao fazê-lo colocou em evidência essa nossa faceta e recalcou tudo aquilo que é aspecto negativo da nossa identidade nacional”, disse o antigo deputado, explicando: “Uma vez em condições de crise económica, tudo o que foi recalcado foi retornando aos poucos e a direita e extrema-direita foram muito hábeis ao fazer isso”.

A luta contra a corrupção também foi apropriada pelas forças conservadoras para ganharem terreno e fragilizarem a imagem e apoio do PT junto da população. Para Caetano, a corrupção deve ser combatida, mas a forma como o foi no Brasil nos últimos anos foi “destrutiva”. Já Wyllys não tem pudor em dizer que “Lula foi vítima de uma conspiração” e que as mensagens de Sérgio Moro, revelados pelo The Intercept Brasil, mostram isso mesmo.

PÚBLICO -
Foto

Na disputa política, continuou o ex-deputado, a direita brasileira contou também com um novo modelo: o da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, aprendendo como “interpelar os preconceitos arreigados nas identidades individuais e nacional”. Nisso, as fake news foram um instrumento fundamental, espalhando a desinformação e acordando velhos fantasmas, diluindo “a fronteira entre a verdade e a mentira”.