Sem dizer adeus aos carros, a Praça da Alegria será mais pedonal

Projecto da câmara de Lisboa foi apresentado a uma pequena plateia de moradores e comerciantes. Autarquia admite que, inicialmente, a ambição de condicionar o trânsito era maior. Passeios serão sobretudo em calçada portuguesa.

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Fotomontagem do projecto, apresentada na quarta-feira DR

Estreitar a faixa de rodagem, alargar os passeios, reduzir o número de lugares de estacionamento e plantar mais árvores no jardim são os ingredientes com que se coze o projecto da câmara de Lisboa para a Praça da Alegria, apresentado publicamente na quarta-feira.

A receita é semelhante à que se tem aplicado em quase todas as obras do programa Uma Praça em Cada Bairro, em que esta intervenção também se insere. “Esta proposta não quer abolir o automóvel, quer encontrar um equilíbrio justo entre o automóvel e o peão”, disse Alexandre Dias, do atelier de arquitectura Orange, a quem a autarquia encomendou o projecto.

O arquitecto explicou que um dos seus objectivos foi não introduzir demasiadas mudanças neste espaço público, uma jóia no coração de Lisboa, cujos contornos estão definidos e mais ou menos estabilizados desde o século XVIII. “Talvez a melhor palavra que se encontre para este pedaço de cidade seja ‘resiliência’”, disse Alexandre Dias. Enquanto Lisboa mudava à sua volta, acrescentou o projectista, “este pequeno quadradinho ficou” relativamente intacto.

Estão previstas, ainda assim, algumas mudanças. Com a eliminação de 28 lugares de estacionamento automóvel (passam de 98 para 70) e a criação de lugares paralelos (ao invés dos actuais, em espinha), os passeios serão alargados em todo o troço desde o antigo Maxime até à esquina da Rua da Alegria com a Rua da Mãe d’Água. Os lugares para carros que existem em redor do jardim vão manter-se, mas também aí o passeio será alargado, o que fará desaparecer o estacionamento do outro lado da rua e provocará o estreitamento da via.

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Outra fotomontagem do projecto, onde se vê a redução dos lugares de estacionamento e o aumento dos passeios DR

São medidas destinadas a “controlar a velocidade” dos carros, organizar o estacionamento e “dignificar o belíssimo muro” do jardim, afirmou Alexandre Dias. Está ainda prevista a elevação de passadeiras, a criação de dois locais para parqueamento de bicicletas, a transformação da Travessa do Salitre numa “zona de coexistência” entre carros e peões e a instalação de um ecoponto enterrado.

Há ainda duas pequenas pracetas, mais encostadas à Avenida da Liberdade, que também vão ser pedonalizadas, embora a existência de garagens impeça a proibição total de carros nesses locais. Todos os novos passeios serão construídos em calçada portuguesa, à excepção de um, no topo norte do jardim, que terá um material betuminoso (a câmara chama-lhe “piso confortável”).

Também para o jardim se prevêem trabalhos. Vítor Esteves, do mesmo atelier de arquitectura, explicou que as árvores históricas, classificadas, serão “reabilitadas com acções pontuais” e que vão ser plantadas novas espécies, como lódãos. Para os canteiros está idealizada “uma flora luxuriante” e a eliminação de barreiras “como os gradeamentos, para que as pessoas sejam convidadas a usar o espaço”, disse o arquitecto.

Projecto menos ambicioso

Perante uma plateia a rondar as 30 pessoas (incluindo técnicos da câmara), o arquitecto Pedro Diniz, que coordena o Uma Praça em Cada Bairro, admitiu que o plano inicial da autarquia era mais ambicioso do que o agora previsto. “Estava no projecto preliminar retirar o trânsito do topo norte da praça. Era esse o nosso desejo, ligar o jardim ao edificado”, disse, reconhecendo que tal não foi possível porque não se encontrou alternativa viável para quem usa a praça para fazer inversão de marcha e regressar à Av. da Liberdade.

Essa foi uma das críticas que fez Miguel Gonçalves Mendes, o primeiro cidadão a intervir. “Entristece-me que o projecto seja isto, porque isto não é nada. É um projecto bastante pífio, de cosmética”, disse, advogando que o trânsito devia ser mais limitado e o estacionamento mais cortado. O munícipe criticou ainda a falta de “um planeamento alargado” para toda a colina entre a Praça da Alegria e o Príncipe Real.

“Aquilo a que o senhor chama pífio é fruto de um enorme trabalho”, respondeu Pedro Diniz. “Se há algo de que não pode acusar-nos é de fazermos intervenções casuísticas”, disse ainda, revelando que está em curso “um trabalho de planeamento muito mais abrangente”, para várias zonas da cidade, que envolve o condicionamento do trânsito.

Outra munícipe, Rita Silva Pereira, elogiou o projecto mas mostrou-se preocupada com a perda de estacionamento pois, afirmou, “é muito difícil, no final do dia, chegar a casa e ter lugar para estacionar”. Já Inês Cunha, do Hot Clube de Portugal, também favorável à intervenção, pediu à câmara que reabilite os prédios municipais devolutos existentes na praça. “A praça vai ficar linda, tenho a certeza, e depois vai haver dois ou três edifícios em mau estado”, alertou.

Em sentido oposto interveio a munícipe Sofia Vala Rocha. “Acabam com o estacionamento, estreitam vias. Percebe-se perfeitamente que o plano é acabar com os carros. Tornam tudo infrequentável e no fim somos nós que vamos pagar isto tudo”, criticou.

“O espaço, como todos sabem, não estica”, disse Pedro Diniz no fim. Segundo o responsável, 66% da área da Praça da Alegria e ruas adjacentes “é dominada pelo automóvel” e a proposta visa diminuir essa percentagem para 49%. “Este projecto”, afirmou Pedro Diniz várias vezes, “não está fechado. Estamos abertos a novas sugestões.”

Ainda não há previsão de quando arrancam as obras.