Ministro de Lula diz que risco de Angola foi reduzido para dar mais dinheiro ao PT

O BNDES concedeu assim mais créditos para o Governo angolano contratar mais obras à Odebrecht, beneficiando o partido do então Presidente brasileiro em 60 milhões de reais.

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Antônio Palocci com Lula da Silva, quando o primeiro era ministro da Fazenda do governo do segundo Jamil Bitta/REUTERS

O ex-ministro brasileiro da Fazenda Antônio Palocci, condenado em 2017 a 12 anos de prisão no âmbito da Operação Lava Jato, denunciou que o risco de crédito a Angola foi subavaliado por “decisão política” da Presidência da República, quando Luiz Inácio Lula da Silva estava no poder, para permitir ao BNDES, o banco de fomento brasileiro, emprestar mais dinheiro ao Governo angolano para contratar obras à construtora Odebrecht, que assim canalizava mais dinheiro para o Partido dos Trabalhadores (PT).

De acordo com o testemunho no Congresso, a manobra política teria permitido ao BNDES subir a verba emprestada a Angola para financiar obras da Odebrecht de 600 milhões de reais (138 milhões de euros, ao câmbio de hoje) para mil milhões de reais (230,2 milhões de euros). Com isso, o PT teria recebido mais 60 milhões de reais (13,8 milhões de euros) da construtora brasileira.

Palocci falou pela primeira vez na comissão parlamentar de inquérito criada pelo Congresso para investigar um alegado esquema de corrupção que usava o banco público durante os governos do PT.

A sessão decorreu à porta-fechada e sem a presença da imprensa, no entanto, o Estado de São Paulo conseguiu saber por dois deputados presentes o que se passou nas cinco horas de audição de Palocci, que também foi ministro da Casa Civil de Dilma Rousseff, ainda que por um curto período, em 2011.

Todas as afirmações do político, que esteve na fundação do PT mas se desvinculou do partido em 2017, se concentraram nos empréstimos do BNDES a Angola, tal como acordado com os membros da comissão, porque o ex-ministro está a negociar com a Procuradoria-Geral da República um acordo de colaboração com a justiça.

O BNDES sempre negou qualquer erro de procedimento na atribuição dos créditos, afirmando que as decisões estavam adequadas à política do governo para incentivar a internacionalização das empresas brasileiras.

Em três meses de funcionamento, a comissão parlamentar que investiga os empréstimos ao estrangeiro do BNDES já reuniu informação para perceber que houve falhas no financiamento de obras em Angola, Cuba e Venezuela. Esta terça-feira, o presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia, decidiu prolongar por mais 60 dias o trabalho da comissão, para lá da data inicial prevista para a sua conclusão, que era 7 de Agosto.