Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

Megafone

“Viva o António” — e Variações vive

Antes de o cantarmos em uníssono, Variações morreu. Morreu uma morte agonizante e indigna. Mas Variações vive. Ele é musicalidade e essência queer, estranheza e glamour, kitsch e sapiência.

“António Variações… quem diria?” Na profusão de aplausos, Paulo Bragança descobria um semblante incrédulo. Em dia de orgulho queer e retirada de santos, uma colorida Lisboa rumou aos jardins da Torre de Belém para prestar tributo ao minhoto de Nova Iorque. Trinta e cinco anos depois do seu desaparecimento, aconteceu.

Com Ana Bacalhau, Conan Osiris, Lena d’Água, Manuela Azevedo e Selma Uamusse, António & Variações desenhou-se espectáculo e revivescência. Entre novos e velhos, as massas pareciam perfazer os milhares que, em tempo real da vida de Variações, se eludiram à sua arte; vinham hoje por António, mas não para testar o seu poder de letrista e músico. Sabemo-lo: o seu repertório nunca morreu. Permanece vivo no imaginário de um Portugal muito maior do que foi, um que pensaria e aceitaria a sua identidade e estética: o rock perenemente fresco de Anjo da Guarda ainda respira; a pop grandiloquente de Dar & Receber e temas avulsos seguem a sua marcha.

O director Luís Varatojo, os intérpretes, o arrepiante Gospel Collective e a Orquestra Metropolitana de Lisboa — que com trompas, violoncelos, tubas e os demais fazem germinar um bucolismo mágico, assoberbante — reimaginam um espólio com sonância de ouro. Mas não o recuperam de um passado arcano, não o resgatam: vivem-no.

Quando Lena d’Água entoa o pujante ideal de Dar e Receber, ou Ana Bacalhau e Conan Osíris se lançam aos triunfos aforísticos de É P’ra Amanhã e Quando Fala um Português, não acordam a natureza humana sabida por Variações: reproduzem-na da forma mais exímia. A voz de Paulo Bragança não inscreve a doce melancolia na ode maternal de Deolinda de Jesus: amplifica-a em amor audível, como Manuela Azevedo com o amparo de Anjo da Guarda.

Contudo, antes de o cantarmos em uníssono, Variações morreu. Morreu uma morte agonizante e indigna. Os seus restos julgaram-se danosos à saúde pública pela condição seropositiva e o seu caixão foi selado. A sua presença gritante e intrinsecamente queer, que em vida motivou o fascínio paredes meias com o repúdio, foi caricaturada e apagada. Houve e há quem queira recordá-lo esterilizado, segregar a sua obra do seu corpo, retirar-lhe a propriedade dos seus versos.

Há anos, adolescente em descoberta, deixei-me enamorar por Variações. Senti-me abraçado. Vi um homem com o arrojo de ser, sem medo de um Portugal provinciano, com a coragem de falar sobre sê-lo à margem e ter de viver um prazer afogado, procurando um calor tátil, no escuro. A solidão imanente da Canção de Engate é a dor crónica daqueles de nós que adiam parte de si para a obscuridade, onde não nos podem ferir. Horas antes, marchávamos nas ruas por algo maior. Agora, o tempo e a sinfonia suspendem-nos. As palavras proferidas por Selma Uamusse cortam: “Tu continuas à espera do melhor que já não vem / e a esperança foi encontrada antes de ti por alguém”.

Tive Variações diante de mim, como nunca o pensei possível. Quando abri os olhos, em Sempre Ausente, desabei com o peso de tudo o que alguma vez guardei para mim e ele conseguiu libertar. Variações não se pode desmembrar. Di-lo-ão os conspiradores deste António & Variações, duas horas que serão eternas e ensinarão a nunca mais esperar a morte de uma voz destas para a engrandecer. Ele é musicalidade e essência queer, estranheza e glamour, kitsch e sapiência. Temos nele a nossa candeia, a anos-luz do seu tempo e do mais distante porvir. “E temos na sua voz a voz de todos nós”. “Viva o António”, gritávamos na apoteose de Voz-Amália-de-Nós. E Variações vive.