Costa não mostra amor à coligação de esquerda em tempos de guerra das legislativas

António Costa foi às jornadas parlamentares do PS elogiar o Governo do PS sem grandes (ou quase nenhumas) referências aos parceiros de coligação. Os socialistas estão na rua e proclamam o sucesso isolado.

Foto
António Costa, antes de intervir no encerramento das jornadas parlamentares do PS em Viseu NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA

“Valeu a pena”. Foi talvez a única expressão, de um discurso de mais de 34 minutos, com que António Costa se referiu à solução governativa que obteve com PCP, PEV e BE. Foram 34 minutos de auto-elogio, 20 segundos de humildade e zero de reanimação da coligação à esquerda. Os socialistas largam as vestes da coligação parlamentar para enfrentarem as eleições legislativas a mostrarem os sucessos sozinhos: foi o PS e só o PS a conseguir tudo o que de bom aconteceu, incluindo a sobrevivência do “segundo Governo minoritário” a cumprir uma legislatura.

Durante as jornadas parlamentares do PS, o traço fundamental das várias intervenções de Carlos César - aliás, quase o único a falar - foi o criticar, divergir, desapegar o PS dos parceiros da esquerda. E quase sempre em tom agressivo, carregando no vocabulário e na pressão, chegando a dizer que o PS precisa de ter uma grande maioria (nunca dizendo maioria absoluta), porque não pode ter “bloqueios” nem “inércias. E Costa, com o silêncio sobre o assunto, deixou a mensagem de César brilhar.

“O país desejava mudar e foi possível no quadro parlamentar encontrar uma solução política alternativa. Valeu a pena. Ao contrário do que diziam, demonstrou-se que era possível estabilidade e possível cumprir com todos os nossos compromissos, instituições europeias e com os nossos parceiros com o PEV, PCP e BE”, disse Costa. E mais não se referiria aos parceiros.

O primeiro-ministro, aqui na pele de secretário-geral do PS em lançamento de campanha, levou 34 minutos a falar do cumprimento dos objectivos do Governo, passando pelos quatro compromissos que estabeleceu para esta legislatura - “virar a página da austeridade"; “recuperar a economia"; “recuperar os níveis de protecção social” e, por fim, “reduzir o défice e a dívida” - e pela sua “agenda para a década” que será a base do programa eleitoral do PS para a próxima legislatura.

Esse caminho começa por ser uma assunção de que “há muitos problemas para resolver no país”. “Não temos a inconsciência de achar que vivemos num mar de rosas, é por isso que definimos uma agenda para a década”, disse. “Só com estabilidade nas políticas podemos resolver os problemas estruturais. Os problemas não nos surpreendem, é necessário prosseguir as políticas. Queremos continuar e estamos prontos a continuar”.

Em que moldes quer continuar? Em termos de quadro geral de alianças, António Costa deu zero referências aos parceiros para futuro, ao contrário, por exemplo, do que tinha feito em anteriores jornadas parlamentares, há precisamente um ano, quando declamava o seu amor pela coligação à esquerda - e quando César a atacava.

“Olhando para trás, até parece que tudo era fácil, muitos achavam que era impossível. De facto, não será por acaso que é a segunda vez que um Governo minoritário exerce as funções durante toda a legislatura”, disse António Costa.

O passado, outra vez

Este sucesso faz apertar a vontade de continuar, mas Costa avisa, mesmo que de passagem, que é preciso que o partido seja humilde. “Temos o dever democrático de sermos humildes e de nunca acharmos que há muitos problemas”, lançou. Até porque, “o voto de confiança nas eleições europeias não foi um cheque em branco, mas foi mais responsabilidade para conseguirmos fazer agora mais e melhor do que no passado”.

A referência ao “passado” já tinha sido feita por Carlos César, que deixou no ar a ideia de que poderia estar a referir-se à coligação com os partidos à esquerda ou ao Governo de José Sócrates. Costa também referiu a necessidade de olhar para o passado e perceber que as eleições legislativas não são favas contadas.

Nessa altura contou uma história sobre as legislativas de 2015. “Percebi que ia perder as eleições numa drogaria no centro de Viseu”, revelou. Na conversa que teve na drogaria, disse que a sua interlocutora estava de “acordo com tudo” o que o PS propunha, “que era justo” e que o problema era mesmo que, se o partido cumprisse tudo o que propunha, ia “colocar o país na crise”. Foi uma luta perdida contra a desconfiança do “cidadão comum”, mas também contra os responsáveis políticos, nomeadamente Passos Coelho, que andava de “iPad na mão” a “demonstrar que o diabo vinha aí”. Apesar da derrota eleitoral, Costa formou Governo e agora resume: “Não demos cabo das finanças do país, recuperámos as finanças do país”.

O discurso do diabo acabou por ser referido por César, mas aplicado aos parceiros, quando disse que tinha sido o PS que travou “aventureirismos”, “radicalismos” que levariam o país “a caminhos de penúria”.

Costa também olhou para trás: “Depois de termos vivido tantos anos de drama económico e financeiro, a verdade é que acabámos por dar menor atenção a outros factores que são absolutamente essenciais”. Não concretizou a ideia, tal como César que tinha dito que era preciso admitir que houve erros, mas sem os mencionar em concreto. 

Pedido de maioria absoluta à espreita

Os socialistas estão numa senda de pedir “mais força” para o PS ou uma “grande maioria”. Vão encontrando sinónimos para pedirem, ainda que a três meses de distância, a maioria absoluta nas legislativas.

Carlos César lançou a escada no seu discurso de encerramento das jornadas. Fazendo de “polícia mau”, falou com desapego dos parceiros de esquerda, resumindo-os a ajudantes do PS e pedindo uma “grande” vitória em Outubro. “Contámos com a ajuda dos outros partidos, mas o PS precisa de contar mais, precisa de ter mais força, para prosseguir este caminho sem bloqueios, sem constantes dificuldades, sem inércias, e para isso nós precisamos de uma grande votação, de uma grande manifestação de confiança dos portugueses”, disse.

A seguir foi a vez de Ascenso Simões. O deputado inspirou-se nas palavras do líder parlamentar e pediu uma “maioria ampla nas próximas eleições” para o PS poder “fazer uma governação sem as limitações que todos os dias estão a impor-se. Não falo em maiorias absolutas, porque cada vez temos menos essa possibilidade”, disse. Para o socialista, o PS precisa de “peso determinante”, para que não dependa “dos pensamentos, dos achaques, das circunstâncias e das leituras muito individuais, por exemplo, da senhora doutora Catarina Martins”.

António Costa passou ao lado do tom das jornadas. Não criticou, não acusou, não pressionou. Mas também não demonstrou o amor pela coligação à esquerda em tempos de guerra, a caminho das legislativas.