Bullying nas escolas em Portugal desceu para metade em cinco anos

A entrada de novos psicólogos nas escolas e as campanhas contra o bullying terão ajudado a reduzir o fenómeno entre os alunos portugueses. Em Portugal, apenas 7,3% das escolas reportaram pelo menos um episódio por semana, contra os 14% da média da OCDE. Mas há quem diga que as escolas não reportam os casos como deviam.

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O número de escolas do básico que reportaram pelo menos um caso de bullying por semana desceu de 15,3% para 7,3%, entre 2013 e 2018 Paulo Pimenta (arquivo)

bullying nas escolas portuguesas do ensino básico desceu para metade em cinco anos. Apenas 7,3% das escolas reportaram a ocorrência de pelo menos um episódio por semana de bullying ou intimidação entre os estudantes, contra uma média de 14% nos 48 países e economias abrangidos pelo inquérito TALIS (Teaching and Learning International Survey), divulgado esta quarta-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Segundo o relatório, cujas conclusões se baseiam nos relatos de professores e directores das escolas dos diferentes países, os episódios de bullying e intimidação desceram nos últimos cinco anos em vários países. E Portugal destaca-se por apresentar uma das descidas mais expressivas: baixou de 15,3% em 2013 para os 7,3% do ano passado.

“É o resultado do trabalho de sensibilização que vem sendo feita junto dos alunos”, congratula-se Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, para quem o sucesso na diminuição deste fenómeno decorre tanto da acção dos agentes do programa Escola Segura da PSP, “que vão periodicamente às escolas falar aos alunos sobre bullying”, como do aumento do número de psicólogos nas escolas: “De há três anos para cá, estão a chegar cada vez mais psicólogos às escolas e - embora, com cerca de um psicólogo para mil e duzentos alunos, continuemos aquém da média europeia - não há dúvida de que o reforço dos serviços de psicologia e orientação nas escolas tem ajudado a prevenir e a reduzir o bullying.”

Menos optimista, o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, considera que esta diminuição se explica pelo facto de as escolas não estarem a reportar os casos como deviam. “A não ser nos casos mais graves, boa parte das escolas tenta encontrar soluções internas e nem sempre reporta os problemas, embora tenha indicações para o fazer”, sustenta, concordando, todavia que a chegada de psicólogos às escolas ajudou à efectiva diminuição da violência entre alunos.

A psicóloga Margarida Gaspar de Matos, coordenadora em Portugal do grande estudo da Organização Mundial de Saúde sobre a adolescência, confirma a tendência para a diminuição dos episódios de bullying entre os alunos portugueses. “Tivemos o pico de bullying em 2002, ano em que surgimos como os piores da Europa, e, desde então, o fenómeno tem vindo a baixar. Penso que isso se deve a todo o trabalho que é feito nas escolas e às campanhas que, tendo dirigido o foco para um tipo de violência que, como o bullying, tem um carácter íntimo, secreto e escondido, em que a vítima é ‘chacinada’ discretamente, ajudou a desarmar os provocadores”, interpreta.

Pico do bullying no 8.º ano

bullying distingue-se pelo seu carácter continuado e o seu pico ocorre “normalmente por volta dos 14 anos, no 8.º ano, tendendo a descer a partir dessa idade”, ainda segundo Margarida Gaspar. A investigadora lembra, porém, que, embora confirmando a diminuição do bullying, os últimos inquéritos que coordenou apontam para um aumento dos episódios de violência física entre alunos.

“À pergunta sobre se esteve envolvido nalgum episódio de pancada no último ano, 4,6% dos jovens responderam que sim em 2018, quando em 2014 eram apenas 3,9%. Por outro lado, no mesmo período, os que nunca estiveram envolvidos numa cena de pancada desceram de 78,7% para 72,6%”, precisa, para concluir que “a provocação inerente ao bullying pode estar a ser substituída pela pancada”. Logo, “o país não pode baixar os braços nesta matéria”.

Pedindo cautela na leitura dos indicadores, os autores do TALIS alertam para o aumento do ciberbullying em vários países. Em 2018, nenhum dirigente escolar português reportou ter tido pelo menos um caso por semana de publicação de conteúdos impróprios e danosos na Internet relativos a estudantes. E apenas 0,4% das escolas declararam denúncias dos pais e encarregados de educação relativas a contactos electrónicos indesejados entre alunos. Mas Tito de Morais, o fundador do projecto miudosegurosna.net, criado em 2003 para ajudar famílias e escolas a promover a segurança online de crianças e jovens, torce o nariz a estes resultados.

“As escolas não têm sistemas de denúncia eficazes. Nos Estados Unidos, os alunos podem fazer denúncias anónimas, por SMS, e-mail, através de uma aplicação de telemóvel ou mesmo na página da escola. Em Portugal, não conheço escolas com sistemas destes. E, mesmo quando os alunos denunciam, as escolas tendem a varrer o problema para debaixo do tapete, sobretudo desde que, por altura da intervenção da troika, o Observatório da Violência Escolar deixou de funcionar”, acusa.

O relatório da OCDE sugere que os diferentes países incluam nos respectivos currículos conteúdos capazes de ajudar os alunos a actuar quando presenciam episódios de violência, bem como a fazerem constar das aulas matérias sobre a auto-regulação das emoções. O estabelecimento de códigos de conduta para os alunos, a par de sistemas eficazes de monitorização do problema nas escolas, devia ainda constar como prioridade nos diferentes sistemas educativos, sugere ainda a OCDE.