Circunscrever a ordenação de homens casados à Amazónia “é uma astúcia” do Papa para fintar conservadores

É “a queda de um muro” na Igreja Católica, congratula-se frei Bento Domingues a propósito do anúncio sobre a discussão, em Outubro, da ordenação de homens casados na Amazónia. Uma medida que, segundo o teólogo, vai extravasar rapidamente para outras regiões “porque a falta de padres é global”.

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Na Amazónia, há indígenas que vivem em zonas só acessíveis por barco Nelson Garrido (arquivo)

A ordenação de homens casados na região da Amazónia não só vai ser aprovada como deverá rapidamente alastrar a outras regiões para responder “à crise global de falta de padres” na Igreja Católica, segundo sustentou ao PÚBLICO frei Bento Domingues, numa leitura ao documento preparatório do sínodo de bispos que o Papa Francisco convocou para entre 6 a 27 de Outubro, em Roma.

O documento divulgado esta segunda-feira propõe que se debata a ordenação sacerdotal de anciãos “preferencialmente indígenas, respeitados e aceites pela sua comunidade, ainda que já tenham uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã”, nas áreas mais remotas de uma região que se espraia pelo Brasil, Equador, Venezuela, Suriname, Peru, Colômbia, Bolívia, Guiana e Guiana Francesa, ao longo de mais de sete milhões de quilómetros quadrados.

“Ao apelar às necessidades específicas da região, o Papa revela uma astúcia brilhante, porque o que está em causa ali é o direito dos cristãos à eucaristia a que ninguém pode dizer que não. Mas a crise de falta de padres é global e, estando quebrado este muro, as pessoas um pouco por todo o lado vão começar a dizer, e com razão, que a situação em que vivem é igual à da Amazónia”, interpreta frei Bento Domingues, para quem Francisco pretenderá “sob o pretexto da Amazónia” fintar as resistências do sector da Igreja Católica mais conservador e avesso à ordenação dos viri probati – expressão latina que designa os homens casados de fé comprovada susceptíveis de serem ordenados padres.

“Como o Papa não pode simplesmente impor as coisas por decreto, o que ele está a fazer é a ‘descongelar o debate’, alargando a discussão muito para lá do círculo dos teólogos malditos e eruditos, expondo as contradições diante do nariz das pessoas”, reforça o teólogo, mostrando-se igualmente convencido de que a abertura do diaconado às mulheres estará igualmente no centro das conversas neste sínodo.

Sem nunca se referir explicitamente ao diaconado feminino, o documento alude à necessidade de “identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher, tendo em consideração o papel que ela hoje desempenha na Igreja amazónica”. Mais à frente, propõe que as mulheres vejam garantida a sua liderança, assim como espaços cada vez mais abrangentes e relevantes na área da formação: teologia, catequese, liturgia e escolas de fé e política”.

“Creio que estamos aqui a falar de uma espécie de ‘cavalo de Tróia’ para introduzir as mulheres no sacramento da Ordem”, reage ainda frei Bento. O Papa chegou a nomear uma comissão de especialistas para avaliar a pertinência de a Igreja voltar a abrir a porta do diaconado às mulheres, permitindo-lhes celebrar casamentos e baptizados, por exemplo - as únicas interdições aos diáconos são a confissão, a celebração da eucaristia e a unção aos moribundos. Mas os trabalhos desta comissão terão sido inconclusivos, pelo que a questão ficou mergulhada em águas de bacalhau.

Agora, deverá voltar a estar em cima da mesa, como antecipa também o padre Fernando Calado. “A expectativa é que [os bispos] vão debater o diaconado das mulheres, o que, aliás, faz todo o sentido”, reagiu, para se mostrar, porém, menos entusiasta em relação à forma como foi colocada a hipótese de ordenação de homens casados. “Custa-me ver essa possibilidade defendida com base no argumento da falta de padres”, lamenta, para preconizar que o caminho da Igreja deveria ser no sentido de se poderem ordenar todos os que, sendo casados, se assumem já como líderes da sua comunidade religiosa. “A comunidade é que deve poder decidir quem são os seus líderes e estes, sendo casados ou solteiros, não devem ser impedidos de ser sacerdotes”, especifica, para sustentar que, em paralelo, os restantes padres devem continuar a manter um estilo de vida celibatário.

Independentemente de discordar dos fundamentos, Fernando Calado não tem dúvidas de que, aberto o precedente na Amazónia, “é mais do que provável” que a ordenação de homens casados extravase para outras regiões do globo.