Igreja “importa” padres para chegar a todas as paróquias

Vêm da Ucrânia, Brasil, Angola, Itália, mas também Polónia, Espanha. À míngua de padres, a Igreja Católica entregou paróquias a dezenas de estrangeiros. Alguns, casados e com filhos. Trata-se — acusam os mais críticos — de mero remendo para um problema que reclama a ordenação de mulheres e homens casados.

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Alberto Gomariz Joana Gonçalves/PÚBLICO
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Ailton Lopes Joana Gonçalves/PÚBLICO

No início, os paroquianos franziam o sobrolho. Um padre que tinha trabalhado nas obras, casado ainda por cima, era algo nunca antes visto por aquelas bandas, acomodadas a uma tradição em que o padre, fiel à sua batina preta, conhecia todos pelo nome: os pais de os ter casado e os filhos de os ter baptizado. “Acharam que era o fim do mundo”, recua o ucraniano Ivan Babchuk, entre gargalhadas. “Pela frente não diziam nada, mas eu percebia a desconfiança”, acrescenta. Pudera: antes de assumir as paróquias de Nelas, Senhorim, Vilar Seco e Carvalhal Redondo, na diocese de Viseu, este ucraniano passara cinco anos com imigrantes de Leste a assentar tijolos e a carregar baldes de massa. “Eram os paroquianos da minha paróquia antiga, na Ucrânia. Foi a forma de chegar junto deles e de os chamar para a celebração.”

Estávamos em 2002. Ivan começou por reunir os ucranianos em missas dominicais e, catorze anos depois, em 2016, foi convidado a conciliar as celebrações de rito bizantino com a liderança das paróquias de Nelas, Senhorim, Vilar Seco e Carvalhal Redondo, onde a prática religiosa, claro está, obedece ao rito latino. “Há diferenças. Mas a principal, aos olhos das pessoas, é que no rito bizantino o celibato é uma escolha. Eu sou casado. Tenho dois filhos e quatro netos.”

Como ele, há pelo menos mais dois padres católicos de tradição bizantina que conciliam as paróquias com a vida familiar: um em Évora e outro em Setúbal. E muitas dezenas de padres estrangeiros que a Igreja Católica portuguesa “importou”, para dar sequência ao espírito missionário de muitos deles mas, sobretudo, como forma de colmatar a escassez de padres nos milhares de paróquias que compõem as 20 dioceses portuguesas. Em 13 destas dioceses – aquelas que responderam às questões colocadas pelo PÚBLICO – contam-se 116 padres estrangeiros com responsabilidades paroquiais. De Bragança ao Algarve, sucedem-se as missas celebradas com sotaque da Ucrânia, Brasil, Polónia, Roménia, Angola ou Espanha.

O madrileno Alberto Guirao Gomariz aterrou em Sever do Vouga, na diocese de Aveiro, há oito anos e meio. A coadjuvá-lo está um italiano. “Consigo celebrar a missa em português mas tenho que falar muito devagar”, conta, sotaque ainda muito cerrado. “No início as pessoas estranharam muito. Fui-lhes explicando que sou um padre missionário e, como o bispo de Aveiro precisava de padres, ia ficar com eles. Foi uma mudança muito grande – para eles e para mim que estava habituado a viver numa cidade grande.” Muitas missas e muitos funerais e baptismos depois, a estranheza dissipou-se. “Desde que eu fale devagar”, remata.

“Fujo à ideia do sermão”

Na diocese de Aveiro, dividida em 101 paróquias, contam-se cinco padres estrangeiros, nas contas do vigário-geral, o padre Manuel Joaquim da Rocha. “Chegámos a ter uma irmã religiosa que fazia a celebração da palavra numa paróquia, mas agora não. O que temos agora são diáconos responsáveis pela celebração da palavra nalgumas paróquias.” Em tudo iguais a uma missa, as celebrações da palavra distinguem-se pelo facto de não serem evocadas as palavras de Jesus na última ceia nem serem consagrados o pão e o vinho (são-no previamente por um sacerdote). Os diáconos permanentes podem ser casados e ter filhos e podem baptizar, presidir a casamentos, baptizados ou funerais. Não podem é dar a santa unção, ouvir os fiéis em confissão nem chamar missa à missa que efectivamente celebram. Para serem reconhecidos enquanto tal pela Igreja, têm de ter mais de 35 anos, uma vida estável na comunidade em que se inserem e passar por uma formação que os habilita a exercer aquelas funções.

Espalhados pelo território nacional, a Igreja Católica conta 406 diáconos permanentes. Teriam de ser muitos mais se padres como o brasileiro Ailton Rodrigues Lopes não tivessem apontado Portugal como um dos três países em que gostariam de trabalhar quando acabassem a sua formação como sacerdotes missionários. “Tem sempre aquelas pessoas mais conservadoras que estranham um pouco, mas a experiência tem sido positiva”, adianta ao PÚBLICO. Ao ajudá-lo está um vigário indonésio e, no início, em 2013, quando assumiu as paróquias de S. João de Loure, Frossos e Alquerubim, na diocese de Aveiro, também houve sobrolhos franzidos. “A língua até ajudou, porque antes de mim tinham estado cá dois padres polacos, mas demorou para conseguir o à-vontade.”

Pudera: nas missas dominicais, Ailton costuma pegar no microfone sem fios para passar a palavra aos fiéis. “Às vezes, sobretudo nas missas com crianças, sou em quem menos fala. Supostamente, devia ficar no púlpito mas eu fujo da rubrica litúrgica. Gosto das coisas mais livres, fujo à ideia do sermão e prefiro usar os exemplos do dia-a-dia para mostrar que a mensagem bíblica tem ligação com a vida das pessoas. Hoje, sinto que houve um rompimento. As pessoas dialogam e dizem que se sentem mais à-vontade para dizerem o que sentem nas missas”, conclui o brasileiro de 35 anos.

No patriarcado de Lisboa, composto por 285 paróquias, há 36 padres estrangeiros a assegurar celebrações eucarísticas e demais serviços pastorais. Na diocese de Setúbal, há três paróquias sob a responsabilidade de estrangeiros, sendo que, entre párocos e vigários paroquiais, a diocese conta quatro angolanos, três italianos e dois brasileiros. No Porto, são 15 e em Braga outros tantos. Já em Évora sobem para 22 os sacerdotes estrangeiros, “predominantemente brasileiros e angolanos”, segundo o cónego Eduardo Pereira Silva. Das 157 paróquias daquela diocese, 108 estão sem pároco residente.

“Teimosia ideológica”

Por maior que seja o esforço de garantir o acesso dos fiéis às celebrações eucarísticas por via desta “importação” de estrangeiros, o problema radica mais fundo e requer soluções mais radicais como a ordenação de homens casados. “Será uma questão de tempo. Agora, felizmente, tem-se falado mais disso e, de facto, é uma questão de disciplina da Igreja, de alteração do código de direito canónico”, admite o chanceler de Viseu, António José Boavida, sob cuja diocese se acolhem, além do ucraniano Ivan Babchuk, cinco outros padres estrangeiros.

Não muito longe dali, em Aveiro, o vigário-geral Manuel Joaquim da Rocha, concorda. “Está sempre na altura de a Igreja perceber qual é a melhor resposta que deve dar ao Evangelho. Acredito que o Espírito Santo não deixa de nos incentivar a caminhos novos e, para mim, podem passar pela ordenação de homens casados.”

“Não me repugna nada que os diáconos, já com experiência de vida e de trabalho pastoral, recebam o segundo grau do sacramento e sejam ordenados sacerdotes”, acrescenta, para admitir que os tais “caminhos novos” conduzam também a Igreja para a ordenação de mulheres. “Talvez não possam ser padres, mas por que não dar-lhes acesso a algum degrau dentro da Igreja que lhes permita uma visibilidade mais pública?”

Para o teólogo Frei Bento Domingues, que anda há anos a pregar a inexistência de obstáculos de ordem teológica à ordenação de mulheres, a carência de padres deve-se única e exclusivamente a uma “teimosia ideológica”. Ouçamo-lo: “A única tragédia que vejo aqui é o conservadorismo na orientação da Igreja em Portugal. Se não há padres, façam-nos. Não faltam candidatos e candidatas preparados”, apela, apontando várias possibilidades. “Se já temos a ordenação de homens casados como diáconos permanentes por que não diaconisas? E por que é que não se vai buscar recursos à Associação Fraternitas, reconhecida pela Conferência Episcopal, onde estão homens que já foram padres e que depois casaram e tiveram de abandonar o exercício das suas paróquias?”, concretiza, para lembrar que, ao contrário de João Paulo II, o Papa Francisco está sempre a exaltar a valorização da mulher dentro de Igreja. “É só uma questão de reabrir as portas do [concílio] Vaticano II”, insiste, para concluir, como faz na crónica deste domingo, que se tornou evidente que o actual modelo de acesso ao sacerdócio que tem no seminário uma etapa obrigatória “já não pode ser o único”.