Análise

O mágico Salvini tirou da cartola uma italomoeda

Parecia o ovo de Colombo: o “minibot” seria uma moeda paralela para preparar os italianos para a saída do euro. Foi uma farsa mas também um eloquente sinal.

1. A Liga, de Matteo Salvini, fez mais uma demonstração de magia. No dia 28 de Maio, fez aprovar na Câmara dos Deputados uma moção — não uma lei — que recomenda a criação de uma coisa chamada “minibot”. É uma espécie de obrigação do tesouro. Serve para o Estado pagar a fornecedores, que, por sua vez, poderão com ela pagar os impostos e, inclusive, despesas a empresas e particulares. Logo se levantou a questão: trata-se de um mero expediente para contornar a dívida ou é uma “moeda paralela” para preparar a saída do euro? Provocou uma breve trepidação nas Bolsas.

O novo título não paga juros, nem tem prazos. Não é contabilizado como despesa pública para efeitos do Tratado de Maastricht. É uma “invenção” de Claudio Borghi, conselheiro económico de Matteo Salvini e defensor da saída do euro. A aprovação por unanimidade desvalorizou o seu alcance político. O ministro da Economia, Giovanni Tria, declarou na quarta-feira no Parlamento sobre os “minibots”: “Não são necessários e são ilegais.” Os economistas mostram-se cépticos.

Seria um “ovo de Colombo”: habituar os italianos a usar uma “moeda paralela” ao euro. Esta obrigação do tesouro seria quase igual às notas da antiga lira. O “minibot” foi o facto político da quinzena. É uma farsa, mas também um sinal que não deve ser subestimado. Porque vai haver outros.

2. Declara, numa entrevista, o ex-ministro da Economia da Itália  Pier Carlo Padoan: “Por amor de Deus, a derrapagem do défice é, em teoria, possível. A bem dizer, se juntássemos todas as declarações do chefe da Liga já estaríamos muito para além dos 3%. Depois, é preciso fazer as contas com a explosão da dívida e com os juros da dívida, que apontam de novo para cima.”

Que se passa com as exigências da Comissão Europeia? Responde Padoan: “A Europa espera uma coisa simples, falar com um só governo italiano. Se os governos que falam são três, não se sabe a quem dar crédito. De momento, a Itália apenas garantiu uma grande confusão.” Os “três governos” são o primeiro-ministro, Giuseppe Conte, e os dois vices, Luigi di Maio, do Movimento 5 Estrelas, e Matteo Salvini, da Liga. É um governo contraditório que sobrevive fazendo um teatro de guerra, dentro do executivo e na praça pública.

Estão em curso negociações com Bruxelas. O primeiro-ministro, Conte, e o ministro Tria procuram uma solução que salve a face a Roma e a Bruxelas. Mas sabem que todos os temas em que poderiam mexer são tabu. Os radicais do Cinco Estrelas ameaçam com uma “insurreição”, se tocarem no “rendimento de cidadania”, bandeira do partido. A Liga não admite que se toque na descida de impostos (flat tax) e, ainda menos, na prometida “quota 100” das pensões de reforma (pensão total com 62 anos e 38 de descontos). Se o Governo se render à UE, Salvini bate com a porta. O ministro da Economia e o Banco de Itália pregam no deserto. Há quem avise que se aproxima “uma tempestade perfeita”.

3. E, aqui, temos de passar à piccola politica. Após um ano de máxima excitação e de reviravoltas, a política italiana parece estranhamente fútil e cinzenta. Depois do terramoto das eleições europeias, que duplicaram o voto da Liga e reduziram a metade o peso do Movimento 5 Estrelas, criou-se a convicção de que eram inevitáveis legislativas antecipadas para definir a nova relação de forças. Há uma difusa expectativa de que será inevitável ir a votos em Setembro, antes do debate do Orçamento. Mas, de momento, permanecem as dúvidas.

Salvini quer o poder e uma maioria absoluta. É a única certeza. Mas como e quando? Salvini é o político que tem quase todas as cartas na mão. O tempo passa e esgota-se em pequenas manobras, sem que os analistas arrisquem grandes apostas. Esconde Salvini um plano e uma data? Não está seguro das suas cartas? Ou trata-se de outro jogo: forçar o aliado a romper a coligação? Explica no Corriere della Sera o analista Stefano Folli: “Salvini sabe que tem de pagar um preço, se for o único a pedir ao chefe do Estado a dissolução do Parlamento. A tradição política italiana não é favorável a quem impõe as eleições. (…) Ele não tem vontade de provocar eleições em Setembro, mas, ao mesmo tempo, teme perder o momento mágico.”

Na análise do politólogo Renato Mannheimer, o objectivo de Salvini é fundir todo o espaço do centro à direita, numa espécie de “nova democracia cristã”, nela incluindo a extrema-direita. Mas enfrenta vários dilemas. O voto meridional é por excelência volúvel. O eleitor do Norte quer ver cumpridas as promessas fiscais. O Sul quer mais Estado e o Norte queixa-se da elevada pressão fiscal. Salvini pode naturalmente “descarregar as culpas sobre a Europa” e até deixar vislumbrar um “Italexit”. Mas esta pode ser uma táctica arriscada no “seu” Norte, com fortes relações comerciais e económicas com a Europa.

Outros apontam o argumento de que a mera aliança com o Irmãos de Itália (direita nacionalista), de Giorgia Meloni, não lhe garante a maioria absoluta. Por outro lado, não lhe interessa aliar-se a Berlusconi, esperando que o seu partido, Força Itália, se desagregue, herdando os seus votos. Não quererá arriscar-se a repetir a vitória “sem ganhar nada”, ou seja, sem maioria absoluta.

Até lá, estaria tranquilo. O Cinco Estrelas está debilitado e dividido, encarando com terror eleições a curto prazo. Neste quadro, Salvini mantém a iniciativa, pode impor a sua agenda e cobrar os respectivos créditos.

4. “Salvini é o dominus político de um governo em que é o presidente do conselho de facto”, escreve Stefano Cappellini no La Repubblica. “O problema de Salvini não é Di Maio, nem nunca o foi. O problema de Salvini chama-se Europa e não pode ser resolvido com novas eleições. Não é dissolvendo o Governo que a carta de Bruxelas cairá em prescrição. (…) As eleições colocá-lo-iam na desagradável condição de pagar a conta. O ‘capitão’ gosta de vencer facilmente, mas não de responder pelas suas acções. A conta será apresentada na mesa de um eventual governo hipersoberanista de direcção salviniana e será uma razão bem mais imperativa do que as ‘dores de barriga’ dos grillini para liquidar as alegres reformas que a Liga continua a prometer ao país.”

A politóloga Alessandra Ghisleri, directora de um instituto de sondagens, resume assim a política europeia de Salvini: chegar a um ponto de ruptura com a Europa para tentar obter o máximo do ponto de vista económico, mas sem sair do euro e da UE, porque os italianos não lho permitiriam.