O que separa Silicon Valley e Vila Velha de Pinheiro? Tudo menos a tecnologia

Simplex, a ópera cómica interpretada pelo Quarteto Contratempus, põe a cenografia digital ao serviço de intérpretes e encenador. Está em cena este fim-de-semana no Teatro do Campo Alegre, no Porto.

Dança moderna
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Nelson Garrido

Vila Velha do Pinheiro era uma vila do interior de Portugal como tantas outras até que B Jobs, um visionário americano proveniente de Silicon Valley, se maravilha com os seus encantos e ali se fixa. A influência do novo habitante – que tenta introduzir tecnologia em tudo — não demora a fazer-se sentir no quotidiano da vila outrora calma e pacata. Que o digam os seus habitantes, que reagem com relutância à implementação de tecnologias e termos anglo-saxónicos no seu quotidiano — principalmente devido à incapacidade de acompanhar estes avanços tecnológicos que motivam mudanças repentinas e profundas.

Ao contrário dos munícipes que representa, o autarca de Vila Velha do Pinheiro recebe de braços abertos B Jobs, o qual nomeia seu “adviser” e a quem chama “soulmate”. O objectivo? Tornar Vila Velha do Pinheiro a “capital da tecnologia”, através do Simplex. No entanto, a determinação do presidente acaba por se desvanecer quando dá de caras com Geneviève, uma repórter que se desloca à vila para dar conta dos métodos revolucionários que ali estão a ser implementados. São estes os dados com que António Durães, encenador, presenteia os espectadores no início de Simplex —​ a “ópera cómica multimédia” com música de Telmo Marques, libreto de Carlos Tê e José Topa e interpretação do Quarteto Contratempus que pode ser vista este fim-de-semana no Teatro do Campo Alegre, no Porto.

Mas não só de música e canto lírico se faz esta peça. Há espaço para diálogos que exploram a incapacidade de adaptação da população da vila, com características tipicamente portuguesas, às exigências visionárias do novo habitante. A paródia é constante — tome-se como exemplo os caixões que emitem música de Bach nos sete dias subsequentes à morte de alguém —, mas a realidade parodiada nunca se perde de vista. “A verdade é que a tecnologia ajuda-nos a ter vidas melhores, mas também pode condicionar e tirar, inclusive, parte da liberdade no usufruto dessa vida.” 

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À semelhança do que acontece com Vila Velha do Pinheiro, também esta ópera foi assaltada pelos avanços tecnológicos, já que no palco, para além de actores e cantores, estão também painéis em que se projectam imagens estáticas, vídeos e outros elementos de cenografia digital. E há mesmo câmaras que detectam os movimentos dos artistas, aos quais os elementos digitais reagem instantaneamente.

A interacção entre a tecnologia e a ópera pode não ser a mais expectável, mas António Durães vê nela uma mais-valia: “É como se estivéssemos mesmo na vila com estes upgrades todos. Isto é Vila Velha do Pinheiro, estamos muito à frente.”

As mudanças induzidas pela inclusão destes elementos no trabalho teatral podem mesmo assemelhar-se, ainda que com menos impacto, às que se registaram aquando do aparecimento da electricidade em cena. A dificuldade é encontrar a dose certa de tecnologia a aplicar, de forma que a que esta esteja ao serviço do espectáculo, em vez de o escravizar. “É preciso contar uma história e usar as ferramentas que temos à nossa disposição. Se fosse uma cadeira, contávamos a história só com uma cadeira”, diz o encenador.

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Neste caso, António Durães dispunha de muito mais do que uma cadeira. Para interpretar o libreto, trabalhou com o quarteto formado originalmente por Teresa Nunes (soprano), Crispim Luz (clarinetista), Susana Lima (violoncelista) e Brenda Vidal Hermida (pianista). Em Simplex, a ausência de Brenda é suprida por Sérgio de A., a que se junta Miguel Leitão (tenor) – os dois convidados especiais desta produção.

A fusão de forças entre o quarteto e António Durães já não é nova – o encenador estima que este seja o “quarto ou quinto espectáculo” que fazem juntos, todos “mais ou menos adornados”, já que esta é uma das marcas do grupo fundado em 2008 no âmbito académico. O caminho tem sido de evolução e de aprendizagem partilhada. “Hoje conseguimos fazer coisas que não conseguíamos há cinco anos, isso é definitivo. E quero crer que daqui a cinco anos vamos conseguir fazer coisas que hoje não conseguimos. O processo é este, é evolutivo”, remata. Texto editado por Inês Nadais