O baile de Rocío Molina é uma queda livre

Artista espanhola que parte do flamenco para o reinventar sobe esta sexta-feira ao palco do Rivoli com Caída del Cielo, que segue depois para o Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz.

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SIMONE FRATINI

Quando o pintor flamengo Hieronymus Bosch pintou o tríptico Jardim das Delícias Terrenas, mostrou que a técnica então utilizada para representar fielmente o real, aquilo que vemos, poderia ser igualmente empregue na reprodução do que atormenta a humanidade. A pintura, uma das mais importantes do acervo do Museu do Prado, em Madrid, vai do paraíso perdido ao inferno e, tal como muitas das suas obras, parte da tradição para encenar em tela um imaginário bizarro e grotesco.

Num processo semelhante, Rocío Molina, um dos principais nomes da dança espanhola actual, vai às raízes do flamenco para o envolver em outras linguagens, como a poesia, a pintura ou a simples vida quotidiana, refere ao PÚBLICO para explicar o nascimento de Caída del Cielo, a peça que, acompanhada por músicos, leva esta sexta-feira ao palco do Rivoli, no Porto. Se o flamenco é “muito amante da tradição” e a sua liberdade abre portas à transgressão, interessa-lhe também o mundo para lá dele.

É nesta sequência que surgem Bosch e o seu tríptico, que serviu de “grande referência” para o espectáculo. Bailarina (ou bailaora, usando o jargão do flamenco) e coreógrafa, a tensão que Rocío Molina aplica ao seu baile leva-a à profundidade: onde “há mais sofrimento, mas também há mais vida”, afirma. A artista vê neste trabalho “uma época mais destrutiva” para o seu próprio corpo, pela intensidade física que a leva a procurar os limites. Se vai buscar referências a vários terrenos – da Bíblia à Divina Comédia de Dante –,​ é também essa viagem pelo corpo de uma mulher que lhe interessa explorar, celebrando-o.

“É uma obra planeada como um díptico”, ilustra Rocío Molina, que nasceu em Málaga, em 1984, e que, em 2010, viu o lendário bailarino Mikhail Baryshnikov ajoelhar-se a seus pés depois de uma actuação em Nova Iorque. O ponto de partida era “trabalhar sobre o branco”, sobre uma certa “idealização da perfeição, de algo mais imaculado, da beleza mais idílica”. A ideia sobreviveu ao processo de criação e chegou ao espectáculo, mas precede uma queda livre. “Há uma ruptura muito drástica” que transforma Caída del Cielo em “algo mais obscuro, mais sombrio”, explica Rocío, que é artista associada do Teatro Nacional de Chaillot, em Paris, desde 2014, e que recebeu o Prémio Nacional de Dança em Espanha em 2010.

Os seus trabalhos têm acumulado prémios: Caída del Cielo foi distinguida em 2017 com o Prémio Max em três categorias (melhor intérprete feminina, melhor coreografia e melhor desenho de luz), reconhecimento que já lhe tinha sido atribuído em 2015 pela coreografia de Bosque Ardora; já este ano recebeu pela segunda vez o UK National Dance Award para melhor bailarina contemporânea.

Caída del Cielo segue no sábado para a Figueira da Foz, onde se apresentará no Centro de Artes e Espectáculos, numa espécie de pré-abertura do Citemor, o festival de artes performativas de Montemor-o-Velho. O trabalho foi criado em 2016, numa produção que antecedeu Grito Pelao, em 2018.

Depois deste fim-de-semana, Rocío Molina regressará a Portugal no Verão, para fechar a programação do Citemor, que este ano decorrerá entre 25 de Julho e 17 de Agosto. A artista espanhola vai estar em residência para desenvolver um trabalho para a sua série Impulsos em que, descreve a organização do festival “se lança na conquista de espaços e situações improváveis: um parque, uma praça, a margem de um rio, um museu, espaços públicos ou privados, improvisando e descobrindo novos caminhos, lançando as sementes de uma próxima criação”.

PÚBLICO -
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PABLO GUIDALI