Opinião

Portugal tem de conseguir abrir as portas do elevador social, em vez de continuar a oferecer escadas para lavar

Depois do seu discurso nas cerimónias oficiais do 10 de Junho em Portalegre, o jornalista João Miguel Tavares sai das margens dos assuntos nacionais e, num registo crítico, pronuncia-se sobre a relação que Portugal com os cidadãos das ex-colónias que vivem entre nós.

Senhor Presidente da República de Cabo Verde,

Senhor Presidente da República Portuguesa,

Senhor Primeiro-Ministro da República de Cabo Verde

Autoridades civis e militares,

Minhas senhoras e meus senhores.

I

Permitam-me começar esta intervenção com uma memória pessoal que me é muito querida. A primeira vez que estive em São Vicente foi em 1999, quando aproveitei um prémio que em boa hora me foi atribuído pela minha universidade para investir numa viagem a Cabo Verde, e vir até aqui encontrar-me com a Teresa, então minha namorada e hoje minha mulher.

A Teresa estava no internato de Medicina e escolheu fazer o estágio de Saúde Pública aqui mesmo, no Mindelo, onde permaneceu durante três meses. Foi através dela que conheci o grupo de teatro do Centro Cultural Português, e o extraordinário trabalho de João Branco, os fins de tarde no Café Lisboa ou a casa de Manuel d’Novas, que ainda tive o prazer de entrevistar. Viajámos até à ilha da Boavista (e quem vê a praia de Santa Mónica como nós a vimos nunca mais a esquece), e dias depois demos um salto de barco a Santo Antão, onde assistimos à corrida de cavalos do Paúl. Foram apenas 15 dias, mas é daquele tipo de 15 dias que dura uma vida inteira na nossa memória.

Levámos de Cabo Verde mais do que fotografias vistosas. A Teresa ficou amiga da Etelvina, que com ela trabalhava na Delegacia de Saúde do Mindelo; algum tempo depois a Etelvina teve o Kevin; o Kevin ficou afilhado da Teresa; e hoje ele é um belo rapaz de 19 anos a estudar em Bragança. Passou o último Natal connosco, em nossa casa. Através da Etelvina presto a minha homenagem às mulheres cabo-verdianas, verdadeiros pilares das suas famílias.

Estas são as minhas doces memórias do Mindelo. Como podem ver, elas são bastante úteis para iniciar discursos oficiais, mas correm sempre um grande risco: deixarem-se ficar pela superficialidade do amor de turista e do postal tropical; ou então pelo tom protocolar do amor diplomático, que nestas ocasiões se traduz invariavelmente pela celebração efusiva do “país-irmão”, ainda que esse amor nem sempre se faça sentir onde ele mais conta: no aeroporto de Lisboa, no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras ou nas regras de circulação entre os dois países.

Já aqui referi João Branco. Há tempos li uma frase sua que é perfeita na forma como retrata a sua integração em Cabo Verde: “Gosto de pensar que sou daqui, mas não sabia.” Suponho que não haja forma mais tocante de falar de um país onde não nascemos, mas que sentimos como nosso.

Não estou certo que em Portugal consigamos encontrar com tanta facilidade um cabo-verdiano capaz de subscrever tais palavras. E enquanto esse cabo-verdiano não existir, é porque a relação entre os dois países ainda não está realmente equilibrada, e porque os obstáculos resultantes de um passado comum doloroso, ainda não estão totalmente ultrapassados.

II

Desde que o senhor Presidente de Portugal assumiu o cargo, ele optou por internacionalizar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebrando-o também fora de portas, num outro país onde exista uma comunidade portuguesa forte. Foi assim que o 10 de Junho, neste novo formato, já foi comemorado em França, no Brasil e nos Estados Unidos.

Chegou agora a vez de Cabo Verde. É um facto que vivem hoje aqui 18 mil portugueses, espalhados pelas várias ilhas. Mas reduzir o simbolismo desta nossa presença à solidariedade para com os nossos compatriotas parece-me pouco. Um 10 de Junho em Cabo Verde tem um sentido muito diferente de um 10 de Junho em França, no Brasil – que é independente há quase 200 anos –, ou nos Estados Unidos da América.

Há apenas 45 anos Cabo Verde era ainda parte de Portugal. Estarmos aqui hoje, menos de meio século depois, numa cerimónia como esta, quando há gente ainda viva que lutou pela independência e sofreu pela sua ausência, demonstra a todos, portugueses e cabo-verdianos, que profundos são os laços que se criam e desenvolvem entre os povos, mesmo quando manchados pela escravatura, pelos trabalhos forçados ou pelo racismo.

Estamos juntos apesar do nosso passado. E estamos junto por causa dele.

Aquilo a que chamamos colonialismo tem implicações mais profundas do que a violência sobre os corpos. É também uma violência sobre a memória, com gerações e gerações condenadas ao esquecimento, porque a História que sobrevive é sempre a história do dominador e não a história do dominado. Erguer um novo país implica quebrar esse monopólio da memória e reconstruir tudo: criar uma História própria a partir de frágeis fragmentos; procurar uma identidade autónoma por debaixo dos escombros de um regime opressivo.

Compreendo bem as dificuldades deste empreendimento, porque essas dificuldades não existem apenas em Cabo Verde – elas estendem-se a Portugal, através das muitas dezenas de milhares de cabo-verdianos e seus descendentes que vivem no meu país. Ao fim de 45 anos de uma integração pouco integrada, há uma nova geração que começa finalmente a fazer ouvir a sua voz.

Essa nova geração mais qualificada pode não ser ainda muito numerosa, mas tem vindo a criar um movimento associativo forte, apoiado pelas faculdades de ciências sociais. Esse movimento está aos poucos a produzir uma massa crítica suficientemente interventiva para começar a perturbar o mito lusotropicalista e a herança da suposta “excepção portuguesa”, que nunca o foi nas antigas colónias, e que também não o foi, nem o é, em Portugal.

O problema não é haver tantos cabo-verdianos com 40 ou 50 anos de idade a limpar casas ou a construir estradas e edifícios em Portugal. A pobreza e o défice de educação têm um grande impacto em qualquer vida. O verdadeiro problema surge quando os seus filhos de 20 anos, que já foram criados em Portugal, continuam a limpar casas e a construir estradas e edifícios. Isso significa que a escola pública portuguesa não lhes está a dar tanto quanto devia, e que Portugal tem de conseguir abrir as portas do elevador social, em vez de continuar a oferecer escadas para lavar.

III

Não vos vou mentir: eu não aprecio a expressão “política de reparações”, porque ela se presta a demasiado equívocos. A identificação de uma comunidade inteira com a categoria de vítima acarreta, também ela, os seus perigos, e pode alimentar aquilo que mais deseja combater. O indivíduo dissolve-se no meio do grupo, são desvalorizadas as suas responsabilidades individuais, e corre-se o risco de menorizar os problemas sociais e culturais da própria comunidade. Problemas esses que contribuem para o perpetuar das desigualdades, apesar de não estarem directamente relacionados com qualquer espécie de opressão. Nem tudo é sempre culpa dos outros.

As verdadeiras reparações fazem-se durante o intervalo de uma vida. Não para compensar tragédias ancestrais, cujos efeitos são impossíveis de medir. Foi de um profundo desejo de emancipação cultural e social que no Mindelo dos anos 30 nasceu o movimento Claridade, e foi do mais profundo sofrimento que se alimentaram as mornas de Cesária Évora. Não há forma de refazer o passado, nem de usar a História para contas de matemática. As reparações que são devidas a quem hoje está vivo, e carrega consigo a bagagem do preconceito, têm nomes muitos antigos. Chamam-se igualdade de oportunidades, direito à busca da felicidade, e a certeza de que cada ser humano é único e irrepetível, independentemente da sua origem, do seu credo ou da sua cor.

Aquilo que deveria ser uma preocupação genuína de Portugal – e não é; pela falta de representação dos afrodescendentes na política portuguesa – é a noção de que o nosso país tem uma responsabilidade histórica, sobretudo para com os jovens que descendem de habitantes das antigas colónias. E que as “reparações” que lhes são devidas são estas: uma vida digna, educação de qualidade, acesso facilitado à cidadania portuguesa e o combate permanente à discriminação.

Nós, os portugueses, precisamos de ouvir os cabo-verdianos dizer de Portugal: “Gosto de pensar que sou daqui, mas não sabia.”

IV

A 10 de Junho, nós celebramos também a poesia de Luís de Camões, que nos Lusíadas dedica duas estrofes do Canto Quinto a Cabo Verde, descrevendo a ilha de Santiago como “a terra onde o refresco doce achámos”. Essas duas estrofes foram traduzidas no final do século XIX para crioulo de Santo Antão, por essa figura fascinante que foi o cónego António Manuel da Costa Teixeira, autor da primeira cartilha cabo-verdiana e um dos primeiros defensores do ensino bilingue nas escolas de Cabo Verde, em crioulo e em português.

Os últimos quatro versos da nona estrofe do Canto Quinto foram traduzidos assim:

D'êi, q'ande soprá um vintim de Nôrte,
Nô torná t'má noss'camim socégáde
Na mêi d'aquêll mar, e assim nô bá d'xande
Quell'terra, onde nô ochá refrésque sabe.

Esta língua, tão pouco compreensível para tantos portugueses, mas na qual Os Lusíadas soam tão bem, é hoje, com boa probabilidade, a segunda língua mais falada em Portugal, depois do português. A sobrevivência do crioulo até aos dias de hoje – ou da língua cabo-verdiana, como há quem prefira chamar-lhe –, representa uma vitória sobre o colonialismo português, um gesto de rebeldia que se estima durar há pelo menos quatro séculos, que passou de geração em geração, e que se mantém como o grande traço identitário cabo-verdiano e fonte da sua coesão social, seja nas dez ilhas de Cabo Verde, seja em Portugal ou na restante diáspora.

Portugal nunca conseguiu impor o português em Cabo Verde como língua do dia-a-dia, e foi, pelo contrário, o crioulo que foi conquistando os portugueses que por cá assentavam. Existem testemunhos do século XVIII a garantir que o chamado “falar da terra” atingia brancos e negros, senhores e escravos, afirmando serem “raros os que sabem falar a língua portuguesa com perfeição”. Todos eles, dizia tal testemunho, “só vão seguindo o estilo de falar da terra”.

Mas este “falar da terra”, esta língua das relações familiares e afectivas, também não teria sido possível sem a influência do português e dos portugueses. O crioulo é como o filho inesperado de uma relação complicada, que cresce viçoso apesar dos problemas de seus pais.

Tenho acompanhado o empenho das autoridades de Cabo Verde na instituição do crioulo como língua oficial, no desenvolvimento de uma gramática e no seu ensino nas escolas, em paralelo com o português. Esse é um empreendimento que só pode beneficiar as duas línguas, e não só aqui. Parece-me evidente também a sua utilidade nas escolas portuguesas que têm de lidar diariamente com numerosos alunos cuja língua materna é o crioulo, e que por causa disso enfrentam logo no início da vida académica enormes dificuldades, que condicionam o seu rendimento escolar. 

Dentro daquilo que é a responsabilidade histórica de Portugal e os laços que nos unem a Cabo Verde, considero que as autoridades portuguesas, e a sua academia, têm o dever de prestar apoio à oficialização e padronização do crioulo, enquanto instrumento primordial de integração e de sucesso escolar dos cabo-verdianos e dos seus descendentes – sobretudo daqueles que por estarem longe do mundo das elites nunca puderam usufruir de um contacto privilegiado com a língua portuguesa, seja em Cabo Verde, seja em Portugal.

V

Somos dois países nascidos em cima do mar, países de acolhimento mas também de emigração. Quando ouço um cabo-verdiano cantar “sodade dess’nha terra São Nicolau”, eu sei perfeitamente aquilo que ele está a dizer e sentir, apesar de nunca ter estado em São Nicolau.

Tanto o fado como a morna são muito prováveis descendentes do lundum, dança e canto de origem africana que ganhou forma no Brasil, e que depois voltou para trás, influenciando de novo África, Cabo Verde, Portugal, e ganhando com o tempo a dolência triste da morna ou do fado, enriquecida com as palavras dos nossos melhores poetas – porque em todos esses lugares há necessidade de cantar a saudade, o sofrimento e a dor da partida; e em todos esses lugares há portos, marinheiros, trocas culturais, sociais e sexuais, que têm o dom de nos aproximar uns dos outros.

Somos todos mais parecidos do que imaginamos, e naquilo em que não somos parecidos, a diferença é uma mais-valia – não é um obstáculo.

Não se trata de Portugal precisar de Cabo Verde, ou de Cabo Verde precisar de Portugal. A relação entre os nossos dois países vai muito além da mera utilidade, da matemática económica ou da estratégia política. Trata-se de termos uma história comum, partilhada, indissolúvel, e de compreendermos que sem os outros somos menos, e que com eles somos mais. A História aproxima-nos. A diversidade enriquece-nos.

Estamos ligados por um cordão umbilical Atlântico, com mais de 550 anos de idade. Enquanto houver livros de História, esse cordão é indestrutível. Só fica a faltar uma coisa: que esta bonita conversa de salão se torne realidade onde ela realmente importa. Não nestas belas esplanadas de hotel, mas nas ruas dos bairros pobres, onde a palavra “irmão” é muito mais necessária, mas também muito mais difícil de dizer.

Muito obrigada.