“A Globo foi aliada, amiga, parceira e sócia” da Lava-Jato, diz Glenn Greenwald

O jornalista norte-americano e co-fundador do The Intercept Brasil deu a entender que as próximas publicações do site podem desvendar a relação entre o grupo de media e a equipa da mega-investigação à corrupção.

O jornalista norte-americano disse que é impossível alguém defender Moro depois da divulgação das mensagens
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O jornalista norte-americano disse que é impossível alguém defender Moro depois da divulgação das mensagens PAULO WHITAKER/Reuters

A Globo e a Operação Lava-Jato são “aliadas, amigas, parceiras e sócias”, disse numa entrevista Glenn Greenwald, um dos três jornalistas que revelaram a troca de mensagens entre o juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol em trabalhos publicadas no site The Intercept Brasil

“Os documentos mostram como Moro e Deltan estão trabalhando juntos com a Globo e nós vamos reportar”, disse Greenwald à Agência Pública, dando a entender que os próximas trabalhos do site de investigação jornalística podem ser sobre essa  relação. “A Globo foi para a Lava-Jato aliada, amiga, parceira, sócia. Assim como a Lava-Jato foi o mesmo para a Globo”.

“É impossível para todo o mundo que está a ler esse material defender o que Moro fez. Impossível!”, afirmou o jornalista americano que ficou conhecido ao denunciar o esquema de vigilância da NSA com os documentos fornecidos por Edward Snowden em 2013.

Mas a crítica de Greenwald não é apenas à Globo. “A Globo, o Estadão, a Veja, estavam o tempo todo simplesmente recebendo vazamentos, publicando o que a [Lava-Jato] queria que eles publicassem”, denunciou, não deixando de reconhecer que a “os grandes media estão reportando o material [do Intercept Brasil] de forma mais ou menos justa, com a gravidade que merece”.

O caso já é conhecido no Brasil por “Vaza-Jato” e há quem o compare ao escândalo Watergate, que levou à queda do Presidente norte-americano Richard Nixon.

A quem critica a seriedade das reportagens o jornalista responde que não é o WikiLeaks de Julian Assange. “Não estamos apenas publicando material que nós temos, sem contexto, ou reportando sem entender, sem analisar, sem pesquisar. Estamos fazendo jornalismo”, garantiu o co-fundador do The Intercept Brasil, referindo ter “a responsabilidade jornalística” de demorar o tempo que for preciso para “confirmar que tudo é verdade”.

Desde que as reportagens foram publicadas, no domingo passado, Greenwald e o marido, o deputado federal do PSOL David Miranda, têm sido alvo de ameaças de morte e ataques homofóbicos. Em resposta, o jornalista garantiu estar “pronto” para o pior, tendo adoptado medidas de segurança para se proteger e à sua fonte de “riscos físicos, riscos legais, riscos políticos, riscos que vão tentar sujar” a sua reputação e da equipa de jornalistas com “25, 30 anos”.

“Sabíamos que tudo isso iria acontecer, mas o que podíamos fazer? Há jornalistas cobrindo guerras. Há jornalistas sem visibilidade investigando corrupção contra pessoas muito perigosas”, afirmou Greenwald na entrevista. E sublinhou: “Se você não quer esses riscos, você não deve fazer jornalismo.”

Greenwald elogiou em tempos a Lava-Jato

A corrupção é um dos temas mais quentes no Brasil e a Lava-Jato foi inicialmente encarada por parte da opinião pública como a resposta à corrupção endémica, seja à “direita, centro ou esquerda”. Houve tempos em que Greenwald elogiou a Lava-Jato, como o próprio admite.

“Entendo o apoio à Lava-Jato ao ver políticos poderosos e bandidos finalmente na prisão. Eu também elogiei a Lava-Jato, às vezes, por causa disso”, disse.

Em 2017, Greenwald foi pressionado para boicotar a atribuição de um prémio canadiano à Lava-Jato, mas recusou ceder. Foi à entrega do prémio e teceu elogios aos procuradores do Ministério Público, entre os quais Deltan Dallagnol.

“Ver brasileiros numa jovem democracia colocando os seus bilionários na prisão e prendendo políticos de todos os espectros partidários é algo extraordinariamente corajoso, digno de ser homenageado”, disse na altura.

Mas os anos foram passando e Greenwald mudou de opinião quando os media brasileiros transformaram Moro e a Lava-Jato “em deuses ou super-heróis”. “Mas, exactamente como acontece com todos os humanos, qualquer grupo de pessoas que têm poder, como a Lava-Jato, também tem a capacidade de abusar desse poder”, considerou na entrevista desta quarta-feira.

“Os jornalistas pararam de investigar e questionar a Lava-Jato e simplesmente ficaram aplaudindo, apoiando e ajudando”, concluiu.