Opinião

A Alemanha e a geopolítica da Europa

A França está enfraquecida e o eixo franco-alemão deixou de funcionar. O que sobra? O poder imenso e majestático da Alemanha.

A Europa está entregue a si própria num mundo cada vez mais turbulento e imprevisível. O desinteresse dos EUA na cooperação com a Europa e na sua defesa está a pôr fim a um período que começou em 1960 e gerou paz e prosperidade. A Europa não só não está preparada para lidar com a mudança, como vive em estado de negação.

Em Julho de 2018, Trump declarou que a Europa é inimiga dos EUA. Decretou a guerra comercial, com taxas alfandegárias elevadas para o aço e alumínio europeus. Em Fevereiro deste ano, o Governo americano anunciou que ia aumentar dez vezes os impostos sobre a indústria automóvel europeia com o argumento de que ameaça a segurança nacional dos EUA. Os dirigentes europeus assobiam para o lado. À medida que a situação se agrava temos uma ofensiva da Rússia e da China na Europa para reforçarem as suas posições e ocuparem o vazio americano. Henry Kissinger disse um dia que a existência de um fosso e de divisões na relação transatlântica transforma a Europa num apêndice da Ásia. É o que está a acontecer sob os nossos olhos perante a inação europeia. As consequências para o futuro da Europa, para a sua segurança, defesa, economia e bem-estar, podem ser graves.

A Europa tem que resolver o problema alemão, para ser capaz de reformar o euro, relançar a economia e o emprego e a seguir abordar a questão geopolítica. A Alemanha é um grande país europeu, tem sido crucial para a paz e estabilidade na Europa mas a crise financeira de 2008 e a resposta desastrada que foi dada mudou muita coisa. O problema alemão na Europa, em termos históricos, apareceu em 1871 com a unificação alemã, conduzida por Bismarck, que forjou uma nação a “sangue e ferro”, como ele próprio disse. A seguir, o Kaiser Guilherme II sonhou e fez a Alemanha imperial e dominante na Mitteleuropa. O surgimento desta nação demasiado rica, vasta e poderosa desequilibrou a relação de forças na Europa e lançou o continente em duas guerras mundiais devastadoras.

No fim da Segunda Guerra Mundial, a discussão sobre o futuro da Europa tinha um ponto central: como resolver o problema alemão? George Kennan, o diplomata americano que formulou a doutrina da contenção em relação à União Soviética, disse nessa altura que a paz na Europa só seria possível com alguma forma de unificação que regulasse a relação da Alemanha com os outros países europeus. E foi o que aconteceu durante décadas. O diplomata inglês Hastings Ismay, primeiro secretário-geral da NATO, disse nessa altura que a Europa só seria possível com os americanos dentro, a Rússia fora e a Alemanha por baixo. Esse modelo funcionou, mas hoje colapsou porque temos os americanos a sair, os russos a entrar e a Alemanha por cima.

O investigador Hans Kundnani publicou em 2015 um livro sobre o paradoxo do poder alemão, em que mostra que a crise financeira de 2008 e a sua gestão trouxe o problema alemão para o centro da política europeia, agora não pela via das armas mas pela via económica. A Alemanha é a nação mais poderosa da Europa pela força da sua economia e pelo poder imenso que ela lhe confere. O euro, cujo desenho a Alemanha começou por recusar e veio a aceitar por insistência da França, é uma máquina ao serviço das exportações alemãs, das empresas e bancos alemães e do próprio Estado alemão que se financia com taxas de juro negativas. Os efeitos do euro nas outras economias europeias são transversais, como mostra o caso da França e a revolta brutal dos “coletes amarelos”. A disfuncionalidade da economia e a proletarização crescente de vastos segmentos da classe média alimenta a revolta e indignação de muita gente, quando compreende que o sistema político e económico não está a funcionar para a maioria. 

A França está enfraquecida e o eixo franco-alemão, que dirigiu a Europa durante décadas, deixou de funcionar. E o que sobra? O poder imenso e majestático da Alemanha. O perigo não advém do facto dos alemães serem “maus”, muito pelo contrário, a Alemanha é um grande país e um dos mais europeístas do continente. O perigo advém da política gradualista seguida pela Alemanha e pela chanceler Merkel, que não tem rasgo nem visão, e usa a “hesitação como tática de dominação”, nas palavras do sociólogo alemão Ulrick Beck.

Na economia, a Alemanha segue uma política de austeridade ortodoxa, que impõe a toda a Europa, e isso é um erro crasso porque quando todos os países de uma zona económica são forçados a uma política de austeridade, sem distinguir os países deficitários dos superavitários (caso da Alemanha), os países deficitários são continuamente penalizados, vivem com grandes constrangimentos económicos, não conseguem relançar a economia e o investimento, a vida das populações é muito afectada e podem voltar rapidamente ao estado de coma. É por isso que a reforma do euro, a aprovação de um orçamento europeu, a definição de um quadro partilhado de políticas económicas, financeiras e sociais, é crucial para revitalizar o projeto europeu, relançar a Europa e ganhar os cidadãos.

A nova configuração do Parlamento Europeu, mais fragmentado, pode propiciar maior representatividade política, abrir novos espaços de negociação e entendimento e alterar o rumo atual excessivamente dominado pela Alemanha. Mas isso, que é muito, não é tudo e a luta vai ser feroz porque a Alemanha é apoiada pela Liga Hanseática, dominada pela Holanda e pela Áustria, que defende a todo o transe a política de austeridade e sonha em reduzir o perímetro europeu ao norte do continente e marginalizar o sul.

Mas a Alemanha pode construir a solução com uma nova visão política e inspirada no seu “Conselho dos Cinco Sábios”, que ao longo dos anos tem feito recomendações para um caminho diferente. É também crucial a Europa pensar na sua Defesa e Segurança de forma séria e consistente, senão ficará à mercê das outras potências.

Finalmente, é crucial a Europa pensar como entidade geopolítica. É o mais difícil porque se trata de um conjunto de nações que a geografia juntou, com interesses distintos por vezes divergentes. Mas é preciso identificar um conjunto de interesses comuns – a segurança, o dinamismo da economia, o bem estar das populações, a defesa das fronteiras, a luta contra a pobreza, a gestão das migrações, a mudança climática, a transição energética, a relação com o arco de crises no Norte de África, Médio Oriente e Leste da Europa, a relação com as potências emergentes como a China e a Rússia. Desta reflexão deve sair um quadro conceptual capaz de articular uma visão geopolítica adequada à defesa da Europa e forjar uma verdadeira política europeia que enfrente os desafios do século XXI. É muito difícil mas vale a pena, para que os demónios do passado não regressem a um continente que inventou a liberdade e o mundo moderno.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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