Cimeira da NATO

A Europa já não tem ilusões sobre o empenho de Trump na Aliança Atlântica

Evitar conflitos e esperar que a maré passe. Pode resumir-se assim a disposição dos aliados europeus para a cimeira da NATO que começa nesta quarta-feira em Bruxelas. Não sabem o que esperar do Presidente Trump. Temem o seu encontro com Putin dentro de quatro dias.

Donald Trump, Melania Trump, Estados Unidos, Reino Unido
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Donald Trump quando partia para a Europa, a bordo do Air Force One Kenin Lamarque/Reuters

Há duas maneiras de olhar para a cimeira da Aliança Atlântica que hoje começa em Bruxelas. Uma, que defende que as críticas constantes do Presidente americano aos seus aliados europeus são apenas circunstanciais e que, no terreno, nada de significativo mudou. Uma outra, que olha para o crescente distanciamento de Donald Trump com muito maior preocupação, admitindo que se trata de uma ruptura que pode ter consequências profundas para a Europa, para a relação transatlântica e, consequentemente, para o mundo. Hoje, são mais os adeptos da segunda leitura do que da primeira. A cimeira que tem início nesta quarta-feira em Bruxelas, a segunda em que Donald Trump participa, servirá, talvez, de tira teimas. Não que os aliados europeus esperem grande coisa dela, mas porque há o risco de sair da reunião a mensagem errada para os outros pólos do poder mundial, levando-os a tirar as conclusões erradas. Os casos mais óbvios são, naturalmente, a Rússia e a China. Ainda que de modo diferente, ambas querem tirar partido das fraquezas e das divisões europeias. Tudo será mais fácil se a poderosa aliança político-militar entre os dois lados do Atlântico, que dura há 70 anos, começar a dar sinais de fraqueza. Há muito em jogo neste reencontro com Trump, mesmo que sejam escassas as expectativas.

Há um ano, sem luva branca

Desde que, há um ano, em Bruxelas, o Presidente americano se apresentou sem luva branca, utilizando uma linguagem até então desconhecida pelos aliados e recusando-se a mencionar o Artigo 5.º do Tratado de Washington, as relações transatlânticas têm-se deteriorado em praticamente em todos os tabuleiros. Durante a campanha eleitoral, ficou gravada na memória dos aliados uma palavra que resume aquilo que, na sua maioria, mais temem: a Nato está “obsoleta”. Durante um ano, Trump mostrou até que ponto a sua política externa representa uma viragem de 180 graus, sem deixar quase nada de pé. Despreza a integração europeia, que os EUA ajudaram a criar na sequência da II Guerra, com dois objectivos principais: integrar a Alemanha no concerto das nações civilizadas; enfrentar a nova ameaça soviética cuja frente de batalha atravessava o continente europeu.

A prova real desta mudança do Presidente dos EUA é o seu apoio explícito às forças políticas populistas ou de extrema-direita que ganham terreno nas democracias europeias. Escolheu a Alemanha como o seu principal “inimigo”, enquanto os anteriores presidentes, desde Bush (pai) até Obama, a elegeram como interlocutor preferencial. A NATO garantiu a segurança europeia durante os anos da Guerra Fria. Sobreviveu à implosão da União Soviética e à unificação do continente. Impôs a paz nos Balcãs, depois das guerras que resultaram da desagregação da antiga Jugoslávia. Interveio a milhares de quilómetros das suas fronteiras, para responder ao 11 de Setembro. Argumentam os crentes na ideia de que sobreviverá a mais esta crise, que, até agora, nada de fundamental mudou. Os EUA não retiraram tropas da Europa. Participam nas missões militares da Aliança na fronteira com a Rússia, para dissuadi-la de qualquer aventura em relação aos Bálticos ou à Polónia. Os esforços de adaptação, quase constantes, da sua estrutura militar continuam, tentando responder à volatilidade dos riscos e das ameaças com que se confronta. Confiam em James Mattis, o secretário da Defesa americano, que tem tentado minimizar os danos causados pela política do seu Presidente. “Os europeus olham-no como a última barreira para evitar um desastre”, escreve a Reuters. Mas, nos últimos meses, acrescenta a agência, tornou-se cada vez mais claro que o chefe do Pentágono tem uma influência cada vez mais limitada sobre o Presidente.

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Alguns analistas menos alarmistas lembram também que a cimeira pode vir a aprovar algumas reformas, que incluem dois novos comandos militares cujo objectivo é dissuadir a Rússia, um dos quais ficará sob responsabilidade americana. O chefe do Pentágono, lembra o antigo embaixador de Obama na NATO, Ivo Daalder, conseguiu aumentar as verbas destinadas ao financiamento da Iniciativa de Dissuasão Europeia, criada pelos EUA para tranquilizar os aliados mais nervosos com a agressão da Rússia à Ucrânia e a anexação da Crimeia. As vozes mais críticas insistem, no entanto, em que a participação de Mattis nos trabalhos da Aliança é cada vez mais limitada ao estritamente militar. Viu-se o que aconteceu a Rex Tillerson, o primeiro secretário de Estado, substituído em menos de 24 horas por Mike Pompeo.

O fim das ilusões

O ano que passou matou nos europeus qualquer ilusão de que as coisas podiam não ser tão más como a campanha presidencial anunciava. Tentaram a “política do charme”. Desistiram. Escreve o Politico que se renderam uma nova “estratégia”: “limitar ao máximo os motivos de conflito e esperar que ele saia”. Os últimos exemplos demonstraram que o Presidente americano não só age por impulso como não tem o menor interesse na relação transatlântica nem no futuro da União Europeia. O que aconteceu na cimeira do G7 no Quebeque foi a gota de água que fez transbordar o copo. O grupo dos sete países mais ricos e a Aliança Atlântica não são organizações comparáveis. A primeira foi criada para coordenar as políticas económicas e monetárias desses países que, com o tempo, foram integrando na agenda as questões internacionais mais relevantes. A segunda foi a aliança estruturante do Ocidente para enfrentar a Guerra Fria, garantindo a defesa do mundo livre contra o totalitarismo soviético. Foi construída sobre um conjunto de valores e de interesses comuns. É justamente a ideia de que o Ocidente está a ser posto em causa pelo país mais poderoso do mundo, que o liderou durante 70 anos, que coloca a Europa perante as suas próprias fraquezas. Deixou de poder ignorá-las.

Sobre a NATO, a política de Trump resume-se a única ideia: quem quer segurança, paga-a. Olha a presença dos EUA na NATO como uma prestação de serviços que a Europa pode e deve pagar. Interesses ou valores comuns não entram na sua linguagem. Apesar dos esforços de secretário-geral da NATO, o norueguês Jens Stoltenberg, para mostrar a Trump que “a sua liderança esclarecida” já tinha levado os aliados a aumentar o seu esforço financeiro com a defesa, ninguém tem grandes esperanças de que Trump desista de fazer dele o tema que dominará a reunião.

Não é a mesma coisa

Dizem as vozes mais criticas da Europa que não haverá uma grande diferença entre o que Trump exige aos aliados e o que exigiram os anteriores presidentes, incluindo alguns tão próximos como Clinton e Obama. Não é bem assim. “Os debates sobre a ‘partilha do fardo’ são tradicionais nas cimeiras da NATO”, escreve Jeremy Shapiro da Brooking Institution. “A grande diferença é que Trump tem uma enorme vantagem sobre os anteriores presidentes para obrigar os europeus a gastarem mais”. Explica qual é: “Como não dá a menor importância à relação transatlântica, consegue ameaçar de forma mais credível os aliados com a saída dos EUA.” Ou seja, com o fim da NATO. Prossegue Shapiro: “Como os europeus continuam a depender das garantias norte-americanas para a sua defesa, não querem correr o menor risco de ficar sem elas, fazendo o que podem para satisfazer as suas exigências”.

Angela Merkel tem prometido quase todos os dias que o seu país vai gastar mais. Como diz um dos seus porta-voz, “não há Plano B para a defesa europeia, se os americanos se desinteressarem.” É este o drama que Trump explora a seu belo prazer. Judy Dempsey, do Carnegie Europe, é igualmente directa: “Trump está a questionar o papel da NATO implicitamente, da mesma maneira que já questionou a relevância de outras organizações multilaterais”.

A sombra da Rússia

Para a maioria dos analistas, a questão essencial é a mensagem que sairá da cimeira para o mundo. Nenhuma organização desta natureza pode viver num clima de total imprevisibilidade, sob pena de deixar de cumprir o seu objectivo. Mas não foi certamente por acaso que o Presidente americano decidiu realizar a primeira cimeira com o seu homólogo russo quatro dias depois da reunião que começa em Bruxelas. Para os europeus, esta é a sombra mais pesada. Sem os EUA, é impossível praticar uma política de dissuasão em relação ao seu grande vizinho do Leste. A Rússia tornou-se, para muitos países europeus, a começar pela Alemanha, na maior ameaça à sua segurança. A forma como decorreu o G7 deu-lhes uma visão clara do que pensa Trump sobre o “homem forte” que governa em Moscovo. Chegou ao Quebeque anunciando que a Rússia devia ser convidada a regressar. Foi convidada a sair depois da invasão do Leste da Ucrânia e da anexação da Crimeia. Nada aconteceu até agora que tenha mudado a situação. O Presidente dos EUA chegou a dizer aos seus parceiros que a Crimeia pertencia à Rússia.

A cimeira Trump-Putin em Helsínquia, no dia 16, decorre num momento em que são más as relações entre Moscovo e Washington. As razões são conhecidas. Vão da ingerência nas eleições de 2016 até à guerra na Síria, cujo regime sobrevive graças a Putin, passando pela ocupação da Crimeia ou as manobras de desestabilização que o Kremlin pratica contra alguns aliados europeus mais vulneráveis. “A NATO precisa de reforçar a sua presença na  fronteira leste, para defender-se de uma potencial agressão russa”, disse a chanceler alemã Angela Merkel. Não poderia ser mais directa. Quando alguns jornalistas americanos perguntaram ao Presidente se admitia a possibilidade de reconhecer a Crimeia, a sua resposta não podia ter sido mais lacónica: “Vamos ter de olhar para isso”. Está, portanto, tudo em aberto.