Pela primeira vez não há uma maioria de conservadores e socialistas no Parlamento Europeu

A noite eleitoral teve duas narrativas: a do aumento da participação nas europeias e a do crescimento das bancadas vincadamente europeístas, a desafiarem o poder do tradicional bloco de centro-direita e centro-esquerda. Eleitores travam maré populista e acabam com o “monopólio” do PPE. Socialistas e liberais reclamam mandato para negociar cargos de topo.

Foto
Frans Timmermans OLIVIER HOSLET/EPA

Contados os votos dos mais de 400 milhões de eleitores dos 28 Estados-membros da União Europeia e apurados os resultados da eleição para o Parlamento Europeu, neste domingo, a campanha recomeça já nesta segunda-feira, quando os líderes dos principais partidos políticos europeus se juntarem para começar a negociar “uma nova maioria de governo forte e estável” no hemiciclo. Na terça-feira será a vez de os chefes de Estado e de Governo se reunirem para começar a acertar agulhas para a distribuição dos cargos dirigentes das instituições comunitárias.

Do que se pode perceber em função dos resultados da votação para o Parlamento Europeu, nem um nem outro processo vão ser rápidos. Ou simples. Como anunciavam as sondagens, o equilíbrio de forças do próximo Parlamento Europeu será muito diferente do actual. Mas ao contrário do que se esperava, a dispersão de votos não beneficiou exclusivamente os partidos populistas e nacionalistas — uma das “narrativas” da noite eleitoral foi a da afirmação de dois novos blocos progressistas e reformadores, vincadamente pró-europeus, com o reforço significativo da bancada liberal e a ascensão dos Verdes a desafiarem o tradicional “bloco central” do centro-direita e centro-esquerda.

Como a vitória nas eleições europeias pertence ao grupo que consegue o maior número de assentos no Parlamento Europeu, o vencedor continuou a ser o Partido Popular Europeu (PPE), que, segundo os resultados preliminares, assegurou 178 lugares no hemiciclo. O bloco conservador vai manter-se como a maior força política da próxima legislatura, graças aos triunfos da CDU de Angela Merkel na Alemanha, do Partido Popular Austríaco (ÖVP) do chanceler Sebastian Kurz, ou do espanhol PP — já para não falar no polémico Fidesz, que conquistou dos votos na Hungria.

Apesar de reter a maioria, o PPE não obteve um bom resultado. “Para nós, o principal sentimento esta noite não é de vitória”, admitiu Manfred Weber, o líder da bancada conservadora e cabeça de lista do PPE na corrida à presidência da Comissão Europeia. Favorito no arranque da campanha, as suas hipóteses para se afirmar como o substituto de Jean-Claude Juncker à frente do executivo comunitário pareceram esfumar-se com a contagem dos votos. Sem perder tempo, os seus principais concorrentes — o socialista holandês, Frans Timmermans, ou a liberal dinamarquesa Margrethe Vestager — defenderam a negociação de uma coligação

A pretensão de Timmermans à liderança da Comissão levou o seu Partido Trabalhista a uma vitória inesperada na Holanda. Mas, tal como o PPE, o grupo dos Socialistas & Democratas perdeu força no próximo Parlamento Europeu.

Na actual legislatura, PPE e S&D detêm uma maioria confortável de 401 votos. No próximo Parlamento, juntos alcançarão 320 votos, o que os obrigará necessariamente a negociar com outras forças políticas uma maioria de trabalho e um programa político para os próximos cinco anos. “Quando olho para os números, não vejo nenhuma maioria que não tenha o PPE, os Socialistas e os Liberais. Durante a campanha mostrámos as nossas diferenças, mas agora é do nosso interesse juntar esforços e trabalhar em conjunto”, vincou Manfred Weber. 

Para o Spitzenkandidat (cabeça de lista) do PPE, “os Verdes também são possíveis parceiros”, mas não as forças populistas e de extrema-direita, que conseguiram engrossar as suas fileiras mas não criar uma nova maré nacionalista europeia como se chegou a temer.

Com a implosão eleitoral do Partido Conservador britânico, o grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus foi a única bancada da direita que acabou mal a noite. Perdeu 16 lugares, dos actuais 77 para 61. O seu vice-presidente, Hans Olaf Henkel, esforçou-se por desvalorizar o mau resultado, mas acabou por chamar atenção para o grande impacto do “Brexit” ao pedir que o próximo Parlamento “faça tudo o que for possível para manter o Reino Unido dentro da UE”. De resto, mostrou-se satisfeito com o facto de “os populistas não terem conseguido a maioria que queriam”.

De facto, os eleitores europeus não premiaram as forças populistas como esperado. Na franja mais à direita do espectro político, os grupos da Europa da Liberdade e Democracia Directa, que sobe aos 53 membros, e da Europa das Nações e da Liberdade, que cresce para os 54 membros, cantaram vitória (embora não no palco do hemiciclo do Parlamento Europeu, convertido numa gigantesca sala de imprensa, onde não puseram os pés). O seu impacto far-se-á sentir quando os novos eurodeputados tomarem posse: todas as outras famílias políticas comprometeram-se a excluí-los das negociações dos cargos dirigentes.

Também excluído, força de um resultado muito abaixo das expectativas, estará o GUE — Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde, que perde mais de dez assentos e elege apenas 39 eurodeputados (resultados preliminares). A confirmarem-se estes números, a extrema-esquerda torna-se a menor bancada do Parlamento Europeu. É neste grupo que se sentam os eurodeputados eleitos pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda em Portugal.

Notoriamente satisfeito com um resultado que classificou como “histórico”, o belga Guy Verhofstadt reclamou para o seu grupo dos Liberais — reforçado com mais 19 membros graças à inclusão do movimento Renascença do Presidente francês, Emmanuel Macron, e outros partidos novos como os surpreendentes romenos USR Plus — o estatuto de “king maker”. “Já não teremos, como no passado, dois grupos a distribuir cargos entre eles”, salientou, confirmando que o ALDE está preparado e “disponível” para negociar uma “nova maioria de governo forte e estável, tanto no Parlamento Europeu como nas instituições”.

Na mesma linha, a comissária com a pasta da Concorrência, Margrethe Vestager, assinalou que, graças à nova força dos liberais e dos Verdes, “a conversa desta vez será diferente”. “O meu trabalho há cinco anos é quebrar monopólios. E esta noite, no Parlamento Europeu, o monopólio do poder foi quebrado”, afirmou, acreditando na construção de “uma nova coligação de partidos que querem fazer as coisas de maneira diferente”. O líder da bancada do S&D, Udo Bullman, também usou o mesmo termo ao assinalar que a ocupação dos principais cargos nas instituições europeias “não é um monopólio natural do PPE”.

“A Europa precisa de uma nova dinâmica. Estou muito optimista porque a mensagem que as pessoas nos deram hoje foi de que querem acção”, disse Frans Timmermans, que tal como os restantes Spitzenkandidaten chamou a atenção para a outra “narrativa” da noite: o aumento da taxa de participação no acto eleitoral, com a afluência às urnas nos 29 Estados-membros a ficar nos 50,5%. Trata-se da melhor votação dos últimos 29 anos, e da primeira vez que a participação aumentou de um ciclo eleitoral para o outro na Europa. Nesse particular, Portugal distinguiu-se pela negativa, sendo o país com o segundo pior registo de participação.